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Berlim-1936 e a disciplinarização dos esportes no Brasil (parte 1)

Plínio Labriola Negreiros

A frágil e confusa participação do esporte olímpico brasileiro na Olimpíada de Los Angeles de 1932, conforme tratei em texto recente, não teve implicação direta com o futebol. Situação bem diversa da disputa olímpica realizada em Berlim, em 1936. Tenho o intuito de apresentar as relações entre a complicada participação do esporte brasileiro na Alemanha nazista e o processo de organização e oficialização dos esportes no Brasil no início dos anos 1940.

Educação e Educação Física

No Brasil, dos anos 1930, uma novidade em relação aos esportes e às atividades físicas em geral. Até então, a organização dessas atividades tinha um caráter essencialmente privado. Porém, os esportes tornaram-se estratégicos em relação ao que se projetava para o país. Assim, consoante com os debates e práticas desse período, o poder público percebe a importância vital de um controle sobre as atividades físicas em geral. A materialização dessa preocupação veio já sob o regime ditatorial do Estado Novo (1937-1945), que chamou a si essa tarefa, buscando posicionar-se frente à questão da organização das atividades físicas no país. Através da promulgação de uma ampla legislação associada à criação de organismos burocráticos, o novo regime buscou um mínimo de eficiência para essa área. Antes de 1937, a importância da Educação Física parava nos discursos. Qualquer fala oficial exagerava em elogios às atividades físicas devidamente organizadas; na prática, as supostas preocupações oficiais não surtiam maiores efeitos.

A Ditadura Vargas entendia que a Educação Física merecia uma atenção especial do regime; e isto, de fato, aconteceu. Porém, vale ressaltar que não é possível demonstrar uma ruptura nas concepções que existiam em relação a essa área de conhecimento. Efetivamente, muito se discutiu a respeito do papel do Estado no processo de vulgarização das atividades físicas e o seu caráter mais específico. Não existia, por exemplo, dúvidas quanto ao fato da importância do poder público em interferir nessas questões; aliás, ao contrário: tratava-se de ideia corrente de que a presença oficial nos campos físico e esportivo era uma obrigação estatal, dada a sua função estratégica, formando homens para o trabalho e para a defesa da pátria. No caso específico do futebol, que não era visto como possuidor de funções educativas, tratava-se da questão de levar o nome do país para o resto do mundo, além de não deixar que o fascínio por este esporte ofuscasse outros.

É possível perceber uma verdadeira mobilização no sentido de que as atividades esportivas fossem consideradas essenciais. Essa mobilização precisa ser vista dentro de um novo contexto, que se desenhava diverso anos antes: naquele momento, meados dos anos 30, as questões esportivas já eram objeto de um amplo debate. Obviamente, este debate não surgira do nada, mas dentro de uma gama de preocupações mais amplas.

O problema não se encontrava apenas na questão do esporte e sim numa questão de fundo: a construção da nação a partir do “melhoramento da raça”; era necessário cuidar do corpo de cada brasileiro. Independentemente dos projetos acerca dos caminhos que o país deveria ou não seguir, existia quase uma convergência quanto ao entendimento de que o brasileiro era fraco, dono de um corpo pouco disciplinado para o trabalho e para a guerra. O corpo da população do Brasil precisava ser olhado com mais atenção, senão, qualquer projeto que visasse à construção de uma verdadeira nação, não passaria de mera utopia. Dessa forma, o prestígio conquistado especificamente pela Educação Física não foi apenas uma coincidência.

A partir de meados do século 19, o Brasil começava a receber informações sobre a nova disciplina. Ela é desenvolvida, essencialmente, entre os militares e, pouco a pouco, iniciava-se o processo de introdução da mesma nas escolas. Porém, apenas pós-1930 é que a preocupação com a Educação Física seria maior. O Estado tomou para si a tarefa de criar uma legislação específica. Foi além: criou escolas de Educação Física (as primeiras eram ligadas ao Exército), com o intuito de formar professores e instrutores especializados. Observou-se um número grande de publicações para a área, por exemplo, a revista Educação Física e a Revista Brasileira de Educação Física — esta apenas nos anos 1940. De fato, mesmo fora desses periódicos, seria muito grande o número de livros e artigos discutindo a Educação Física. Tratava-se de pensar o papel daquela disciplina na formação do “novo homem” brasileiro — expressão largamente utilizada pelos ideólogos e propagandistas do Estado Novo. Parecia consenso de que nada de novo seria construído no país sem a contribuição das atividades físicas. Mas não qualquer Educação Física, e sim aquela praticada segundo princípios racionais; daí a preocupação com a formação de um pessoal especializado na área. As atividades físicas praticadas a partir do empirismo não interessavam mais.

Mas construir esse “novo homem” passava, anterior e essencialmente, pela educação formal, que englobava a Educação Física. Dessa forma, todas as propostas de reforma nos sistemas educacionais que surgiram a partir de 1930, não negligenciaram a Educação Física, assim como não se esqueciam da educação cívica e moral. Sobre isso, Hollanda Loyola, em artigo na revista Educação Física (1940), afirma que

A instrução moral e cívica vem completar a obra da educação física, são as qualidades físicas do cidadão integrando as qualidades físicas do atleta, formando o homem integral capaz de realizar a grande nação Brasileira que todos nós sonhamos com entusiasmo e queremos com orgulho. E ninguém mais indicado para ministrar o ensino moral e cívico do que o professor de educação física.

Nenhuma proposta educacional foi capaz de ignorar o princípio de que não bastava educar preocupando-se apenas com o cognitivo, este não poderia vir separado das questões do corpo. Assim, o conhecimento deveria estar aliado aos exercícios físicos.

Neste sentido, observem-se as palavras do ministro da Educação e Saúde de Vargas, quando discursava na abertura dos trabalhos, em fevereiro de 1937, do Conselho Nacional de Educação. Gustavo Capanema apresentou algumas ideias acerca das reformas educacionais pelas quais o país necessitava passar:

Finalmente, com respeito à educação extra-escolar, diremos que se impõe a necessidade de mobilizar para a cultura das massas todos os instrumentos educativos estranhos à escola hoje em dia tão numerosos e eficientes. A lei de educação poderá ter aí um de seus capítulos mais belos. Outro assunto que se nos oferece, e da maior importância, é a educação cívica. Tal questão certamente merecerá precioso amparo dos vossos esforços.

Todas as grandes nações do mundo sempre se preocuparam com a cultura cívica da juventude e dela tiraram proveitos espantosos.

Vale destacar nessa fala do ministro do governo Vargas, o fato de se apontar inúmeros educadores que não acreditam na necessidade das práticas físicas na escola. Dessa forma, apesar dos diversos discursos que surgiram de vários setores da sociedade defendendo a importância da Educação Física, concretamente havia resistência. O ministro Capanema deixava isso claro e até utilizou imagens bíblicas para condenar os incapazes de perceberem o quanto o país precisa desenvolver as habilidades físicas entre os brasileiros. Ao mesmo tempo, como na experiência nazista, fala de um corpo robusto e belo. Assim, Capanema associava a Educação Física ao ensino de educação moral e cívica, como os teóricos da área, na época, jamais cansaram de alardear.

Mas educar a mente e o corpo também poderia estar ligado a um outro sentido: buscar o caminho do progresso para o país. Assim, em especial após o final dos anos 1910 — com ênfase nos anos 1930 —, a marca da economia brasileira vai sendo cada vez mais a indústria, com a ordem capitalista avançando sobre todas as atividades econômicas. A herança deixada por uma sociedade escravocrata de desprezo pelo trabalho, entre outros fatores, obrigava o Estado e os empresários a atuarem no sentido de disciplinar as classes populares para o trabalho. Não bastava uma legislação repressora, era preciso criar a cultura do trabalho. Mais do que isto: era necessário disciplinar os corpos para o trabalho. Nesse processo apresentaram-se com papéis de destaque, tanto a Educação Física quanto a educação em geral. Nesse sentido, Circe Bittencourt afirma

O poder educacional paulista delineou para a História um estudo destinado a “mostrar a nossa capacidade para o trabalho”, enquanto a Geografia informava as nossas riquezas minerais e agrícolas; a imensidão territorial pronta a ser explorada pelas técnicas agrícolas avançadas e pelo progresso das indústrias. Aliava-se o conhecimento sobre as formas de exploração das riquezas com a formação do povo brasileiro encarregado historicamente de transformar a nação em um país rico diante do mundo civilizado. O brasileiro patriota deveria realizar-se pelo trabalho produtivo, dirigido para o fortalecimento do “bem comum”. Explicitava-se a partir de uma argumentação nacionalista a necessidade de construir uma educação única e integral, voltada para a organização do trabalho e do trabalhador.

Assim, a partir de uma forte pressão de setores da sociedade brasileira, passou-se a exigir a presença do Estado nas questões ligadas às atividades físicas, que não poderiam continuar à mercê de interesses particulares. Caberia ao poder público organizar de tal maneira esta atividade, para que as mesmas estivessem a serviço da nação.

Uma rua de Berlim durante os jogos. O governo alemão usou as olimpíadas para promover a ideologia nazista. Foto: FORTEPAN/Lőrincze Judit.

A organização do futebol no Brasil

Reputo a indisciplina o mais grave de todos os nossos problemas esportivos. Assim pensa também Mazzoni, que denuncia a maléfica influência de certa imprensa sensacionalista na subversão dos princípios esportivos. Combate com conhecimento de causa o expediente nocivo das gratificações extraordinárias a jogadores vitoriosos, fonte de desinteligência entre eles e os clubes, e a origem do atual surto de violência nos campos nacionais, sustentado pela teoria boçal de que o “futebol é jogo para homem”. A indisciplina e a violência roubam ao futebol sua natural beleza, retardam o seu progresso técnico e vão desvirtuando o jogo como competição de caráter esportivo.

Com estas palavras, Indalicio H. Mendes prefaciou um livro do cronista esportivo Thomaz Mazzoni, Problemas e Aspectos do Nosso Futebol, publicado em fins de 1939. Ambos afirmam que um mal maior aflige o futebol no Brasil: a indisciplina. Dessa característica derivava outro mal: a violência. Porém, o futebol no Brasil, profissionalizado oficialmente desde 1933, andava tão “mal das pernas”, como o prefaciador da obra de Mazzoni afirmava? Mas, indisciplina de quem? Jogadores, técnicos, imprensa, dirigentes, torcedores, árbitros? A quem se acusava por tantas mazelas?

Por outro lado, como criticar o esporte que um ano antes, em 1938, tinha sido capaz de movimentar o país por quase seis meses ininterruptos? Que engendrou festas intermináveis em cada canto do país, sendo motivo de emoções populares poucas vezes vistas no Brasil? E se apesar das inúmeras alegrias produzidas pelo futebol — basicamente, em 1938, em função da participação do futebol brasileiro na Copa do Mundo da França (ver https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/copa-de-1938-nacao-entra-em-campo/ e https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/copa-de-1938-radio-festas-nas-ruas-cinema-torcendo-pelos-bravos-legionarios/), quais as críticas que eram dirigidas ao futebol e por quem? E com essas críticas, havia saídas ou não?

Ao mesmo tempo, essas leituras que foram feitas do futebol aconteciam num momento muito especial da vida do país e da própria história dos esportes e das atividades físicas no Brasil. Para se dimensionar esse debate, que teve como centro o futebol, é fundamental utilizar os periódicos diários como fonte. O dia-a-dia desse esporte, bem como de outras atividades físicas em geral, faz parte das páginas desses jornais. Lá é possível escutar as vozes dos personagens ligados a essa área como um todo: atletas, dirigentes esportivos, dirigentes políticos, torcedores, entre outros. É o espaço no qual os debates são travados e as questões mais prementes vêm à tona.

Por outro lado, não se deve olhar os esportes, especificamente o futebol, enquanto práticas sem qualquer relação com outros aspectos da vida social. Eles são construções de uma determinada sociedade, de uma determinada época; ao mesmo tempo, também os esportes têm o poder de influenciar outros aspectos de uma sociedade.

Ao mesmo tempo, por que havia tanta preocupação com o futebol? Preocupação esta que poderia resultar em diferentes ações, como passar a criticá-lo de maneira incessante ou, como muitos fizeram, ignorá-lo enquanto um assunto que não merecia maiores atenções, atitude tomada pelos principais teóricos da Educação Física no Brasil.

Para o periódico O Estado de S. Paulo, o futebol não era um esporte que merecesse maior atenção. Na página especialmente dedicada aos esportes, o esporte bretão ocupa um lugar de menor destaque — isto se considerarmos que o futebol era o esporte mais popular do país. As preocupações do Estado encontravam-se em noticiar outros esportes, como o tênis, a natação e o atletismo. Mas, o desprezo pelo futebol nunca significou ignorá-lo por completo.

Efetivamente, existia uma série de discussões sendo alimentadas, mas sempre a partir de um referencial, como por exemplo, a questão da profissionalização do futebol, ocorrida em 1933. O cronista esportivo do Estado J. R. Pantoja prefere chamar a nova organização futebolística como o “falso profissionalismo”, expressão de caráter irônico, porque antes da oficialização do futebol profissional, a imprensa e o meio esportivo costumavam denominar aquela situação de semiamadorismo, como sendo um “falso amadorismo”. Mas, por que a crítica contra o profissionalismo dentro do futebol? Na verdade, ao menos em termos de discurso, não se tratava de uma posição contra esta condição, mas do seu desvirtuamento. Entendia-se que o futebol profissional poderia existir, mas em outro tempo e sob outras condições. Ou seja, insistia-se que ainda não era o momento adequado para um esporte profissional. Essa postura, espelhando-se na organização do futebol inglês, profissional desde o final do século passado, entendia que a prática amadora deveria ser privilegiada. No caso inglês, repetia-se constantemente que, para cada atleta profissional, havia muitos amadores. Desta forma, apenas os melhores atletas passavam a ser profissionais. Resultava dessa situação um esporte profissional muito competente e um número significativo de amadores. Enfim, amadores e profissionais estavam contemplados.

Entendia-se, ainda, o caminho do esporte em direção ao profissionalismo — em função da própria dinâmica dos esportes que buscavam o “progresso” — como sendo inevitável. Mas, o esporte “puro”, jogado com lealdade, que seria capaz de transformar homens, unir uma nação, congregar povos, necessariamente seria o amador. Apresentava-se, também, a importância das atividades físicas independentemente de uma prática esportiva. Assim, o profissionalismo seria uma mal menor aceitável, desde que estivesse a serviço do esporte amador. E, ainda: os jogadores de futebol deveriam pensar em praticar o esporte, porém, sem o objetivo principal de se profissionalizarem. Dessa maneira, era desprezível buscar o esporte como um meio de sobrevivência material. Caminhar para o profissionalismo era válido, desde que ocorresse de forma “natural”.

Junto com as restrições acerca dos desvios e da precocidade do profissionalismo dentro do futebol, este era mostrado como um esporte em plena decadência, como decorrência do fato de o futebol ter se tornado profissional. Nas matérias publicadas no jornal falava-se de plateias cada vez menores, em torcedores desapaixonados, senão decepcionados. Porém, parece que o cronista esportivo do Estado padecia de um certo saudosismo, que o mesmo tentava negar com insistência. Mas, outros problemas, segundo o periódico e a “opinião pública”, faziam do futebol um esporte em declínio; mas, em nenhum momento deixaram de chamá-lo de “o esporte popular”. Existia uma forte indignação quanto às inúmeras cisões nas entidades responsáveis pela organização do futebol e dos esportes em geral. Reclamava-se, inicialmente, que todos os outros esportes estavam vinculados ao futebol, dentro da mesma entidade. Apresentavam, ainda, que pequenos interesses pessoais ou de alguns clubes eram suficientes para que surgissem entidades dissidentes. Como também havia uma forte crítica aos dirigentes das entidades, que eram considerados aproveitadores ou incompetentes. Clamava-se pelo “esporte-esporte” contra o “esporte-política”.

Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1936. Foto: Bundesarchiv, B 145 Bild-P017045 / Frankl, A. / CC-BY-SA 3.0.

Desta forma, apesar de um espaço significativo dentro do periódico dedicado aos esportes, a preocupação com o futebol, uma vez que profissional, diminuiu muito. O turfe continuou com um espaço importante, o tênis passou a ser muito mais divulgado e, em alguns momentos, tinha mais espaço que o próprio futebol. Além do turfe, tênis e outros, nota-se uma dedicação especial do jornal ao atletismo, que era denominado de esporte básico. Além disso, nas páginas esportivas d’O Estado de São Paulo começaram a surgir textos acerca da Educação Física, com uma atenção especial aos artigos teóricos.

Mas, como o futebol mantinha a sua condição de esporte mais popular, a postura do jornal caminhou de maneira paradoxal. Não havia outro caminho. Porque, se de um lado, o cronista esportivo diariamente não se cansava de alardear a decadência do futebol, por outro, sua coluna dedicava reflexões quase que exclusivamente para o “popular esporte”. Ou seja, se a decadência proclamada fosse assim tão latente, o leitor do jornal não estaria interessado em ler cotidianamente o desenrolar deste processo. Como também é interessante notar que não existe, por parte de J. R. Pantoja, uma aversão ao futebol; apesar das inúmeras críticas tecidas cotidianamente, existiam momentos em que o mesmo cronista rechaçava vozes dos que não consideravam mais o futebol um esporte.

Por outro lado, enquanto um decisivo contraponto, há a visão de um outro periódico, A Gazeta, através do seu principal cronista esportivo Thomaz Mazzoni. A Gazeta, diferentemente do Estado, era um periódico muito mais próximo aos esportes, inclusive era reconhecido pelos torcedores e amantes dos esportes como sua voz “oficial”. Thomaz Mazzoni — como também o jornal para o qual trabalhava — compreendia o futebol em fins dos anos 1930 como mergulhado numa crise. Para entender melhor as concepções desse cronista esportivo, é importante observar um dos seus livros publicados, Problemas e Aspectos do Nosso Futebol, composto por artigos escritos na Gazeta, a partir de 1936. Já na introdução, o autor trata de questões fundamentais:

Desde que assumimos a chefia da seção esportiva de “A GAZETA”, em fins de 1930, criamos a coluna de “Olimpicus” e a mesma quase tem sido dedicada exclusivamente aos estudos dos problemas, aos acontecimentos e questões diversas do “association” não só paulista como brasileiro. Sim, porque todos os problemas do nosso esporte-rei tanto são os mesmos aqui e no Rio como em Minas, na Bahia, no Paraná, em Pernambuco, etc. Intensificamos nossa doutrina nesse delicado terreno no auge da cisão, em 1936, quando fomos os primeiros a exteriorizarmos completa convicção de que jamais o futebol nacional encontraria seu caminho reto com velhos remédios que sempre, desde que nasceu, lhe receitaram os ‘médicos’ da politicagem da bola. Era necessário seguir outra rota, acabarmos com a antiga mentalidade clubística, com a qual as cisões, as rebeldias se sucederiam uma após outra.

Mazzoni apontava, a seu ver, para a questão de fundo, que fazia do futebol espaço de tantos problemas: a mentalidade clubística, que se tornou um bordão desse cronista. Ou seja, não existia, por parte dos personagens do futebol, principalmente em relação aos seus dirigentes, qualquer preocupação com o todo. Esses dirigentes eram incapazes de uma visão mais ampla da questão, apenas sabiam defender seus interesses e os dos seus clubes. Ainda segundo o cronista d’A Gazeta:

Inútil exterminar os males do nosso futebol se esses males procuram curar os seus próprios dirigentes com lutas clubísticas dentro das entidades. Os problemas mais sérios, naturalmente, são os da indisciplina, da desarmonia e da desobediência que o mau espírito, clubístico e disciplinar, há muito fez degenerar, desvirtuando a finalidade e o ideal esportivo. Existe até uma certa analogia entre as coisas do esporte nacional e regional com as da política. Parece que esta reflete sobre aquele…Assim, é muito frequente ver-se a situação do esporte ser a mesma da política do país. Eis o que escrevíamos há anos, antes do advento do Estado Novo. 

Porém, Thomaz Mazzoni entendia que existia uma saída para essa situação:

Desiludido com a politicagem e má orientação dos clubes e dos homens convencemo-nos, pois, em plena cisão passada, de que somente sob um pulso de ferro e com diretrizes muito diferentes endireitaríamos nosso futebol. Por isso, da “‘Gazeta” partiu inicialmente a campanha da oficialização do esporte nacional. E essa campanha começou a ser levada a sério quando o Brasil entrou em novo regime criado pelo 10 de Novembro. Se ainda não vingou de todo o esporte oficializado é fato, todavia, que não demorará, tendo sido dado o primeiro passo nesse sentido com a criação do CNE. Enquanto, porém, esperamos a regulamentação federal tivemos em São Paulo a oficialização estadual, surgindo a DEESP (Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo). São Paulo — berço e centro principal dos esportes do país — deu assim um grande exemplo que não demoraremos muito a vê-lo seguido por outros Estados.

Havia apenas um caminho possível: a presença do Estado nas coisas do esporte. Não existia outra forma de conter a extrema indisciplina reinante nos esportes, e não apenas no futebol. Para o cronista da Gazeta, caberia a São Paulo, por causa do seu desenvolvimento em todas as áreas, mostrar para o resto do Brasil, o caminho dos esportes oficializados, que só permitiria ganhos:

De modo que, quando surgir a regulamentação federal, muito mais facilitada será a missão de colocar o esporte brasileiro no bom caminho, no regime da disciplina e do progresso. Com o passo à frente que demos, nesse terreno, em São Paulo, leva-nos a crer que seremos os primeiros a solucionar os problemas mais graves do futebol.

Esse cronista esportivo confiava que com a interferência do Estado, em termos nacionais, daria tão certo quanto já estava dando em São Paulo. Era preciso que toda a organização dos esportes estivesse sob controle do poder público. Enfatizava Mazzoni:

Feita a oficialização do esporte, surgiria o órgão supremo, tendo no seu leme pessoa ou pessoas de inteira confiança, que por sua vez se cercariam na direção de outros dirigentes, os presidentes das respectivas entidades das várias modalidades que possuímos. A presidência dessas entidades, por sua vez, seria cargo de confiança do órgão supremo. Os presidentes também escolheriam seus auxiliares, de modo que se formaria assim uma cadeia de confiança, desde a suprema direção até os postos de menor projeção das entidades, que agora são… privilégio dos clubes e motivo de ambição e de questões dos homens… A direção do esporte teria a seu cargo também a disciplina; por isso criaria o “Conselho de Justiça”, que julgaria todos os casos de indisciplina em que se envolvessem entidades, clubes, dirigentes, e jogadores. 

De acordo com a mesma fonte citada, a Gazeta também tinha dimensão de que essa proposta recebia forte oposição.

Esse regime, bem o sabemos, não serve aos “tubarões” do esporte. Os seus clubes não poderiam mais rebelar quando lhes suspendessem um jogador, quando fossem contrariados os seus interesses facciosos e seus mesquinhos caprichos. Os dirigentes seriam obrigados a perder o gosto pela politicalha e os jogadores não poderiam promover arruaças em campo para satisfazer os fanáticos, enfim, os “tubarões” não mais poderiam provocar uma cisão a cada dois anos… Eis porque todos eles dizem que a oficialização “apresenta inconvenientes”, “implanta a ditadura”, “fere direitos sagrados”, “não resolve a pacificação”, e entre bonitas frases que podem causar boa impressão aos ignorantes…

Continua…