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Barcelona: uma semana sem futebol na cidade que respira futebol

Victor de Leonardo Figols

Cheguei à Espanha no final de janeiro para cumprir mais uma etapa da minha pesquisa. Àquela altura quaisquer notícias sobre o coronavírus eram algo distante da realidade espanhola, eram algo localizado na China, e a sensação era de que não chegaria aqui com a mesma força. A minha primeira parada – de três programadas – foi Barcelona, uma cidade que eu já conhecia, ainda que minimamente, de quando também vim para pesquisar.

Conhecendo um pouco a cidade, e a história do futebol por aqui, eu sabia que Barcelona não se resumia apenas ao FC Barcelona, e que ia muito além do RCD Espanyol também. Barcelona é uma cidade futeboleira, que respira futebol, que respira futebóis.

Tão logo me fixei no bairro de Vila de Gràcia, procurei saber qual era o estádio mais próximo. E descobri que em menos de 1 km de onde eu estava, havia o estádio Nou Sardenya, do tradicional Club Esportiu Europa. É o clube do bairro. Não muito longe dali, estavam o Unió Esportiva Sant Andreu e, um pouco mais longe, o Club Esportiu Júpiter. Três clubes centenários, três clubes importantes para a história do futebol catalão, e para o futebol barcelonês. Três clubes, dentre tantos outros da cidade, que vivem à sobra do gigante da cidade.

CE Europa 2 x 1 CE Mercantil, Juvenil C, Nou Sardenya, 09 fev. 2020. Foto: Victor de Leonardo Figols.

Durante todo o mês de fevereiro, minha rotina semanal resumia-se a ir ao arquivo do FC Barcelona, no Camp Nou, e às bibliotecas públicas para estudar e escrever. Mas era nos finais de semana que eu aproveitava a vida futebolística por aqui. Quase todos os finais de semana eu visitava o Nou Sardenya, para ver jogos da equipe sub-17 ou sub-19, ou simplesmente para dar uma volta no estádio. Cheguei a entrar no Nou Sardenya, sentar nas arquibancadas só para ver as crianças que pulavam o alambrado para jogar no gramado, enquanto no bar os pais observavam seus filhos jogando. O Nou Sardenya representa um espaço de sociabilidade, remete a uma ideia de comunidade, de bairro. É um lugar de lazer, mas também um espaço para encontrar amigos e vizinhos, ver futebol ou aproveitar o bar do estádio.

Mas nem só desse futebol (semi-)profissionalizado que Barcelona vive, existe outro futebol que é extremamente popular entre as crianças, o futebol de rua, ou melhor, o futebol de praças. A Vila Gràcia tem muitas praças, e é muito fácil andar pelo bairro e encontrar mais de um grupo de meninos e meninas chutando uma bola, ou mesmo pais e filhos trocando passes. Onde há espaço para chutar uma bola, você pode encontrar as crianças jogando. Nas minhas andanças, cansei de encontrar esse futebol pelo bairro, e até mesmo em outros bairros, eu só não me cansava de parar um minuto e observar o jogo.

Eu havia me planejado para ir ao estádio do UE Sant Andreu, ver um jogo e observar os Desperdicis de perto. Mas não deu tempo. O mês de março já começou registrando os primeiros infectados pelo coronavírus. Mesmo assim, a vida seguia na normalidade. E a vida futebolística também, tanto que no dia 7, consegui, finalmente, assistir a um jogo no Camp Nou. Não imaginava que seria o último jogo do FC Barcelona. O Camp Nou não estava lotado, mas havia mais de 75 mil pessoas – muitos turistas – para assistir a vitória de 1 a 0 sobre a Real Sociedad. O clube blaugrana foi salvo pelo VAR.

Na segunda-feira, dia 9 de março, com mais de 500 casos registrados, só em Madrid, a Comunidad de Madrid decidiu fechar escolas, universidades, museus e arquivos. Justamente nesse dia, eu estava planejando a minha ida para a capital espanhola. Minha ideia era chegar dia 15 de março, achei prudente esperar e não comprar as passagens de trem. No dia 11, a Região recomendou que não viajasse para lá. Sábia decisão não ter comprado as passagens. No dia 12, na Catalunha, o município de Igualada e os municípios vizinhos foram completamente isolados, pois haviam identificado um foco muito grande de infecção. Naquela quarta-feira, a Espanha já estava perto dos 1.000 infectados e já registrava as primeiras mortes também.

Pai e filho jogam futebol na Plaça de Tetuan, em Barcelona, Catalunha, Espanha, fevereiro de 2020. Foto: Victor de Leonardo Figols.

Mais ainda, naquela quarta-feira, em Valencia, o Valencia CF recebeu a Atalanta BC, com portões fechados, em jogo válido pela UEFA Champions Legue. Depois disso, o futebol foi suspenso, pelo menos os jogos da Champions. A La Liga só foi suspensa dois dias depois.

Na quinta-feira, fui ao arquivo do FC Barcelona, como vinha fazendo desde o mês passado. O fato de o arquivo estar no complexo do Camp Nou permitia-me observar o fluxo de turistas, uma vez que o Museu FC Barcelona é o museu mais visitado da cidade, chegando facilmente ao número de dois milhões de visitas anuais. E é muito significativo que em uma cidade com tantos museus, o mais visitado seja o de um clube de futebol. Mas naquela semana já era visível que o número de visitantes tinha diminuído bastante.

Ainda naquela quinta-feira, o diretor do arquivo me informou que eu não poderia ir mais fazer as consultas no local. Por determinação da Generalitat de Catalunya, escolas, universidades, museus e arquivos seriam fechados a partir do dia 12, sexta-feira, e que, a partir dali, quem pudesse trabalharia em casa. Ali começava o meu isolamento. No sábado, ainda sem as proibições de sair na rua, fui ao mercado comprar o básico para passar as próximas duas semanas, pois as notícias davam conta de que medidas de isolamento seriam adotadas muito em breve. Naquele sábado, o futebol profissional e o semiprofissional já estavam suspensos em toda a Espanha, e já não se via mais aquele futebol das praças. As coisas estavam mudando, e rápido.

Ainda naquele sábado, com quase 4.500 casos positivos, e cerca de 120 falecidos, o estado espanhol decretou o Estado de Alarma, um regime excepcional para tentar conter a propagação do vírus. A partir do domingo, só poderia sair na rua para ir ao mercado ou à farmácia. Essa determinação seria por 14 dias.

Hoje, dia 22 de março, uma semana depois do decreto de Estado de Alarma, a Espanha praticamente parou, o país está trabalhando para que não falte abastecimento nos mercados e nas farmácias, está tentando manter o mínimo de serviços básicos para que as pessoas fiquem em casa. No dia que esse texto foi publicado, a Espanha tinha registrado mais de 28.500 casos positivos e 1.753 mortes. E a última notícia é que o país vai precisar manter o isolamento, por pelo menos, mais 14 dias.

Enquanto isso, o futebol virou pauta secundária nos canais de notícias. Os canais esportivos da TV aberta mudaram completamente a programação, até reprisam jogos antigos, mas agora estão mais voltados para a cobertura da pandemia. Como o campeonato está parado desde a semana passada, a La Liga está vendendo um pacote de streaming de jogos antigos, desta temporada e jogos históricos. Além disso, está organizando um campeonato virtual no FIFA 20.

O canal Barça TV está reprisando jogos, de quase todas as categorias do clube. São reprises de jogos recentes e, claro, de jogos históricos. O que tem valido a pena são os documentários sobre o clube, como por exemplo, o Dream Team: el sueño que cambió el fútbol, que passou esta tarde.

Por aqui, a vida já mudou, o futebol profissional está longe de voltar a ser jogado, assim como o futebol das praças. Por aqui, a vida já mudou e o futebol também.

Referências

Casos confirmados en España.

Situación de COVID-19 en España.