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Deuses do Futebol – São João Baptista, Xangô, Biro-Biro e Amaral

Guilherme Trucco

Este é o artigo número 6 da série “Deuses do Futebol”, no qual o autor busca fazer o sincretismo de jogadores míticos brasileiros, com os santos e entidades cultuados no Brasil em diversas religiões.

 

São João sendo amamentado – Giampietrino. Fonte: Wikipédia

João Batista foi um pregador itinerante. Teve muitos seguidores, e usava o batismo como símbolo de purificação da alma.

São João é comemorado nas festividades de Junho, sempre associado à fogueira. O simbolismo do fogo é anterior à São João. Naqueles tempos, a comunicação era lenta entre cidades, e muitas vezes, para anunciar o nascimento de uma criança, uma fogueira era acesa, para que todos nas cercanias soubessem.

A fogueira também era muito utilizada nos meses de Junho e Julho para demarcar a época de solstício de inverno, tempo de virada das colheitas. Tempo de fartura. Festividades do campo. Tempo de nascimento e vida.

A simbologia do fogo é portanto carregada por São João, o pregador que espalhava o conhecimento, e praticava o renascimento através do batismo. Materializada nas festividades caipiras de São João aqui no Brasil, as ditas festas juninas, ou joaninas.

Escultura em madeira: Orixá do Trovão da Nigéria. Obra executada por Lamidi Olonade Fakeye (1928–2009). Fonte: Wikipédia

São João é sincretizado nas religiões de matriz africana com Xangô, o Orixá do fogo. Orixá do conhecimento, padroeiro dos intelectuais, e dos raios e trovões, da chama que faz tudo nascer.

No futebol, o sujeito renasce quando é novamente batizado: ganha seu apelido de boleiro.

O sincretismo de São João e Xangô no futebol passa por Biro-Biro. O apelido de renascimento por definição. Seu “batismo” veio passado de pai para filho.

 

 

 

Biro-Biro, futebolista brasileiro nascido em Olinda, Pernambuco. Fonte: Wikipédia

O pai de Biro era jogador de várzea no Pernambuco, e sempre que marcava um gol, subia num pé de Biri-Birí, uma fruta da região. Comia o fruto enquanto comemorava o gol, em uma antropofagia do futebol. Assim nasceu o apelido boleiro do pai, que foi batizado e passado para o filho, Biro-Biro.

Com seus cabelos de fogo, o volante-volante Biro-Biro iniciava a saída de bola, distribuía o jogo, peregrinava pelo campo distribuindo conhecimento.

Por outro lado, esse sincretismo de também pode ser feito com Amaral. Também um volante, dono de uma das resenhas mais apreciadas do meio futebolístico, Amaral foi, antes de ser jogador de futebol, coveiro. Atuava, assim, no portal da vida e da morte. Amaral também é reconhecidamente um dos maiores batizadores pelos times nos quais passava, distribuindo apelidos por todo o elenco.

 

Biro-Biro e Amaral são garantia de boas risadas e resenha farta na beira da fogueira de São João.

Fogueira de São João (1912), por Nikolai Astrup, ilustra a celebração da Festa de São João na Noruega. Fonte: Wikipédia