94.11

Batismo de fogo

José Paulo Florenzano

O advento de um novo sujeito coletivo nos estádios paulistas estava sendo gestado desde meados da década de sessenta, mas somente na passagem para os anos setenta ele viria adquirir feição mais nítida, conforme salienta Flávio La Selva, líder da organizada do Corinthians: “Os Gaviões foram formados em 1964, mas só começamos a entrar no gosto do grande público a partir de 1968”, declarava ele à revista Placar, deixando entrever a representatividade que os jovens fundadores almejavam alcançar no território imaginário das arquibancadas, a saber, o de serem “reconhecidos inclusive pelas torcidas adversárias como a verdadeira torcida do Corinthians”.[1] A entrada na cena futebolística do novo agrupamento, no entanto, revestir-se-ia rapidamente de um caráter político, militante e radical. De fato, segundo Flávio La Selva, no decorrer da Taça de Prata de 1969 o então presidente do clube, Wadi Helu, incomodado com as ações de protesto, decidira constituir e financiar uma “bandinha” com a incumbência estratégica de acompanhar os jogos do time “para combater os Gaviões”.

Mas os Gaviões não se intimidaram, ao contrário, assumiram e reivindicaram a condição de atores autônomos dos estádios cujas ações convertiam as arquibancadas em espaço público aberto ao exercício do jogo democrático. Através de faixas inspiradas no vocabulário das manifestações estudantis do período, eles marcavam posição contra o dirigente que desejava se perpetuar no poder: “Fora Wadi, protestamos contra Wadi, cachorrada”.[2] Os encontros do alvinegro ofereciam, doravante, a oportunidade aguardada para veicular as mensagens de cunho político. Em um sábado à noite de meados de abril, por exemplo, pouco antes da Copa de 1970, enquanto no gramado Palmeiras e Corinthians promoviam um monótono empate sem gols, nas arquibancadas do Parque Antártica os torcedores do alvinegro realizavam uma criativa combinação de palavras: “Basta!!! Chega de Helusão”.[3]

batismocapa

Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

As manifestações de protesto, a rigor, estavam presentes tanto nos estádios de futebol quanto na seção de cartas da revista Placar. Às vésperas da Copa do México ela registrava a palavra de ordem de um missivista que solicitava o “máximo apoio” do semanário esportivo “à campanha dos Gaviões da Fiel contra o presidente Wadi Helu”.[4] A seção de cartas nos permite acompanhar não somente as mensagens de repúdio à autocracia implantada no clube, como, também, os contatos iniciais estabelecidos no início dos anos setenta com base na identidade comum dos assim denominados times do povo: “Alô, torcidas do Flamengo e Atlético”, saudava Cláudio Romero, “os Gaviões da Fiel torcem por vocês neste Robertão”.[5] O autor da missiva merece reter a nossa atenção pelo duplo movimento que sua carta prenunciava, a saber: de um lado, a articulação de uma rede de alianças envolvendo as organizadas de vários estados; e, de outro lado, a fragmentação interna no universo de uma mesma arquibancada, ensejando o surgimento de inúmeros agrupamentos torcedores. De fato, já no ano de 1971 vinha a lume a Camisa 12, associação fundada por Cláudio Romero a partir de uma dissidência dos Gaviões. Mas não nos adiantemos.

Sentindo-se acuado pela existência de um movimento que se constituíra com o objetivo declarado de apoiar o Corinthians, sem, contudo, abdicar do exercício da crítica e do direito de expressá-la, o presidente Wadi Helu reagia intensificando a repressão contra os torcedores dissidentes. A partir do clássico com o São Paulo, pelo Campeonato Paulista de 1970, “não pudemos mais expor as nossas faixas”, recordava Flávio La Selva, desvelando, na sequência, as relações perigosas estabelecidas entre a presidência do alvinegro e os porões do regime militar: “Dois homens que se diziam agentes do DOPS aproximavam-se de quem estava mostrando as faixas e diziam que isso não era possível, ameaçavam de prisão e diziam que Wadi Helu era deputado, que não podia sofrer campanhas desse tipo”.[6] As intimidações culminaram em uma emboscada no início de novembro de 1970. De acordo com o relato de Flávio La Selva: “Saímos em passeata pela Avenida Pacaembu, comemorando o triunfo” sobre o Santos. “Vinham passando os ônibus da torcida paga por Wadi Helu”. Um pretexto qualquer “foi o bastante para o primeiro ônibus parar na frente do nosso grupo e outro atrás. Saltaram uns sessenta homens e começaram a agredir o nosso grupo. Uns estavam armados, outros com arames e ainda com porretes e barras de ferro”.[7]

Os métodos repressivos empregados pelo ditador do Parque São Jorge acabaram expostos nas manchetes dos jornais paulistas: “Gaviões da Fiel espancados após vitória sobre o Santos”, estampava a Última Hora. “Gaviões da Fiel massacrados” denunciava a Folha da Tarde.[8] A ditadura no Parque São Jorge estava com os dias contados. Os novos sujeitos coletivos haviam sobrevivido ao Batismo de Fogo, contribuindo, dessa maneira, para a elaboração de uma cultura política nas arquibancadas centrada em suas próprias referências críticas, em suas próprias modalidades de luta, bem como por suas incongruências e equívocos.[9] A prática do torcer, com efeito, não iria evoluir em linha reta na direção de uma politização crescente, coerente e refletida, destinada a interligar sem contradição o universo simbólico do torcedor de futebol ao do militante antiditatorial. Ela seguiria ao invés disso pela estrada do antagonismo violento, projetando no horizonte histórico o acirramento dos confrontos físicos.[10]

batismofogo

Torcedores do Corinthians. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Os indícios nesse sentido começaram a emergir de forma mais evidente em abril de 1973 no clássico Palmeiras e Corinthians. A cinco minutos do encerramento da partida, disputada em uma quarta-feira à noite, no Parque Antártica, irrompeu nas arquibancadas “uma briga como há muito tempo não se via em São Paulo”.[11] Ao que tudo indica o primeiro grande embate entre torcidas organizadas na capital paulista, envolvendo “os Gaviões da Fiel e a Torcida Uniformizada do Palmeiras”, teve como desenlace cerca de cinquenta feridos, o torcedor-símbolo do alviverde, João Gaveta, agredido a tapas e pontapés pelos agentes de segurança, e o sequestro, fora do estádio, de dois espectadores comuns que foram conduzidos para um “passeio” forçado em uma viatura da Polícia Militar, espancados durante a viagem e submetidos à tortura em um local ermo da metrópole -, sessão macabra encerrada com um tiro na perna de um dos infelizes em sua tentativa desesperada de fuga dos algozes de farda.[12] Dentro do estádio, os líderes das duas organizadas procuravam justificar os acontecimentos. Enquanto Flávio La Selva apontava a inadequação da praça de esporte para receber o derby, Antonio Carlos, da TUP, exibia ao Jornal da Tarde o álbum de fotografias dos associados para comprovar que pela simples “aparência” já se podia constatar a “diferença”. “Eu sou estudante de arquitetura, e os outros, na maioria também são moços e estudam” E concluía o argumento: “Não quero dizer que somos bonzinhos, mas não vamos ao estádio para procurar briga. E contra os Gaviões nem é possível: todos sabem como eles são, só podemos apanhar.”[13]

A pancadaria entre as duas torcidas, consoante o líder da TUP, explicava-se à luz da distinção social que opunha os jovens estudantes dos estratos médios da sociedade dos jovens desprovidos de educação provenientes das camadas populares. Estas representações incluíam, ainda, a menção à “aparência” dos integrantes das respectivas organizadas, insinuando nas entrelinhas uma clivagem racial cuja existência também concorria para demarcar a aludida “diferença”. Por último, mas não menos importante, Antonio Carlos reconhecia a “fama” alcançada pelos adversários. Àquela altura, com efeito, parecia inexistir uma associação torcedora capaz de enfrentá-los de igual para igual. Os Gaviões, então, reinavam soberanos nas arquibancadas. Mas tal estado de coisas mudaria sensivelmente no decorrer do decênio em virtude da ascensão de uma nova força, uma força jovem.

[1] Cf. “Wadi Helu manda bater na torcida”, revista Placar, nº50, 26 de fevereiro de 1971.

[2] Cf. “Onde esteve o nosso futebol?”, revista Placar, nº20, 31 de julho de 1970.

[3] Cf. Seção: Tabelão, revista Placar, nº5, 17 de abril de 1970.

[4] Cf. “A Fiel acusa”, Raul Antonio Correia da Silva, revista Placar, nº10, 22 de maio de 1970.

[5] Cf. “Nem o diabo”, Cláudio Faria Romero, revista Placar, nº36, 20 de novembro de 1970.

[6] Cf. “Wadi Helu manda bater na torcida”, revista Placar, nº50, 26 de fevereiro de 1971.

[7] Cf. “Wadi Helu manda bater na torcida”, revista Placar, nº50, 26 de fevereiro de 1971.

[8] A partida foi realizada no domingo, 1 de novembro, com público de 40.000 e placar de 2 a 0 Corinthians Cf. “Pacaembu, alegria da Fiel”, A Gazeta Esportiva, 2 de novembro de 1970.

[9] Hollanda, Bernardo Borges Buarque de (2012) A festa competitiva: formação e crise das torcidas organizadas entre 1950 e 1980. In: A torcida brasileira. Bernardo Buarque de Hollanda et al. Rio de Janeiro, Letras.

[10] Roversi, Antonio (1992) Calcio, tifo e violenza: il teppismo calcistico in Italia. Bologna, Il Mulino/Contemporanea; Toledo, Luiz Henrique de (1996) Torcidas organizadas de futebol. Campinas, SP. Autores Associados.

[11] Cf. “A briga que feriu 50”, Jornal da Tarde, 5 de abril de 1973.

[12] Cf. “Corinthians recua e cede empate ao Palmeiras”, O Estado de S. Paulo, 5 de abril de 1973.

[13] Cf. “Os palmeirenses estão felizes por terem saído com vida”, Jornal da Tarde, 6 de abril de 1973.