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Berlim-1936 e a disciplinarização dos esportes no Brasil – parte 2

Plínio Labriola Negreiros

Olimpíada de Berlim e a oficialização dos esportes no Brasil

Esse debate travado por Mazzoni com outros setores da imprensa e com os dirigentes esportivos vinha desde 1936, ano em que a ideia de oficialização dos esportes ganhou destaque, dadas algumas circunstâncias: a desastrosa participação do esporte brasileiro nas Olimpíadas de Berlim. Como também a lembrança das frágeis participações do futebol brasileiro nas duas primeiras Copas do Mundo. Essa discussão está ricamente apresentada e analisada na obra A história política do futebol olímpico (1894-1988), de Sérgio Settani Giglio, publicada em 2018, fruto de uma tese de doutorado.

O crescimento do futebol, em termos mundiais, fez avançar a ideia de se disputar um campeonato mundial de seleções nacionais, mais amplo do que a disputa que já ocorria dentro dos Jogos Olímpicos. Em fins dos anos 1920, a pretensão da FIFA era organizar uma disputa independente das Olimpíadas. Ficou acordado para 1930, no Uruguai, a realização da primeira Copa do Mundo. O Brasil foi convidado para participar dessa competição, porém, o seu desempenho foi aquém do esperado. O que ocorreu em 1930, com a essa primeira Copa do Mundo, ao menos para os torcedores, é que a seleção brasileira de futebol que foi disputá-la não representava plenamente o futebol do Brasil, já que os atletas de São Paulo não faziam parte dela. Em razão de muitas divergências entre dirigentes esportivos de São Paulo e do Rio de Janeiro, principalmente pela disputa na hegemonia da direção do futebol no Brasil, somente os jogadores do Rio de Janeiro foram a Montevidéu. De fato, não se tratava de uma seleção que se poderia chamar de nacional, até porque a rivalidade entre cariocas e paulistas era forte em demasia para que os paulistas aceitassem aquela seleção enquanto representantes da nação. O quadro brasileiro não conseguiu fugir ao anunciado fracasso.

Entre outras consequências, esses fracassos do esporte brasileiro provocaram a ira por parte dos esportistas em geral e da imprensa esportiva. Entre outras questões apontadas, recebeu destaque a ideia de como o exterior olharia um país que se mostrava incapaz de um mínimo de organização no campo esportivo.

A situação de rivalidade entre cariocas e paulistas voltou a se repetir durante a realização da segunda Copa do Mundo, realizada em 1934, na Itália. Porém, com um elemento complicador: a cisão entre entidades pró-amadorismo e pró-profissionalismo. Com uma seleção formada por apenas parte dos nossos melhores atletas, novamente o inevitável fracasso. Mais uma vez as críticas contra essa situação, considerada como desordem, alimentaram por muito tempo as páginas e as rodas esportivas. O potencial futebolístico do Brasil estava sendo desrespeitado, com a formação de equipes inferiores ao nível do futebol praticado no país.

O desencontro das entidades esportivas brasileiras não estava resumido ao futebol, mas marcava presença na maior parte dos outros esportes. Tanto que situação análoga à participação do futebol brasileiro em 1930 e 1934 ocorreu em outro evento esportivo, de muito maior importância do que uma Copa do Mundo, ao menos para os defensores da Educação Física. Tratava-se dos Jogos Olímpicos. Esses jogos de 1936 seriam realizados em Berlim. Muitas confusões se processaram em função da existência de duas entidades, separadamente, organizando as delegações brasileiras. Sem dúvida, foi o problema mais marcante de 1936, no que se referente às questões esportivas, rendendo um amplo noticiário e inúmeras críticas à organização dos esportes no país.

Seleção brasileira no embarque para a Copa de 1934. Foto: Arquivo Nacional.

Existiam duas entidades que organizavam os esportes e, em especial, o futebol no Brasil: a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e a Federação Brasileira de Futebol (FBF). Esta, defensora do profissionalismo no futebol, ao contrário da CBD. Para poder mandar uma delegação esportiva brasileira para os jogos de Berlim, era necessário que uma entidade especializada em um esporte fosse reconhecida como única pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), ou seja, num mesmo país não poderiam existir duas entidades que organizassem uma delegação olímpica, que congregava todos os esportes.

Porém, as duas entidades não se entendiam, e mesmo com a proximidade das Olimpíadas, uma tão sonhada trégua entre ambas, que em uma determinada altura dos acontecimentos parecia certa, terminou por não se concretizar. Uma notícia vinda do Rio de Janeiro, publicada pelo O Estado de São Paulo em 03 de março de 1936, apresentava algumas questões acerca das negociações da participação brasileira. Vejamos:

A Confederação Brasileira de Desportos recebeu uma carta na qual o ministro do Brasil, na Suíça, membro do “Comité” Olímpico Internacional, informa que somente os elementos filiados às ligas internacionais, poderão tomar parte na Olimpíada de Berlim. Na sua carta o ministro acrescenta que conferenciará com o conde Baillet Latour, presidente do COI e que este lhe informava de que somente amadores de entidade de reconhecimento internacional poderão inscrever-se nos Jogos Olímpicos, e que os amadores cumprindo penas e entidades dissidentes, não poderão, absolutamente, participar dos referidos jogos. Pelo que informa o ilustre membro do COI no Brasil, os atletas dissidentes não poderão ser inscritos na 11ª Olimpíada a não ser que a paz que se processa neste momento seja levada a efeito o mais brevemente possível.  O ministro Raul do Rio Branco é companheiro dos Srs. Arnaldo Guinle e J. Pereira dos Santos, na representação brasileira no “Comité” Olímpico Internacional, portanto pessoas insuspeitas para os partidários das entidades dissidentes.

Ou seja, as discussões sobre a questão esportiva já envolviam importantes autoridades brasileiras. Mesmo de forma difusa, esta ligação possuía um caráter oficial. Assim, em função do perigo da não-participação de uma delegação brasileira, existia um empenho especial no sentido de resolver as brigas dentro das nossas entidades esportivas. Todo este empenho demonstraria o quanto significava, para alguns setores da sociedade brasileira, a participação numa competição esportiva dessa envergadura.

Ao mesmo tempo, pode-se inferir como algumas autoridades estavam preocupadas em buscar uma saída para que os atletas brasileiros pudessem se apresentar em Berlim. Vale ressaltar que esses Jogos Olímpicos ocorreriam na Alemanha nazista, que os anunciava de modo efusivo. De fato, tratava-se muito mais do que simples competições esportivas; colocava-se em jogo a imagem do novo regime alemão. E, sem dúvida, a organização alemã esteve no limiar da perfeição, o que deixava clara a preocupação dos nazistas com as possíveis impressões dos estrangeiros. A atenção alemã concentrou-se na publicidade do regime e no reconhecimento positivo do povo alemão.

Porém, o problema mais sério em relação à participação brasileira nas Olimpíadas, até em função das entidades litigantes, passava a ser o fato de que se encontrava a poucos meses da competição e nada se definia. Inúmeras questões de caráter burocrático já deveriam estar solucionadas, como a definição dos esportistas concorrentes e suas respectivas inscrições. Além disto, a viagem para a Europa era demorada. Assim, a competição mostrava-se cada vez mais próxima e todas as soluções pensadas acabavam fracassando.

Nos meios esportivos brasileiros, a forte preocupação que já existia, aumentava em função do passar do tempo. Os esportes, aqui, corriam ao menos dois sérios riscos: mandar uma delegação fragilizada ou, no limite, não mandar representantes. Assim, dentro do jornalismo esportivo, esta questão ganhou destaque. Falava-se em trégua, em pacificação, em acordo; tudo em nome de uma participação digna do esporte brasileiro em Berlim. Ou seja, seria necessária a boa vontade dos litigantes para se garantir o que era o essencial: que o país fosse representado de maneira digna, para que todos os outros países participantes de Berlim-36 pudessem avaliar o quanto o Brasil encontrava-se a caminho de se tornar uma nação forte. Assim, temos um artigo, publicado n’O Estado de São Paulo em 14 de março de 1936 e intitulado Intervenção Federal, que aponta para outras propostas a fim de resolver a querela:

Jamais fomos partidários da CBD. Por mais de uma vez comentando desfavoravelmente atitudes e ações suas e não deixamos, também, de lhe atribuir a devida responsabilidade pela situação precária do esporte brasileiro, na atualidade. Fomos realmente os únicos a condenar a atitude por ocasião da disputa da Taça “Davis”, quando evitou favorecer, como devia, a viagem dos nossos tenistas aos EUA, onde iriam colher não vitórias mas sim conhecimentos úteis à prosperidade do tênis no Brasil, o que não teria sucedido se tivesse, então, federações especializadas e diretamente filiadas à entidades internacionais.

A “intervenção federal” não parece, como se julga, uma ideia infeliz. Pelo contrário. Poderá dar resultados excelentes, desde que a pacificação se processe, em todos os sentidos e sob todos os aspectos, dentro do critério da especialização. Vale a pena, pois, entregar ao poder público, a resolução do tão importante problema que os particulares complicam e dificultam a seu bel-prazer.

Pela primeira vez, o cronista esportivo do liberal Estado de São Paulo aceitava a ideia de que a intervenção do Estado nas questões do esporte era necessária e legítima. Ainda que tenhamos de deixar claro que a ideia de intervenção federal, para J. R. Pantoja poderia, naquele momento, ter vários significados; assim, não podemos afirmar que ela fosse retirar da iniciativa particular a direção dos esportes. Talvez, por intervenção, houvesse o entendimento de que o Estado deveria estar presente na resolução daquele conflito, notadamente enquanto árbitro. Por outro lado, argumenta-se no sentido de mostrar que os desentendimentos entre as entidades, entre outros motivos, estavam marcados por questões pessoais; a vaidade de muitos dirigentes das práticas esportivas acabava por se sobrepor aos interesses maiores do esporte. Assim, caberia ao Estado um papel de reorganizador dos mesmos, já que se tratava de uma atividade que envolvia o nome do país. Aliás, mais do que isso: os destinos do país também dependiam das atividades esportivas.

Por outro lado, o que motivava essa preocupação do cronista esportivo do tradicional jornal paulistano, era o fato de essas entidades esportivas nacionais estarem mais ligadas ao futebol, mostrando-se poucos preocupadas com os outros esportes. E esse era um problema central para o jornal O Estado de S. Paulo. Este defendia algumas atribuições aos esportes, relacionando-os, principalmente, à educação da população. Porém, como já se afirmou, esse mesmo periódico não via o futebol enquanto um esporte que pudesse educar alguém; aliás, a sua postura era exatamente contrária, já que o futebol poderia “deformar os jovens”.

Ingresso dos Jogos Olímpicos de 1936. Fonte: United States Holocaust Memorial Museum Collection, doação de Peter M. Victor.

E, poucos dias depois de defender a intervenção federal nos esportes, o mesmo Pantoja voltava ao problema, com outras considerações:

Foi há dias anunciado que só poderão participar dos Jogos Olímpicos de Berlim os elementos de entidades oficiais, filiadas às ligas internacionais. Os dissidentes ou os que cumprem penas não poderão, de modo algum, integrar a nossa representação à Olimpíada de 1936.

Nesse caso, o Brasil terá a sua representação muito enfraquecida. Em S. Paulo e no Rio de Janeiro se encontram, como é notório, os melhores esportistas brasileiros. Estas duas unidades do país possuem os melhores nadadores, tenistas e atletas. Enviar uma representação para comprometer o Brasil seria mais do que ousadia. É de duvidar, no entanto, que os responsáveis pela representação brasileira cheguem a tal abuso.

A intervenção federal foi lembrada como o meio de resolver o problema, mas uma das partes em divergência teria repelido logo a ideia, receosa, talvez de se ver suplantada, embora indiretamente, pela facção rival, o que seria doloroso, insuportável.

Tão feliz e patriótica deliberação não será, porém, tomada pelos dirigentes daquelas duas entidades. Deste modo, se não há possibilidade imediata para um entendimento rápido e completo, cremos que eles poderiam, sem prejuízo de seus interesses pessoais, negociar uma trégua, que permitisse a participação do esporte brasileiro nos Jogos Olímpicos de Berlim…

Aqui se apresentava um argumento definitivo, no sentido de os dirigentes em conflito chegarem a um acordo: tratava-se de representar o Brasil através do esporte; assim, não seria “patriótico” mandar uma delegação que não desempenhasse de forma digna o atual estágio do esporte no país. Ou seja, o cronista esportivo, que representa a voz de uma parcela da sociedade, colocava que a função da atividade esportiva não pode ser desdenhada, tornando-se mera atividade de lazer. Mostrava-se que os dirigentes em litígio, em função de questões menores, apresentavam-se indiferentes a como o nome do Brasil chegaria no exterior. Ou seja, naquele momento de conflito de entidades, era necessário pensar a partir de outro referencial.

Dessa forma, em nome de supostos interesses nacionais, a ideia de uma trégua entre as entidades possibilitaria a ida a Berlim de uma delegação que fosse retrato fiel do estágio de desenvolvimento das atividades físicas e esportivas brasileiras. Enfim, aquela briga jamais poderia comprometer o nome do país. Essa trégua, esse “cessar-fogo”, deveria ser mantido ao menos para garantir o bom nome do Brasil. Mas a trégua proposta não foi além do desejo.

Com o tempo passando sem que nenhuma atitude mais efetiva fosse tomada, surge, de forma oficial, por parte da CBD, a proposta de que o presidente Getúlio Vargas fosse escolhido como o árbitro da disputa. O Sr. A. Guinle, dirigente da FBF, não aceitou a proposta da entidade rival. Ele entendia que o problema era muito complexo e que a arbitragem do presidente poderia chegar a conclusões equivocadas. E o Sr. A. Guinle sabia que a posição de Vargas dificilmente beneficiaria a sua entidade. Deste modo, o impasse permaneceu e outros grupos começaram a agir no sentido de uma participação brasileira razoável. Nesse sentido, temos a seguinte notícia vinda do Rio de Janeiro, já em abril de 1936:

Os universitários brasileiros apresentarão, por estes dias, ao chefe da nação, um longo memorial pedindo a intervenção do governo nos esportes. Apoiado pelo diretório central de Estudantes, diretórios de todas as escolas superiores do país, a dirigente máxima dos esportes universitários lembra ao sr. Getúlio Vargas a necessidade da paz esportiva. Os srs. Luís Aranha e comandante Attila Aché, respectivamente presidente da Confederação Brasileira de Desportos e da Liga de Esportes da Marinha, entidades envolvidas diretamente no dissídio, já foram ouvidos pelos universitários sobre o assunto.

Assim, mais pressões ocorriam no sentido de o governo federal tomar alguma atitude para resolver a crise. Para os estudantes que acorriam ao presidente, não havia outro caminho. A Olimpíada aconteceria em agosto de 1936 e o impasse permanecia. Finalmente, Getúlio Vargas resolveu se pronunciar acerca do problema. O cronista esportivo do Estado discutia a inserção do presidente na questão:

O melhor é transcrever trecho do telegrama: “O sr. Getúlio Vargas pediu que fosse feito um relatório completo da situação, criada pelo dissídio, para, só depois disso, declarar se aceitaria, ou não, a arbitragem. Em caso afirmativo, produzia seu laudo, mas, em caso negativo, ele se reservaria o direito de intervir, como governo, na malfadada questão, a fim de terminar as lutas, que tanto vinham prejudicando o esporte nacional.”

E meditem largamente sobre o gesto enérgico da suprema autoridade do país. A primeira consequência, a mais séria, será a perda da autonomia das agremiações atléticas. Estas ficarão na dependência, direta e inexorável, dos chefes do momento, e talvez da política, que até o presente não ousara intervir em assuntos desta natureza. A CBD, ou outra qualquer entidade que a substitua, transformar-se-á num departamento público, sujeito a leis e regulamentos votados ou baixados pelos poderes públicos. Vai acontecer como na Alemanha e na Itália, Estados totalitários, nos quais as instituições atléticas se acham subordinadas a um ministério, controlado pelo chefe supremo do Executivo.

Temos o presidente Vargas preocupado com os destinos do esporte brasileiro, principalmente depois que foi pressionado por vários grupos interessados no problema, como o dos estudantes. Mas, sua decisão de intervir ou não no esporte assustou o cronista. Para este, apesar dos benefícios iniciais, de se chegar à tão almejada paz nos esportes, o Estado poderia controlá-lo de forma totalitária. Conforme suas próprias palavras mostram, poderia ocorrer um total controle das atividades esportivas por parte do Estado, como já estava ocorrendo nos países nazifascistas. Aliás, o temor de J. R. Pantoja não era nem dimensionado por Mazzoni, que continuava acreditando na oficialização como o caminho correto e mais eficaz para a resolução de todos os males que marcavam os esportes. Mas, o artigo continua, tentando entender o porquê da atitude do presidente:

Nunca fomos partidários da interferência da política no esporte. Sempre a combatemos, como se pode verificar em nossos comentários anteriores. Explica-se, entretanto, a atitude do presidente da República: ele jamais havia manifestado a intenção de dirimir contendas entre paredros do esporte. Foi solicitado, incomodado, importunado. Em seu lugar, qualquer pacato cidadão perderia a paciência. E foi por esse motivo que ele deliberou interferir e decidir, com todo o peso da sua autoridade, moral e material. Os esportistas brasileiros assim o quiseram, assim o tiveram.

Desta forma, para esse setor da imprensa esportiva brasileira, a interferência estatal não deveria ocorrer em nenhum momento; mas havia compreensão quanto à atitude do presidente no sentido de resolver, de forma definitiva, os conflitos entre as entidades esportivas. Tratava-se de uma emergência. Ainda que J. R. Pantoja estivesse considerando como certa a interferência de Getúlio Vargas, quando este ainda decidia o que fazer. O artigo mostra a possível intervenção como um castigo aos esportistas, que não souberam tratar da querela sem a presença do Estado. Não souberam, ainda, colocar as questões nacionais acima das questões de grupos ou pessoais. Ou seja, para Pantoja, a presença do Estado que, em tese, não era desejável, era a única saída para aquele momento.

Assim, um setor da crônica esportiva, ou parte desta, abria mão dos seus princípios supostamente liberais em nome da participação brasileira nos Jogos Olímpicos de Berlim. De fato duas delegações brasileiras se apresentaram para a disputa olímpica e o litígio só foi resolvido no último momento. Sobre isto, afirma a nadadora paulista Maria Lenk em seu livro de memórias:

O cabograma redentor chegou finalmente no dia 1º de agosto, dia da abertura dos Jogos. Informava que Luiz Aranha (da CBD) e Arnaldo Guinle (do COB) haviam concordado numa ‘trégua’, como faziam questão de acentuar. Felizmente esta notificação era o bastante para o COI. À tarde deste memorável dia, a equipe brasileira reunida marchou aliviada, confiante e garbosa para dentro do estádio, integrando-se aos 4.500 atletas representantes de 52 nações.

Acima de alguns princípios encontravam-se outros, como o de permitir o desenvolvimento esportivo do país, além de mostrar no exterior os “progressos” do Brasil.

Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1936. Foto: Heinrich Hoffmann/Studio of H. Hoffmann. Disponível no acervo daNational Archives and Records Administration, College (Domínio Público).

Aqui temos um outro ponto muito importante: partia de setores da sociedade o pedido pela intervenção estatal. Ou seja, se houve a interferência do Estado após o golpe de 1937, esta não pode ser entendida apenas como desejo da nova estrutura de poder que foi se estabelecendo. Se havia interesse por parte do poder público em disciplinar as atividades esportivas, também parte da sociedade entendia que essa presença do Estado nas questões esportivas era necessária e bem-vinda. Nos casos da Gazeta e do Estado de São Paulo, não havia discordâncias quanto à necessidade dessa intervenção e sim quanto à abrangência dessa interferência. Dessa forma, não existe sentido em pensar a presença do Estado nas questões esportivas no início dos anos 1940, como uma mera consequência do regime autoritário construído a partir de 1937.

Aqui neste ponto é preciso dimensionar o significado da participação de atletas e dirigentes esportivos brasileiros, como de outros países, nas Olimpíadas de Berlim. Como foi dito, a pretensão nazista era fazer das Olimpíadas uma vitrina do regime; e, sem dúvida, esforços não foram poupados para que os estrangeiros fossem bem recebidos e que levassem para os seus países a melhor impressão da Alemanha e de seus dirigentes. E aos estrangeiros cabia a tarefa de conhecer a “nova” Alemanha in loco. Ou seja, estar em Berlim significava participar de competições esportivas, conhecer a organização e o desenvolvimento do esporte num país totalitário e verificar o que, de fato, acontecia naquele país, já que as informações e análises do regime de Hitler eram desencontradas. Tanto que os EUA tornaram-se grandes críticos desses jogos na Alemanha, inclusive ameaçando boicotá-los, porque já faziam restrições ao regime nazista. A participação americana em Berlim só foi concretiza depois de muitas negociações diplomáticas.

Em alguns momentos, em função das notícias que chegavam ao Estado, através das agências de notícias, temos a impressão de que os Jogos Olímpicos foram mais importantes enquanto ato político do que esportivo. Entre estas informações, temos este trecho, de 28 de julho de 1936, muito esclarecedor:

O chefe da delegação, dr. Décio do Amaral Fontoura, do Ministério da Instrução Pública, em termos valorosos manifestou a sua gratidão pela acolhida que fora dispensada aos atletas brasileiros na Alemanha, cuja luta contra o comunismo sabia compreender. O dr. Fontoura, além de representar os interesses esportivos do Brasil, pretende também estudar as instituições educativas do “Reich”. Manifestou igualmente o seu entusiasmo pela ordem que reina na Alemanha e declarou estar disposto a combater toda e qualquer campanha de calúnias anti-germânicas. Disse que agora poderá fazê-lo com verdadeiro conhecimento de causa.

O chefe da delegação brasileira — aliás, de uma delas, já que o Brasil mandou duas — declarou, com todas as letras, que estar na Alemanha era muito mais que apenas acompanhar os atletas brasileiros. Significava conhecer a experiência de um país que, no Brasil, poucos conheciam de fato. E sua primeira impressão deve ter contentado os representantes do regime nazista. Isto porque aquilo que os dirigentes alemães desejavam, era exatamente o que acabava de acontecer com o chefe da delegação brasileira. Como é interessante o destaque que esse chefe de delegação dava ao que considerava as duas grandes virtudes daquela Alemanha: o combate ao comunismo e a ordem reinante. E essas questões estavam na ordem do dia no Brasil. A luta contra o comunismo, além de qualquer luta popular desvinculada dos interesses do regime de Vargas, era o grande inimigo aparente, a partir da tentativa dos comunistas de tomarem o poder em novembro de 1935. Mesmo passados mais de seis meses, a repressão contra todos os que participaram desse movimento continuava forte. Em quase todos os dias eram anunciadas novas prisões e novos processos. Aliás, graças a essa situação de suposto perigo contra a ordem pública, que o governo havia decretado a suspensão das garantias constitucionais e aplicava uma severa censura nos meios de comunicação, principalmente na imprensa escrita.

Ao mesmo tempo, esse chefe de delegação, apontava uma das suas principais preocupações com a sua passagem pela Alemanha: conhecer e aprender com as instituições educacionais da Alemanha de Hitler. Isso explica, ao menos em parte, o fascínio que as organizações juvenis alemãs exerceram sobre várias autoridades brasileiras até, pelo menos, o Brasil declarar guerra ao Eixo, aderindo aos Aliados.

Mas, a Alemanha não recebia apenas elogios e em termos diplomáticos e nem tudo caminhava de forma satisfatória. Esta pequena nota, publicada em 31 de julho de 1936, mostra um outro lado nas relações entre o governo alemão e outras nações: “Berlim, 30 (H.) – Na sessão dessa manhã, o Comitê Olímpico Internacional pronunciou-se pela exclusão de um delegado americano do Comitê Internacional, que escrevera contra o chanceler Hitler e a obra nacional-socialista.”

Enfim, política e esporte estiveram muito próximos durante os Jogos de Berlim. Inclusive, O Estado de S. Paulo dedicou a este evento um espaço significativo. Uma série de matérias especiais foram publicadas juntamente com o desenvolvimento dos Jogos. Além, evidentemente, das informações acerca das disputas esportivas dos próprios jogos e da complicada participação das delegações brasileiras, contraditória a toda a organização nazista.

Aliás, é muito interessante analisar os possíveis efeitos produzidos por essa situação tão antagônica: de um lado, a ordem alemã, que beirava a perfeição; de outro, uma presença brasileira marcada por uma suposta desordem, na qual as questões particulares se sobrepunham sobre as questões ditas nacionais. As várias tentativas de reconciliação, mesmo que provisória, fracassaram. Como os leitores dos periódicos interpretavam essa situação? As notícias passavam a ideia de uma Alemanha eficiente no campo esportivo e na organização de uma competição de caráter internacional; os progressos do país eram refletidos nos esportes. Dessa forma, o que não pensar do Brasil, incapaz de coisas mínimas, como a de mandar uma delegação que representasse com dignidade o país, mesmo sem a pretensão de obter vitórias? Enfim, é possível que o esporte alemão tenha-se tornado um paradigma para o esporte brasileiro, tão pobre na maior parte das modalidades esportivas e sem qualquer organização mais sistemática.

Por outro lado, toda essa preocupação com os acontecimentos de Berlim permitia a publicação de numerosos artigos discutindo as funções que se destinavam aos esportes. Em um destes artigos, publicado em agosto de 1936, seu autor apresentava alguns dados acerca da realidade alemã, como o da existência, em 1935, de 7,5 milhões de jovens organizados em sociedades esportivas, com mais 3,5 milhões de não-organizados. Cita, ainda, o fato de todas as comunas possuírem, pelo menos, um campo de futebol. A seguir, apresenta algumas reflexões acerca da importância da atividade física. Em um dos trechos, afirma que:

O adestramento físico forma, em combinação com os novos conhecimentos sobre a saúde do povo, o ponto de partida para a formação de uma geração mais forte e melhor…Com isso, os exercícios físicos e o esporte conquistaram na Alemanha uma importância extraordinária.

Segundo as estatísticas de outros tempos, constatou-se que a juventude que se vinha formando na Alemanha, cerca de uma terça parte não satisfazia às exigências que devem ser feitas a um homem são e de capacidade produtiva integral.

Apesar de não ter sido possível determinar se este artigo foi escrito aqui ou na Alemanha, tendo, nesta condição, sido remetido por alguma agência de informação, ele é muito interessante. Tal reflexão cabia tanto na Alemanha quanto aqui, mas há uma diferença básica: a Alemanha já havia tinha quase que resolvido a questão dos esportes junto à sua juventude, com resultados magníficos. Assim, a importância dos esportes encontrava-se na possibilidade de um novo homem ser constituído. E um homem que fosse capaz de desenvolver a sua “capacidade produtiva” de forma integral. Esta preocupação fez parte de inúmeros artigos de jornal, como estava presente em pessoas vinculadas à organização da educação brasileira, como as responsáveis pela formação dos futuros professores e técnicos de Educação Física. Parece claro que essa questão de “capacidade produtiva” estava ligada — direta e indiretamente — ao problema do trabalho; tanto no Brasil como na Alemanha. Ainda que, entre os germânicos, tratava-se de preparar corpos também para a guerra.

A participação dos brasileiros em Berlim foi de muita importância, pois possibilitou que a ordem dos esportes no Brasil passasse por uma ampliação dos debates que já ocorriam. A leitura de desorganização e fragilidade esportiva do país contrastava com a ordem alemã, em todos os sentidos. De certa maneira, olhar para a Alemanha nazista significava aprender que a organização esportiva era reflexo de uma organização nacional mais geral; a existência de uma garantiria também a existência da outra. E como o Brasil ficava nisso tudo? A resposta dos cronistas vinha com outra pergunta: um estrangeiro, olhando apenas para o desenvolvimento esportivo de uma nação, como deveria imaginar o resto do país? Evidentemente que a Alemanha não era o único modelo a ser apontado; também o esporte norte-americano tinha seus adeptos no Brasil, principalmente porque, nos EUA, a base esportiva dava-se através das escolas.

Os debates que ocorreram a partir da experiência de Berlim, como as imagens do esporte norte-americano, impulsionaram a concepção de que era preciso que as atividades físicas estivessem mais ligadas às questões nacionais.

Assim, quando os esportes no Brasil foram oficializados em 1941, não resta dúvida que a complicada participação das delegações olímpicas brasileiras em Berlim-1936, deixou uma forte herança. O discurso e a prática da ordem estavam presentes no imaginário dos legisladores brasileiros.

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