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Entre Barbosa e Ghiggia, do Maracanaço ao Maracanazo

Pedro Henrique Brandão

A decisão da Copa do Mundo de 1950 despertou sentimentos distintos para brasileiros e uruguaios. Enquanto o Uruguai cultivou a idolatria por Ghiggia, o Brasil desprezou e condenou Barbosa a maior e mais injusta sentença da história do futebol brasileiro

O relógio do árbitro inglês George Reader marcava 34 minutos do segundo tempo. Nas arquibancadas do recém inaugurado “maior estádio do mundo”, o Maracanã, cerca de 200 mil almas se acotovelavam para ver a Seleção Brasileira campeã do mundo pela primeira vez.

Em campo, Friaça, pelo Brasil, e Schiaffino, do lado uruguaio, anotaram os gols que garantiam o empate que daria o título brasileiro, até que Alcides Ghiggia dominou a bola pela ponta direita do ataque celeste, carregou em velocidade e chutou forte no canto baixo. A bola passou entre a trave e o goleiro Barbosa, que não conseguiu evitar o gol que deu o título, contra todas as expectativas, ao Uruguai.

Gol de Ghiggia na final da Copa do Mundo de 1950, que selou a virada uruguaia e a derrota brasileira. Foto: Divulgação.

A imagem é conhecida por qualquer amante de futebol e até por aqueles que só se interessam pelo assunto de quatro em quatro anos, na Copa do Mundo, afinal, do lado brasileiro, o jogo foi vendido à exaustão como uma tragédia.

Porém, o lance é o encontro entre duas realidades distintas, a de Barbosa e a Ghiggia, que representam as duas faces daquela partida: a frustração brasileira e a glória uruguaia.

Quando Ghiggia dominou a bola e marcou o famoso gol, tinha 23 anos, havia feito sua estreia pela Celeste algumas semanas antes da Copa e não era nem de longe um dos principais nomes do futebol uruguaio. Ao chutar forte no canto de Barbosa e garantir o bicampeonato mundial ao Uruguai, Ghiggia, o autor do Maracanazo, ganhou seu passaporte para a eternidade.

Por outro lado, Barbosa era um dos principais goleiros brasileiros entre a segunda metade dos anos 1940 e início dos 50, homem de confiança de Flávio Costa e arqueiro de um dos times mais vitoriosos da história do Vasco da Gama. Mesmo assim, Moacyr Barbosa foi culpado pela derrota e carregou o estigma do Maracanaço até o fim de sua vida.

Reduzir a carreira e a vida de dois homens a um jogo, mais ainda no caso Barbosa e Ghiggia, a um único lance é cruel, mas aquele chute aos 34 minutos do segundo tempo, 70 anos atrás, definiu não apenas o resto das existências do goleiro e do ponta-direita, o Maracanaço e Maracanazo são as sínteses dos projetos de nação brasileira e uruguaia.

Os uruguaios abraçaram com todas as glórias um ilustre desconhecido que foi colocado em igualdade ao um time de craques como Schiaffino e de guerreiros como Obdúlio Varela. É difícil acreditar, mas Alcides Ghiggia defendeu o Uruguai em apenas 12 partidas.

Foram muitas as vezes em que Ghiggia foi reverenciado por seus compatriotas, como em 2013, quando milhares de uruguaios encheram o Centenário para “gritar o gol que nunca foi ouvido”. A intenção era dar de presente ao jogador a comemoração que nunca existiu, já que o Maracanã se calou assim que seu chute balançou as redes brasileiras.

Com Barbosa, a reação foi contrária e extremamente injusta. Nunca discutiu-se o esquema tático de Flávio Costa, que deixava os uruguaios em vantagem numérica no campo de ataque, o fato de Bigode não ter alcançado Ghiggia na corrida, o improviso do camisa 7 da Celeste no chute ao gol já que no empate havia cruzado para Schiaffino, ou toda a pressão de políticos que invadiram a concentração brasileira na véspera da final para sair na foto do time campeão e o clima de “já ganhou” na imprensa que motivou os uruguaios.

Barbosa. Foto: Wikipedia.

Tudo foi colocado nos ombros de Barbosa. A frustração do Brasil que acreditava ser “o país do futuro” e queria se mostrar ao mundo como a “pátria de chuteiras” no pós guerra. Um castigo desumano foi imposto a Barbosa que foi perseguido como o bode expiatório da derrota.

Barbosa passou os quase 50 anos que teve de vida, após o dia 16 de julho de 1950, tendo que explicar, em entrevistas inquisitórias, o maldito gol. Numa dessas conversas, disse:

“No Brasil, a pena máxima é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”. 

Continuou pagando sua sentença perpétua até o dia 7 de abril de 2000, quando morreu pouco mais de três meses antes do Maracanaço completar cinco décadas.

A perseguição a Barbosa é mais um sintoma do negacionismo brasileiro, que sempre atribui seus fracassos a outras causas que não a própria incapacidade e para explicar os insucessos se agarra ao juiz ladrão, ao jogador dopado, ao esquema que “se as pessoas soubessem, ficariam enojadas” e até a cloroquina que salvaria o planeta da pandemia. Sobre a injusta perseguição sofrida por Barbosa, Nelson Rodrigues escreveu:

“Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta da derrota. O gol de Ghiggia ficou gravado, na memória nacional, como um frango eterno. O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da espanhola, do assassinato de Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado “frango” de Barbosa”.

Barbosa também enfrentou o racismo e seu caso fez crescer um preconceito no meio futebolístico que já foi externado por Edílson. Ao comentar as atuações de Jaílson, goleiro palmeirense, o ex-jogador disse:

“Tá vendo o que eu falei? Goleiro negão sempre toma um gol”.

Ghiggia também passou a vida falando muito sobre o Maracanazzo, mas a frase do uruguaio mais conhecida sobre a tarde em que o Uruguai se sagrou bicampeão do mundo é diametralmente oposta à situação de Barbosa:

“Apenas três pessoas calaram o Maracanã: o Papa João Paulo II, Frank Sinatra e eu”.

O dia 16 de julho ficou marcado na vida de Alcides Ghiggia. Em 1950, o atacante anotou o gol que levou seu nome para a eternidade. Na mesma data em 2015, morreu justamente no aniversário de 65 anos do Maracanazo.

Há 70 anos, o Brasil chorou a derrota contra o Uruguai e por muito tempo — até o 7 a 1 — viu no Maracanaço seu maior trauma futebolístico. No entanto, pelo lado uruguaio, o Maracanazo também foi um episódio importante, porém de extrema alegria.

Existe o futebol antes e depois do Maracanaço ou Maracanazo. Para além do gramado e dos resultados esportivos, Barbosa e Ghiggia foram os personagens centrais e que melhor traduziram os significados da decisão da Copa do Mundo de 1950 para Brasil e Uruguai.