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Deuses do Futebol – sincretismo São Cosme e Damião, Bebeto e Romário

Guilherme Trucco

Este é o artigo número 7 da série “Deuses do Futebol”, no qual o autor busca fazer o sincretismo de jogadores míticos brasileiros, com os santos e entidades cultuados no Brasil em diversas religiões.

 

São Cosme e São Damião – Fonte: Wikipédia

Os santos Cosme e Damião eram irmãos gêmeos que nasceram por volta de 300 d.c. na região da Ásia menor. Sua santidade na Igreja Católica é atribuída por exercerem a Medicina de forma caridosa, sem cobrar nada de seus pacientes, devotados apenas na fé.

Além disso, muitos milagres são atribuídos aos irmãos por conta de curas milagrosas na prática da sua medicina.

No Brasil, o sincretismo dos santos católicos tanto no Candomblé quanto na Umbanda é um dos mais conhecidos. Comemorado no dia 27 de Setembro, neste dia, os terreiros das religiões de matriz africanas distribuem doces e guloseimas variadas em agradecimento aos santos no tão aguardado pelas crianças Dia de Cosme e Damião.

Ibejis – Fonte: Wikipédia

A síntese da fé é feita com os Ibejis, palavra do dialeto iorubá formada pela junção dos termos ibi, nascimento e eji, dois, denominando, portanto, os gêmeos.

Por serem gêmeos, são associados ao princípio da dualidade; por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e brota: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas etc.

Entre as divindades africanas, Igbeji é o que indica a contradição, os opostos que caminham juntos, a dualidade. É a divindade da brincadeira, da alegria; sua regência está ligada à infância.

É a divindade que rege a alegria, a inocência, a ingenuidade da criança. 

Os Ibejis muitas vezes são erroneamente confundidos com o Erê. O Erê reside no ponto exato entre a consciência da pessoa e a inconsciência do orixá.

A palavra erê vem do iorubá, erê, que significa “brincar”. Daí a expressão siré que significa “fazer brincadeiras”. A palavra iré em iorubá significa “boa ação ou favor”. 

A analogia do sincretismo dos Ibejis com Cosme e Damião vem, portanto, principalmente pelo fato da dualidade dos gêmeos. Entretanto, é interessante notar que Cosme e Damião não eram crianças, possuíam sim a característica da cura. A síntese entre as duas crenças pode adicionar uma camada de interpretação: a cura através da alegria.

Eis então que surge o sincretismo de Cosme e Damião no futebol: as duplas de ataque.

Incontáveis duplas existiram na mitologia ludopédica brasileira. A sinergia, sincronicidade e alegria que as duplas proporcionaram é digna da mais forte encantaria. A dupla de ataque se entende no olhar, ou até sem olhar, um já sabendo onde o outro vai estar por simples feitiço.

Comemoração Nana neném Bebeto e Romário. Fonte: CBF.

Um exemplo singular está em Bebeto e Romário. Diferente da grande maioria das duplas, ela não chegou a existir em nenhum clube, sendo formada, apenas e especialmente, na Seleção Brasileira.

Dois momentos são simbólicos da dupla para o sincretismo: 1) a comemoração “nana neném” de Bebeto no gol contra a Holanda na Copa de 94, ao lado de Romário, e com direito a Mazinho (seria o Doum, a terceira identidade presente no mito dos Ibejis); e 2) o abraço logo após o gol contra os EUA, após lindo passe de Romário, quando Bebeto solta um sonoro “eu te amo” para o parceiro.

Eu te amo. Fonte: CBF.