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Bola com Feitiço

Guilherme Trucco

Uanhenga Xitu. Foto: Reprodução.

Uanhenga Xitu foi um revolucionário que lutou pela independência de Angola, tornando-se preso político durante muitos anos nas décadas de 60 e 70. Na prisão, escreveu inúmeros contos e histórias curtas. Contador de memórias populares, sua literatura tem uma linguagem coloquial, despida de qualquer rigor literário. Seu ideal era resgatar as histórias de seu povo e estimular essa troca.

Seu conto Bola com Feitiço é uma delícia. Com um tom de humor fino, porém, ainda assim, uma profundidade certeira e pontiaguda. Trata da história sobre uma partida de futebol entre duas aldeias angolanas próximas e de todos os preparativos anteriores ao jogo. Uma das aldeias, fiel às suas culturas, inicia um sem número de mandingas e macumbas para garantir a vitória no jogo. Entretanto, um dos integrantes da aldeia adversária (já invadida pelos valores católicos das Missões) fica sabendo sobre os feitiços, e decide também buscar a ajuda de mestres quimbandas (curandeiros/feiticeiros), mesmo sem o consenso do chefe de sua aldeia, que, por ter se tornado adepto do catolicismo, seria totalmente contra.

Bola com Feitiço

Trata-se de uma metáfora importante sobre a troca de valores e culturas imposta pelos colonizadores, processo similar que se passou no Brasil. Essa tenção entre as religiões, e o seu impacto no jogo de futebol, um embate que materializa o conflito, tem um simbolismo recheado de significados até o tutano.

Não vou me aprofundar mais no enredo, para não estragar o sabor aos leitores que buscarem o livro, mas o troço da macumba fica sério, ainda mais quando entra na parada a aposta de dois porcos (que também estão enfeitiçados, diga-se de passagem). Tudo isso com um humor delicioso. Destaco apenas duas passagens para dar o tempero:

“Em certo momento, em uma consulta com um quimbundo, ficamos sabendo que, quando em matéria de feitiço, anotar as indicações do curandeiro com lápis ou caneta é desfeita séria. As tarefas como enterrar um galo embaixo das traves, ou distribuir um preparado secreto à esquerda do caminho dos jogadores, devem ser decoradas oralmente, nunca através da escrita, sob pena de perder a magia.” – Simbolismo fino e potente sobre os efeitos da introdução/imposição da cultura colonial sobre os saberes e ancestralidade africanos.

Em outro momento, quando o caldo desanda nas mandingas, um curandeiro conclui: “Este pessoal das Missões, quando se metem nas coisas das terras, provocam sempre distúrbio!”

Bola com Feitiço é um conto mágico, incrível representante do realismo animista africano, e simplesmente saboroso.