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Bangu Atlético Clube: simpáticas recordações, desejos de vitória

Alexandre Fernandez Vaz

Para Leonardo Soares Silva de Melo

 

Sempre admirei Pelé, por motivos óbvios. Ao mesmo tempo, me incomoda a perseguição que sofre pelas eventuais ideias e falas infelizes que, se incomodam, não são mais graves das proferidas por muitos outros com quem, finalmente, se tem mais condescendência. Quando era criança tínhamos em casa um livro intitulado Jogando com Pelé, com orientações diversas sobre o futebol, com exercícios técnicos, cuidados com o corpo, compromissos com a equipe. A leitura de jornais diários, da Placar, de livros e de pequenos catálogos que vinham com os times de futebol de botão, alimentava a imaginação e ajudava a construir a narrativa que dava forma, em meu registro pessoal, ao grande ídolo. Das várias histórias sobre nosso o maior dos craques, uma das que mais me impressionavam era a de que ele jogara como goleiro meio tempo de uma partida pela Copa Brasil, depois da expulsão de Cejas, arqueiro argentino do Santos. Para que se pudesse prescindir de Pelé como atacante, levando-o à meta defensiva, era porque o Rei era craque também com as mãos. Outra delas era a que ele havia marcado cinquenta e duas vezes, em cinquenta jogos, contra o Corinthians.

Como corintiano, mas sem ter vivido de fato os tempos de vítima de Pelé, a história dos muitos gols sempre me fascinou. Eles coincidiram, em grande parte, com o longo jejum de vitórias que o Timão viveu frente ao Peixe, onze anos. A sina foi quebrada em 1968, um jogo histórico para o time do Parque São Jorge que, em abstinência de títulos, ao menos viu o grande Santos derrotado. Um dos gols foi de Flávio, centroavante que seria campeão brasileiro e artilheiro pelo Internacional de Porto Alegre, em 1975, quando somou ao nome o apelido de Minuano – o vento forte e frio que sopra no Uruguai e no Sul do Brasil. O outro foi de Paulo Borges, atacante pela direita que estreava, vindo do Bangu Atlético Clube. Dois anos antes ele se destacara pelo título de campeão carioca e pela condição de goleador máximo do certame. A final foi marcante pelos três a zero sobre o Flamengo, mas também pela confusão, conta-se, perpetrada por Almir, o Pernambuquinho, campeão intercontinental três anos antes, pelo Santos.

Quando li sobre o episódio acima pela primeira vez, o Bangu já não era o clube com o poderio de antes, mas acabei simpatizando com ele. Ainda criança, em um campeonato de futebol de botão na escola, escolhi representar o time carioca depois de minha primeira opção – o Corinthians, claro – ser rejeitada porque outro menino já a elegera. Com meus botões de plástico derrotei vários times de acrílico para chegar ao quadrangular final e alcançar o segundo lugar.

Time do Bangu que se sagrou campeão carioca de 1966. Em pé: Mário Tito, Ubirajara, Luiz Alberto, Ari Clemente, Fidelis e Jayme. Agachados: Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim. Foto: Reprodução.

O Bangu está agora em outro quadrangular, muito mais sério (ou nem tanto), o do Campeonato Carioca. Na semana passada estive na semifinal do segundo turno do torneio, quando a equipe do subúrbio enfrentou no Estádio do Maracanã o Vasco da Gama, em busca de um lugar na final. Não teve êxito, mas fez um belo jogo, principalmente no segundo tempo. Foi um prazer assistir à peleja em meio à torcida alvirrubra, vibrante e cheia de orgulho de seu time que, mesmo derrotado, foi por ela aplaudido ao final da contenda.

Não deixou de chamar a atenção que houvesse um pequeno castor estampado em muitas das camisetas da torcida do Bangu. A referência, claro, era a Castor de Andrade, o patrono do clube, um “Figurão Contravenção”, como reza a canção de Fausto Fawcett, Kátia Flávia, a Godiva do Irajá. Banqueiro do jogo do bicho dos mais importantes nas décadas de 1970 e 1980, o cartola montou um timaço em 1986, com Marinho, Mauro Galvão, Neto e Arturzinho, depois de ser vice-campeão brasileiro no ano anterior. Se o título escapou por muito pouco em 1985, na final decidida nos pênaltis contra o Coritiba no Maracanã, um ano depois o time não deu liga.

Muito tempo depois de tudo isso, lendo um ensaio de Décio de Almeida Prado sobre futebol, fui surpreendido por uma menção muito particular. O grande crítico de teatro louvava o futebol de Leônidas, inscrevendo-o na tradição brasileira de nossos melhores jogadores, os atacantes. Entre eles, mas jogando atrás, na defesa, a exceção à regra: Domingos da Guia[1]. Um defensor destacando-se em meio aos maravilhosos goleadores brasileiros. Oriundo do Bangu, vitorioso no Brasil, Uruguai e Argentina, beque clássico que não dava pontapés, teve o filho Ademir também revelado no clube, depois transferido para o Palmeiras, onde já chegou com fama de craque. No Palestra Itália, o Da Guia filho se tornaria O Divino.

Suponho que tenha sido a figura de Paulo Borges quem me ligou afetivamente ao Bangu, pois eu o tinha em meu escrete de botões do Corinthians. Sob minha orientação ele jogava de meia-atacante, ao invés de na ponta. O Timão, como a equipe de Moça Bonita, não era um contumaz vencedor, ao contrário. Anos depois, meu time de devoção começou a ganhar títulos e não parou mais. Torço para que a hora e a vez do Bangu comecem nas finas deste Carioca. Ficarei na torcida.

Ilha de Santa Catarina, abril de 2019.


[1] Tratei da questão em Soccer, Improvisation, Clichés: Brazilianness in Dispute, Critical Studies in Improvisation / Études critiques en improvisation, Vol 7, No 1 (2011).