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Beleza x Resultado x Corinthians

Gabriel Bernardo Monteiro

Há quem só enxerga beleza no jogo de futebol em equipes que atacam e criam inúmeras chances durante o jogo. Há quem enxerga beleza nos comportamentos defensivos e nas equipes que poucas chances dão às adversárias de finalizar. Há diversas formas de se empolgar e, em muitos momentos do ano, com certeza tentamos ficar empolgados com a equipe. Mas será que há quem se empolgue com o desempenho atual do Corinthians?

Pés no chão” é uma expressão popular que usamos quando queremos frear a empolgação, seja nossa, seja de um próximo acerca de algum fato. E essa é a mensagem que Fábio Carille e sua equipe nos passam a cada jogo.

Eu nunca fui dos torcedores que mais se empolgam quando a equipe está em um bom momento, mas quando saiu o resultado do jogo entre Independiente Del Valle x Independiente-ARG, eu, como grande parte dos corintianos comemorou, já que aparentemente o caminho para o título continental estava mais tranquilo. Doce (como um suco de limão) engano, a equipe que desde a Copa América demonstrou uma melhora enganadora e fez com que todos sonhassem, jogou um balde de água fria na torcida e sucumbiu à frente da muito bem treinada equipe do Del Valle, que aliou posse e transição numa intensidade absurda, calou Itaquera e começou a fazer uma história que terminaria sete dias depois, em Quito.

Os resultados após a Copa América não estão sendo de todo ruins. Estamos vivos na parte de cima da tabela do Brasileiro, chegamos longe na Sul-americana e temos apenas duas derrotas nesse período. Há quem esteja pior, há quem está começando um trabalho no meio do campeonato e vai tentar implantar uma forma de jogar que empolga, mas que demanda tempo para assimilação. Mas esses argumentos nunca serão suficientes para sanar os questionamentos dos torcedores.

Jogadores do Corinthians se reúnem dentro do gramado do Morumbi no clássico diante do São Paulo, em jogo válido pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2019. Foto: Rodrigo Gazzanel/ALLSPORTS.

A maior cobrança que a equipe tem recebido nos últimos jogos é relacionada à estética de jogo do time, já que para muitos a equipe não desempenha um futebol bonito, o que é até um ponto que não concordo tanto. O maior alvo é o próprio Carille que vem sendo acusado, talvez de forma justa, de “retranqueiro” e “paneleiro” por escalar jogadores que pouco estão produzindo e por sempre apostar mais em volantes do que atacantes, como se mais jogadores à frente fossem garantia de atacar com qualidade.

Incomoda os torcedores ver que muitos times com menos investimentos, como o Del Valle, conseguem jogar de uma forma muito mais atraente aos olhos de todos do que a nossa equipe, e que jogadores como Mateus Vital ficam de suplentes para jogadores como Júnior Urso, em péssimo momento, jogarem. Mas essas equipes só atingiram esse nível de compreensão coletiva com tempo de trabalho e uma linha de pensamento. Equipes como Grêmio, Athletico-PR e o próprio Del Valle – que não sai do meu pensamento – estão juntas há tempos, e, mesmo que troque uma peça ou outra, os mecanismos coletivos estão consolidados, fazendo com que quem chega tenha facilidades. Importante, também, salientar que há diversas formas de se jogar futebol e que todas têm suas belezas quando bem executadas, vide o Inter de Odair Hellman que mesmo sendo uma equipe mais fechada, tem um nível altíssimo de compreensão e consegue enfrentar qualquer adversário em qualquer campo.

Minha preferência seria para que Carille modelasse a equipe para ser mais agressiva, ofensiva e envolvente. Com apoios e vantagens numéricas por setor e diversos movimentos para gerar dúvidas e/ou desequilíbrios nos adversários, porque é nisso que vejo beleza e é a forma de jogo em que acredito. Entretanto, não posso deixar de crer na forma em que o próprio encara o jogo, já que esta forma lhe rendeu excelentes resultados e que os comportamentos coletivos defensivos da equipe também têm sua beleza.

Tenho certeza que Carille concorda com Erasmo de Roterdã, que em seu livro Elogios da loucura escreveu uma passagem que dizia: “não é o teu aplauso que almejo; nem tua crítica insensível ou teu elogio automático. Quando escrevo, o meu alvo é a minha loucura”. Para Fábio, a sua loucura é o resultado, é para isso que treina e é nisso que enxerga a beleza.