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Bola de fogo

Tiago Carrasco

O texto foi mantido com o português de Portugal.

Era o jogo mais importante da vida de Mohammed Jaddou. O capitão da seleção síria de sub-16 estava em Bangkok, na Tailândia, para ajudar o seu país a garantir pela primeira vez um lugar no Mundial sub-17, marcado para o ano seguinte, no Chile. A presença da Síria na fase final já era um milagre: por esta altura, em meados de 2014, mais de 300 mil pessoas tinham morrido e quatro milhões abandonado o país em consequência de uma guerra fraticida entre o regime e várias milícias armadas. “Quando viajávamos para as partidas do campeonato ou para os estágios da seleção, os mísseis sobrevoavam o nosso autocarro, víamos corpos na berma da estrada e passávamos por fogo cruzado. Tínhamos de nos deitar debaixo dos bancos para os snipers não nos verem”, diz Jaddou, de 18 anos, ao Expresso. “Mesmo assim, era uma honra vestir a camisola da seleção e estar ali a lutar por um lugar entre os melhores do mundo”.

Essa honra, entretanto, desapareceu. Quando a seleção principal da Síria – uma equipa que, noutras circunstâncias, ele hoje estaria a representar – entrou em campo nos dias 23 e 28 de Março, para defrontar, respetivamente, o Usbequistão e a Coreia do Sul, em duas partidas decisivas para a qualificação para o Mundial’2018, Jaddou não vai estar a torcer efusivamente pelos seus compatriotas. “Só vou ver os jogos se não tiver responsabilidades na escola ou no treino”, diz. “Os homens de Bashar al-Assad tomaram conta da seleção e aquela equipa representa os interesses do regime, não de todo o povo sírio”.

O que aconteceu a Jaddou entre estes dois momentos antagónicos explica a perda da sua devoção à bandeira. Há três anos, pouco depois de ter ouvido o hino nacional, o médio sírio ficou isolado diante do guarda-redes e colocou a bola no fundo das redes, abrindo caminho à vitória sobre o Irão por 2-1. No desafio seguinte, marcou um golo e deu outro a marcar na goleada por 5-1 ao Usbequistão. A Síria estava pela primeira vez num Campeonato do Mundo de sub-17 e ele, o maestro da equipa, preparava-se para explodir num torneio que outrora tinha catapultado para o estrelato craques como Cesc Fàbregas e Ricardo Quaresma.

No entanto, de regresso a Latakia, a sua cidade natal, Jaddou começou a planear fugir do país com o pai e com o tio. “Viver na Síria tinha-se tornado demasiado perigoso. A pressão era insuportável. Os rebeldes acusavam-me de ser cúmplice do governo por representar a seleção e a federação ameaçava acabar com a minha carreira se eu não fosse aos treinos e listar-me como desertor se abandonasse o país”, diz o futebolista, que aponta para a fotografia de um cadáver guardada no seu telemóvel para explicar o principal motivo do êxodo. “Pouco antes dos jogos na Tailândia, um míssil matou o meu melhor amigo e colega de equipa Tarek Ghrair, em Homs. Tinha 15 anos. Chorei durante dois dias e ainda não o esqueci. Quando isto aconteceu, pedi ao meu pai para fugir da Síria”.

Primeiro, tentaram o aeroporto. Porém, o atleta foi barrado à entrada do avião porque todos os jogadores da seleção estavam numa lista de interdição de voo. “Eles queriam garantir que nós íamos mesmo representar o país no Mundial”, afirma Jaddou. Assim, o pai foi obrigado a vender a casa para garantir os 11 mil euros necessários para realizar a viagem clandestina até à Europa, que levou dois meses. Na Turquia, acordaram com um traficante que a travessia do Mediterrâneo até Itália seria efetuada com 70 refugiados a bordo. Foram 130. “Não havia espaço nenhum e seis horas depois de começarmos o barco começou a afundar”, lembra o sírio. “Tivemos de deitar ao mar todas as malas para mantê-lo à superfície e de passar noites a fio a tirar com as mãos a água acumulada dentro da embarcação”. Ficaram sem eletricidade e sem leme. Volvidas cinco noites sem dormir, foram salvos pela Marinha italiana, que os levou até à costa siciliana. “Acho que tive mais medo de morrer afogado do que das balas na Síria”, confessa o futebolista.

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Brincadeiras com bola na Síria. Foto: Caio Vilela.

Depois de algumas noites ao relento e em estações de comboio, a família conseguiu finalmente chegar a um centro de acolhimento na vila alemã de Oberstaufen, perto da fronteira com a Suíça. “Durante o caminho, para ganhar forças, imaginava-me a jogar no Real Madrid, ao lado do Cristiano Ronaldo, que é o meu jogador favorito”, diz Jaddou.

Hoje, depois de uma passagem pelo Ravensburg, da quinta divisão alemã, está nos sub-19 do Arminia Bielefeld, da primeira divisão de sub-19. Depois de vários meses à espera da conclusão do seu processo como refugiado, já participou em 13 partidas e tem uma assistência para golo. Vive com o pai e com o tio num apartamento perto do esádio, enquanto aguarda pela autorização legal para trazer a mãe e as irmãs, ainda na Síria, para a Alemanha.

Jaddou sobreviveu e continua com legítimas aspirações de se tornar profissional. Outros não tiveram a sua sorte. Desde o início da insurgência síria, que completou a 9 de Março o seu 6º aniversário, centenas de colegas seus interromperam a carreira: alguns alistaram-se numa das várias fações intervenientes na guerra, outros deixaram o país e vivem hoje em campos de refugiados na Turquia, no Líbano ou na Jordânia, enquanto os mais desafortunados ficaram feridos ou perderam a vida. “O futebol, à imagem de todo o país, desintegrou-se por completo”, diz  Yasser al-Hallaq, coordenador-geral da União dos Atletas Sírios Livres, que impulsionou a formação da “Seleção da Síria Livre”, constituída por futebolistas refugiados e dissidentes, no Líbano. “A insistência do regime em retomar as atividades desportivas é uma decisão irresponsável que coloca em risco a saúde e a vida dos atletas e que mostra que o poder político está a usar o desporto para passar uma falsa imagem de normalidade na Síria”.

Num esforço desesperado para mostrar que o país continuava funcional, a admnistração síria decidiu prosseguir com o campeonato nacional, agendando todas as partidas para duas cidades debaixo do seu controlo: Damasco e Latakia. O risco, porém, não podia ser eliminado. Em Fevereiro de 2013, Youssef Suleiman, de 19 anos, avançado do Al-Wathba e internacional pelas seleções jovens, morreu na consequência de um ataque com morteiros ao hotel em que a sua equipa estava alojada em Damasco, na véspera de mais uma partida do campeonato. Nunca se soube se o ataque foi realizado pelo exército ou pela oposição. Já Jehad Kassab, um jogador lendário que, para além de ter sido quatro vezes campeão nacional representou o seu clube, o Al-Karamah, de Homs, na final da Liga dos Campeões da Ásia, em 2006, foi detido pelo regime e torturado até à morte, anunciada em Setembro do ano passado. O defesa internacional, de 40 anos, foi acusado de organizar protestos contra o governo e de participar em motins.

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Futebol em Damasco. Foto: Caio Vilela.

Nenhum outro futebolista teve, porém, um papel tão ativo no conflito como Abdul Basset Al-Saroot, o guarda-redes cantor de Homs. Dono da baliza do Al-Karamah e dos sub-20 do seu país, deixou os relvados no início da revolução para entoar canções de protesto nas concorridas manifestações da sua cidade. Quando o exército de al-Assad começou a disparar contra os revoltosos, Sarout formou uma brigada armada para defender o seu burgo, tornando-se numa das figuras heróicas da resistência síria. A sua resistência no cerco a Homs ficou imortalizada no filme Regresso a Homs, de Talal Derki, vencedor do prémio para melhor documentário no Festival de Sundance.

Após escapar do cerco, a vida de Saroot ficou envolta num enorme mistério. Os combatentes islamitas da Jabat al-Nusra, uma filial da Al-Qaeda na Síria, acusaram-no de se ter aliado ao Estado Islâmico, mas Saroot, numa entrevista dada no ano passado a uma televisão síria, rejeitou os rumores. “A certa altura, quis continuar a trabalhar e disse a um intermediário que estava na disposição de me juntar a eles [Estado Islâmico]. Mas depois vi como eles eram e arrependi-me. Quando me chamaram para prestar juramento, rejeitei”, disse. O antigo guarda-redes alegou ainda que lidera uma brigada independente, a Fallaq Homs, que continua a enfrentar o regime no norte do país. “O mais impressionante é que ele continua a afirmar que pretende voltar a jogar futebol quando a guerra terminar”, diz James Montague, autor do livro When Friday Comes: Football in the War Zone e de vários outros títulos sobre o futebol no Médio Oriente.

Nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico, o futebol foi aniquilado. Em Raqqa, a base do grupo jiadista na Síria, o clube Al-Shabab foi encerrado e quatro dos seus jogadores –  Osama Abu Kuwait, Ihsan Al Shuwaikh, Nehad Al Hussen e Ahmed Ahawakh – decapitados em praça pública. “Desconhece-se se foram executados por serem futebolistas ou por serem suspeitos de espiarem para as forças curdas do YPG”, explica James M. Dorsey, professor na universidade de estudos internacionais S. Rajaratnam, em Singapura, e autor do livro The Turbulent World of Middle East Soccer. “Há grupos islamitas, como o Hezbollah e o Hamas, e líderes como Bin Laden, que reconhecem o valor lúdico do futebol e o seu potencial de recrutamento. Outros, como o Boko Haram ou a Al-Shabaab, veem no futebol um desporto de infiéis, pecado e distração para as obrigações religiosas, banindo o futebol dos territórios por si controlados. O Estado Islâmico, por principio, cai na segunda categoria”.

Há exceções: em algumas localidades, crianças até aos 12 anos podem jogar e ver futebol e alguns combatentes estrangeiros têm ligações por satélite para assistirem pela TV aos campeonatos dos seus países de origem. “Nos seus vídeos de propaganda, o Estado Islâmico usou o futebol e futebolistas como ferramentas de recrutamento. Mesmo os que diabolizam a bola, veem nela potencial”, diz Dorsey.

Mergulhada no terror e no caos, seria expetável que a bola já não rolasse na Síria. Mas rola. Internamente, o campeonato é sofrível: muitos estádios funcionam hoje como bases militares, os adeptos têm medo de assistir às partidas e os clubes mais populares, como o Al-Karamah, tetracampeão nos anos anteriores ao conflito, ou o Al-Ittihad, com um estádio para 53 mil pessoas em Aleppo, ficaram enfraquecidos com a destruição das suas cidades e com a debandada dos  melhores jogadores. O atual campeão é o Al-Jaish, a formação do exército. “As equipas dos exércitos sempre assentaram o seu domínio no recrutamento dos melhores jogadores para efeitos de serviço militar obrigatório”, explica Montague. “Na Síria, o Jaish dominou até ao início da década de 2000, quando houve uma grande reforma no futebol e os clubes foram privatizados. Nesta fase, o futebol sírio desenvolveu-me imenso. Mas, com a chegada da guerra, as forças armadas voltaram a pegar no Jaish e a juntar em Damasco os melhores atletas”.

Mas, internacionalmente, o futebol sírio está a viver os seus dias de glória. A seleção nacional continua, surpreendentemente, a lutar por um lugar no Campeonato do Mundo do próximo ano: ocupa o quarto lugar no grupo A da terceira e última ronda do apuramento asiático, a quatro pontos do Usbequistão e de uma ambicionada vaga no playoff decisivo. A concretizar-se, seria a primeira presença da Síria num Mundial. Mesmo que tal não aconteça, a campanha das Águias de Qasioun já obteve feitos notáveis: humilharam a China, que gasta fortunas no futebol, com uma vitória por 1-0 fora de casa, e conseguiram empates a zero contra as potências Irão e Coreia do Sul. Nos últimos dois anos, a seleção trepou quase 50 lugares no ranking da FIFA – da 152ª posição para a atual 93ª.

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Jaddou foi capitão da seleção síria de sub-16 e era uma das promessas 
do seu país.

A prestação assume ainda mais destaque face às terríveis condicionantes que a seleção enfrenta. Os jogos em casa são disputados na Malásia, a milhares de quilómetros de Damasco. Devido a sanções aplicadas ao país, a FIFA congelou mais de 2 milhões de euros destinados ao futebol sírio, justificando a medida pelo receio de o dinheiro ser aplicado pelo regime Baath em equipamento militar. A seleção foi ainda proibida de participar na qualificação para o Mundial’2014, por causa da utilização indevida de um jogador que já tinha representado as cores da Suécia. Por fim, alguns dos mais talentosos futebolistas sírios fecharam a porta à seleção por motivos políticos: para além de Mohammed Jaddou, também Faris al-Khatib, antigo capitão e um dos melhores jogadores sírios de sempre, o médio Jehad Al Hussein e a goleador Omar Soma rejeitaram as cores nacionais. Khatib é estrela na liga do Kuwait e Hussein e Soma são dois dos melhores jogadores do campeonato saudita. “Tomo a minha decisão em solidariedade com todos aqueles que lutam pela libertação do meu país”, afirmou Khatib, aquando do seu abandono, em 2012.

Os estrategas políticos de Bashar al-Assad sabiam que a abrangência mediática do futebol podia funcionar como um excelente meio de propaganda. “O regime fez desta equipa um grupo pró-Assad, com o objetivo claro de garantir a qualificação para o Mundial’2018, especialmente porque será disputado na Rússia, o principal aliado do regime sírio”, afirma James Montague. O sonho de ver a sua Síria aplaudida e legitimada nos palcos russos, fez com que Bashar tomasse ações concretas em relação à modalidade: em 2012, como recompensa da vitória na Taça da Ásia Ocidental, o presidente recebeu no seu palácio o plantel, oferecendo a cada um dos campeões um apartamento em Damasco, 1500 euros e um emprego garantido nos organismos públicos. Um desses atletas era o guarda-redes  Mosab Balhous, que chegou a ser preso por “dar abrigo a gangues armados e por posse de quantidades suspeitas de dinheiro”, segundo a televisão Al Arabiya. Após a passagem pelos calabouços, Balhous tornou-se num dos mais acérrimos defensores do regime, agarrou a titularidade na baliza síria e ostentou a braçadeira de capitão nacional.

“Há dois grupos de jogadores na seleção: os que apoiam o regime genuinamente e os que estão ali por não terem outra opção, porque não conseguiram fugir ou preferiram ficar com as famílias”, diz James Dorsey. “Por isso, temos de ter em conta dois fatores motivacionais que podem explicar os bons resultados. Por um lado, os genuínos apoiantes enfrentam cada partida como uma batalha para defender Bashar, por outro, os que não têm opção são obrigados a jogar com garra para não se meterem em problemas”.

No passado, outras seleções árabes conseguiram superar-se em momentos dramáticos: em 2007, o Iraque venceu a Taça da Ásia quando atravessava uma sanguinária guerra sectária e, em 2011, a Líbia qualificou-se para a Taça das Nações Africanas com jogadores que abandonavam os treinos para dispararem contra as tropas de Kadhafi. “Mas não é isso que está a acontecer à Síria”, defende Montague, relembrando os excelentes resultados das jovens seleções sírias nos anos anteriores ao conflito (a participação no Mundial sub-17 e os sub-23 com os Jogos Olímpicos a uma vitória de distância). “Ao contrário do Iraque em 2007, esta não é uma equipa que une o povo em redor de uma bandeira. Pelo contrário, reflete a divisão que a guerra criou. Eu diria que se não fosse a guerra, a geração de futebolistas que estava a aparecer ia garantir facilmente a qualificação para o Mundial e talvez se tornasse numa das melhores equipas da Ásia. Ou seja, a Síria não vence, como o regime gosta de fazer passar, por causa da guerra, mas apesar dela”.

Se dúvidas existissem em relação à orientação política do balneário da seleção, ficaram dissipadas quando o ex-treinador Fajr Ibrahim apareceu numa conferência de imprensa, após uma vitória diante de Singapura, com a cara de Bashar al-Assad estampada numa t-shirt: “Estamos orgulhosos por o Sr. Bashar ser o nosso presidente. Muito orgulhosos porque este homem luta contra grupos terroristas de todo o mundo. Ele é o melhor homem do mundo”, afirmou. A bajulação não lhe serviu de nada. Em Abril de 2016, sem justificação pública, Ibrahim foi despedido. Para o substituir, a Associação de Futebol Síria tentou contratar José Mourinho, à época, desempregado. A oferta, segundo a imprensa síria, era de três milhões de euros por ano. O técnico português agradeceu o convite, mas declinou-o.

O bom trabalho que o futebol sírio estava a apresentar foi interrompido e, provavelmente, a seleção disputa este mês aquela que vai ser a sua última oportunidade de estar num Mundial a curto prazo. “Os próximos grandes jogadores sírios vão jogar pela Alemanha, pela Holanda ou pela Bélgica”, prevê Montague.

Jaddou não tenciona voltar à seleção síria: “O meu país só tem guerra, destruição e fome. O futebol não faz sentido numa situação assim. Talvez, um dia, se a paz voltar, possa regressar. Mas não hesitarei se for chamado à seleção alemã”.

Primavera…e outras estações do futebol árabe

 

Egito

Claques e craques na lista de terroristas

As claques organizadas dos clubes do Cairo, especialmente do Al-Ahly e do Zamalek, tiveram um papel muito ativo na revolta contra o ex-presidente Hosni Mubarak. No dia 1 de Fevereiro de 2012, em Port Said, centenas de fãs do clube local, o Al-Masry, invadiram a bancada dos visitantes, assassinando 74 adeptos do Al-Ahly, num acontecimento até hoje marcado por fortes suspeitas de motivações políticas, levantadas pela total inoperância da polícia. Há cerca de um mês, 10 dos agressores foram condenados à morte, enquanto mais de 60 réus, inclusive agentes da polícia, foram senteciados a penas de prisão até 15 anos. “Nunca saberemos o que realmente aconteceu em Port Said, quais eram as reais motivações. Pessoalmente, não creio que as pessoas envolvidas – e é certo que os ultras do Masry se reuniram com a polícia – sabiam de antemão que iam morrer 74 pessoas. Acho que foi planeado, mas não como um massacre destas dimensões”, diz James Montague, que dedicou o livro Ultras – How Egypt Football Fans Toppled a Dictator a este tema.

Muitos outros incidentes relacionados com os Ultras ocorreram nos últimos seis anos. Em 2015, 22 fãs do Zamalek morreram quando a polícia usou gás lacrimogénio e balas de borracha sobre um grupo de adetos confinado a um estreito corredor delimitado por arame farpado. Os jogos do campeonato egício decorrem à porta fechada há seis anos. “Hoje é ilegal ser ultra, só o podem fazer na clandestinidade porque são considerados terroristas”, diz Montague. “Para el-Sisi, os ultras são uma ameaça. Ele esmaga o movimento porque o vê como uma fonte de rebelião jovem num país em que eles já demonstraram poder arrastar multidões”.

Na sua “caça às bruxas”, ou seja, na sua feroz perseguição aos Irmãos Muçulmanos, o presidente egício incluiu no início do ano o nome de Mohammed Aboutrika, um dos melhores futebolistas egícios de todos os tempos, na lista de terroristas, por suspeitas de financiamento ao partido islamita. Aboutrika, atualmente comentador da Al-Jazeera, nunca negou ser um devoto muçulmano e apoiou publicamente o líder da Irmandade Mohammed Morsi. “Sisi foi longe de mais na perseguição a Aboutrika”, diz Montague. “Um ditador pode prender 100 ativistas dos direitos humanos sem que nada aconteça, mas basta prender alguém com a popularidade de Aboutrika para ter ações de desordem pública”.

Tunísia

As ligações salafitas

A vitória do Esperança de Tunes, em 2011, na Liga dos Campeões Africanos, foi a Primavera Árabe política passada para o futebol. “Os acontecimentos na Tunísia estimularam a nossa equipa e acreditamos que os jogadores se sentiram mais livres depois do que aconteceu”, disse o treinador Nabil Maalouf, no rescaldo do triunfo. A seleção nacional atingiu os quartos-de-final do CAN’2012, eliminatória em que voltou a cair na edição deste ano.

Porém, mesmo no país em que a democracia prevaleceu, os desenvolvimentos políticos tiveram consequências no futebol. O movimento salafita, uma ideologia sunita ultraortodoxa, cresceu muito com base na desilusão de muitos dos revolucionários que ambicionavam mudanças súbitas após a revolução, e dezenas de futebolistas da liga tunisina pertencem a estas filiações, que por serem geralmente não-violentas, não despertam a reação das autoridades nacionais.

Contudo, na Alemanha, Anis Ben-Hatira, de 28 anos, nascido em Berlim filho de um casal tunisino, não teve a mesma sorte: foi despedido do Darmstadt, equipa da Bundesliga, por estar envolvido em ações de solidariedade com a Ansaar international, uma organização identificada como propagadora de fundamentalismo islâmico pelos serviços de segurança germânicos. O jogador, atualmente no Gaziantsport, da Turquia, defendeu-se na sua página de Facebook: “Qualquer pessoa que olhe para o meu currículo vê rapidamente que me envolvo socialmente e que luto pela igualdade entre pessoas de diferentes cores, etnias ou crenças. Acho que o verdadeiro escândalo nesta história é uma tentativa de sabotagem da minha carreira desportiva na Alemanha”. O especialista James Dorsey defende que se o jogador não levou a sua atividade religiosa para os treinos, o seu despedimento constitui-se como “um ato de islamofobia”.

Líbia

Os crime e o castigo de Saadi Kadhafi

Saadi Kadhafi, o terceiro filho do ex-presidente líbio, ficou conhecido por ter representado duas equipas da série A italiana, o Peruggia e a Udinese, mas na Líbia a sua passagem pelo futebol foi muito mais determinante: foi presidente da associação nacional de futebol, capitão da seleção e o único jogador a que os comentadores televisivos se podiam referir pelo nome, sendo os demais, por sua ordem, identificados apenas pelos números das camisolas. Saadi ordenou ainda a relegação do Al-Ahly de Benghazi, um dos maiores clubes do país, para a 2ª divisão, depois dos seus adeptos terem entoado músicas contra si. Ordenou ainda a detenção de vários adeptos, alguns condenados a prisão perpétua, e que incendiassem a sede da equipa. Suspeita-se ainda que terá orquestrado, em 2005, o assassinato de Bashar Rivan, uma das velhas glórias do futebol líbio.

Não é portanto de estranhar que, quando a revolta eclodiu, algumas personalidades ligadas ao futebol se tenham juntado aos rebeldes para terminar com a loucura de Kadhafi filho. No início de 2011, um grupo de 21 jogadores e dirigentes desportivos escaparam para as montanhas a oeste de Tripoli para declarar guerra ao regime. Atletas internacionais como Walid Al-Katroushi e Ahmed Al-Sqayer, ferido gravemente por um tiro no braço, chegaram a abandonar treinos para pegar nas armas e enfrentar as investidas do exército do ditador. “Quando me juntei aos rebeldes, esqueci o futebol, mudei de roupa, rapei o cabelo e esqueci mesmo tudo, até da minha família”, confessou Al-Katroushi. Embalados pelo ambiente revolucionário, a seleção líbia obteve o apuramento para a CAN’2012, uma competição em que tinha participado apenas em duas ocasiões. Em 2012, chegaram à final da Taça das Nações Árabes.

Foi sol de pouca dura. O conflito agudizou-se em 2013 e o país ficou fraturado em três governos rivais que combatem entre si pela legitimidade, contando ainda com a disseminação de vários fações islamitas pelo território. “Viajar de cidade para cidade para jogar futebol tornou-se praticamente impossível. A situação ainda é mais crítica do que na Síria porque não há cidades seguras”, diz James Montague. Saadi Kadhafi ainda conseguiu fugir para o Níger, mas em Março de 2014 foi entregue ao Congresso Greal Nacional, o governo de Tripoli, para ser julgado pela morte de Sqayer e pelo seu papel como líder das forças especiais no massacre de centenas de manifestantes em Benghazi, nos primórdios da revolução.

Como citar

CARRASCO, Tiago. Bola de fogo.