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Bolsonaro e o Futebol

Guilherme Pontes Silveira

Mais uma vez o presidente da República foi flagrado pelas câmeras assistindo a um jogo de futebol. Foram dois em apenas uma semana. Flamengo e a Seleção em sua estreia pela Copa América, no Morumbi.

Não é de hoje que sabemos que o futebol é o esporte nacional. Também, não é de hoje que sabemos que diversos políticos se envolvem com o futebol. E há quem diga que futebol e política não se misturam. Tolos!

Logo o futebol, o esporte mais popular do mundo. Que envolve diversas relações, desde as sociais à econômicas e, sobretudo, políticas. Um esporte que gera tanta receita para clubes, dirigentes, confederações, empresários, patrocinadores e redes de transmissão. Não pode ser apenas um: “vamos ao jogo para desestressar após um dia corrido de muito trabalho”. Embora, o futebol seja obra do acaso, as presenças do presidente vão um pouco além disso.

Com a ressignificação, por parte das classes populares, e popularização do futebol no Brasil, líderes políticos enxergaram nesse esporte, uma forma de usá-lo como ferramenta para obter a atenção da massa populacional. Getúlio Vargas foi o primeiro presidente boleiro. Com a implantação do Estado Novo, em 1937, o regime de Vargas soube aproveitar os êxitos da seleção brasileira em prol do governo. Desde o início de seu mandato, Vargas pregava um nacionalismo, um Brasil novo, unido. O discurso propagado por ele continha elementos do ideário da época: o futebol como um esporte nacional, a valorização da atividade física como meio de disciplinar o corpo, a função de propaganda e de exaltação do regime.

Com isso, destaco um evento que ficou marcado na história do futebol e da política nacional: a construção do estádio do Pacaembu. Inaugurado em 27 de abril de 1940, o estádio contou com a presença do próprio chefe de Estado. A festa de inauguração foi de cunho nacional, revelando que o estádio não seria apenas um espaço esportivo, mas sim um símbolo da capacidade esportiva do povo brasileiro. Um símbolo que Vargas atribuiu ao seu regime, usando o poder que o futebol tem com a massa popular. Claro, que houveram resistências ao uso do esporte como massa de manobra, mas isso cabe em outro texto.

Outros políticos também utilizaram dessa ferramenta para elevar suas figuras e seus regimes. Mussolini na Itália e Franco na Espanha. Mussolini soube tirar vantagem dos títulos mundiais conquistados pela seleção italiana em prol de seu regime fascista. Franco, e seu regime, ficaram conhecidos por ajudar a alavancar o time do Real Madrid e com isso usar o clube para fazer propaganda. Comenta-se que o ditador possuía uma tribuna no estádio Santiago Bernabéu para poder acompanhar aos jogos. Estádio que foi construído com dinheiro público.

Portanto, todos esses feitos estavam atravessados por relações políticas que ajudaram a fortalecer governos. Bolsonaro não construiu estádios nem financiou clubes e, muito menos, viu a seleção brasileira vencer alguma competição durante seu mandato pelo menos até agora. Tudo o que visto até agora se revela na figura de um oportunista político.

O oportunismo de Bolsonaro começou quando, já eleito, participou da cerimônia em comemoração à conquista do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras, em 2018. O caso gerou mal-estar no clube, entre os torcedores e na mídia. Muitos apoiaram, inclusive boa parte da torcida palestrina e o presidente foi ovacionado por eles e alguns jogadores, como o meio-campista Felipe Melo.

Presidente Jair Bolsonaro segura camisa do Flamengo. Foto: Marcos Corrêa/PR.

 

Bolsonaro se diz palmeirense, mas já foi visto com a camisa de diversos clubes do Brasil. O mais recente foi o Flamengo. Em jogo pelo Campeonato Brasileiro, no último dia 12, Bolsonaro marcou presença no Estádio Mané Garrincha. E não foi sozinho. Sempre acompanhado por sua equipe, o presidente contou com uma figura nova, o Ministro Sérgio Moro. Foram ovacionados pela torcida que jogaram até camisas do clube para os dois vestirem. Moro, acabou vestindo por cima do terno e, nas fotos, pareceu sufocado diante de tantas camadas de roupa. Sufocado com as roupas e sufocado diante de diversas denúncias devido ao vazamento de áudios atribuídos a ele nesta semana.

O presidente, que ainda não falou abertamente sobre as denúncias, encontrou um tempo em sua agenda para assistir a um jogo Flamengo e ainda levar seu Ministro, conhecido como herói nacional devido ao seu papel como juiz na Operação Lava-Jato. Portanto, a presença de Sérgio Moro neste jogo, pode ter um grande significado.

A outra aparição de Bolsonaro foi jogo de estreia da seleção na Copa América. A competição deu início no último dia 14 e tem como sede, o Brasil. Durante o intervalo do jogo, Bolsonaro desceu de seu lugar e foi à beira do gramado onde acenou para as pessoas e foi ovacionado por parte da torcida.

 

Ir a um jogo de futebol, um esporte que faz parte da cultura do brasileiro, dá ao presidente o título de presidente boleiro. E, na maioria das vezes, devido à importância desse esporte no país, acaba alavancando a imagem de um perigoso líder carismático. Além disso, pode mudar a atenção da opinião pública e da mídia para escândalos envolvendo o governo. E, parece que Bolsonaro, como o político popular que se tornou, descobriu que no futebol ele pode ser visto como um líder humilde, “gente como a gente” e que este esporte pode ajudar a manter a opinião de seus apoiadores em seu governo. Mostrar-se conectado ao mundo da bola, pode gerar vantagens ao presidente.