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Botafogo: crônica de um rebaixamento anunciado

Túlio Fernando Mendanha
Botafogo rebaixado

Foto: Reprodução

No dia em que iam rebaixar (novamente) o Botafogo, acordei com a zoeira da internet já a muito em meu desfavor. Naquela sexta-feira ingrata me recordei de um belo texto escrito pelo grande Paulo César Caju, que além de excelente cronista poderia atuar bem no futebol de hoje (mesmo com 71 anos). O ex-atacante, campeão do mundo pela seleção amarelinha de 1970, dizia que o atual técnico do fogão tem todas as qualidades de quem quer ser visto trabalhando, é um dos expoentes da escola nacional dos esbravejadores: gritam, xingam, arrotam grosso o tatiquês chatíssimo e o time continua na mesma.

Mas naquele dia também me recordei de uma imagem que se tornou um meme na internet, e que, eu, muito a contragosto fui mais de uma vez marcado pelos amigos de pelada de fim de semana. Acontece que a meu ver, qualquer reflexão antropológica/sociológica do Brasil atual deve levar em conta os memes da internet. Não afirmo isso como uma fórmula vazia, os memes são hoje uma das fórmulas sociais mais rápidas, completas e bem-humoradas da interpretação da realidade nacional (e claro, internacional). Também não digo isso enquanto uma esvaziada de conteúdo histórico: o Brasil tem a incrível prática de usar de graça para retratar a própria desgraça. É intrínseco a nossa gênese. Em 1808, quando D. João VI e seu séquito fugiram da fúria napoleônica e se instalaram no Rio de Janeiro, as melhores propriedades foram destinadas a abrigar o imperador e seus servos mais proeminentes. O povo carioca logo reinterpretou o P. R. (propriedade real) colocado nas casas selecionadas como “ponha-se na rua”. Há muitos outros exemplos históricos, mas eu me perderia nestas linhas se os fosse citar e acabaríamos nos esquecendo do ponto nevrálgico deste texto: o de que só os memes, somente a ironia e o humor, podem de algum modo fazer com que o torcedor botafoguense – este ser cuja passagem para os céus já está garantida pelos sofrimentos que passamos em vida – consiga levar a sua existência com paz e temperança. Dito isso, eis o meme em questão:

Meme Botafogo

Memes historicamente corretos: não ganhamos nada (que ainda exista hoje) desde então. Foto: Reprodução Desimpedidos

Lá no longínquo 1995 o mundo era outro, vivíamos sob a égide de FHC, internet e computador eram coisas de filme americano da sessão da tarde. Como bons torcedores, vamos levar em conta o fato de que não dava para o Márcio Rezende de Freitas ter visto o impedimento do Túlio, pois graças ao bom Deus (obrigado senhor, obrigado! Muito obrigado!) não havia VAR naquele tempo de futebol raiz.

Nosso time tinha inclusive o luxo de ser zoado em rede nacional pelo falecido programa Casseta e Planeta do botafoguense Helio de la Peña. Desde então, diferentemente de outros times que não erguem o caneco do Brasileiro há muitos anos, não tivemos Copa do Brasil para nos consolar. Não houve sequer uma chama de boa apresentação na Libertadores que pudesse nos empolgar. Notem mais uma vez a flâmula com a linda estrela solitária ao lado do indefectível 7 Up e sintam na garganta um bucólico gosto de romance saudoso. Também recorde comigo, ó irmão de causa, que é Santo Expedito o santo das causas impossíveis, peçamos juntos a ele para nos abençoar, já que a camisa é de uma época de um Brasil tão distante que nem o refrigerante que servia de patrocínio, nem aquele Brasil, existem mais.  

E, para acabar de nos afundar na lama dos memes e da zoeira nacional, cartolas que parecem não se exemplar nas milhares de zoeiras sem limites sobre o suposto título mundial requerido pelo Palestra Itália, ainda têm a pachorra de vir falar de dois títulos mundiais para o Fogão. Quanta necessidade de ser zoado, quanta falta de planejamento. Mas nossa atuação é deveras tão ruim a anos que (graças a Deus, ou não) nem recebi zoações sobre nosso suposto bi mundial. Até nisso perdemos.

Voltando ao meme, como podemos negar que faça total sentido? Nosso 2020 foi desastroso. Cinco técnicos em um ano. Um time montado por Paulo Autuori (nosso último campeão brasileiro) para atuar com velocidade, com verticalidade aproveitando da velocidade de seus alas. O ambiente desfavorável, bagunça institucional, a inexperiência de alguns jogadores e dirigentes levam o professor a pedir demissão. Trazem o argentino Ramón Diaz que não assume por problemas de saúde. A diretoria dispensa o hermano antes sequer dele entrar em campo sob a justificativa urgente de que o time necessitava de um técnico à beira do gramado. Trazem de volta o Barroca e aí ele também é obrigado a se afastar por testar positivo para Covid. Algumas coisas só acontecem com o Botafogo, o lugar das impossibilidades infinitas. Resultado: até a última rodada (enquanto este texto está sendo escrito) ganhamos quatro partidas no Brasileirão. Nossos últimos jogos fazem jus a uma reinterpretação da frase do ex-atacante inglês Gary Lineker: “o futebol é um esporte muito simples: 22 jogadores correm durante 90 minutos atrás de uma bola e no final o Botafogo sempre perde”.

Não adianta negar as aparências e disfarçar as evidências. Já começamos o 2021 com a mesma empolgação de Rodrigo Lindoso (ato que evidentemente tornou-se um meme) vestindo o manto que um dia preencheu a pele de um Donizete Pantera, e a um dos mais folclóricos artilheiros do futebol nacional, aquele cujo o nome a mãe deste que vos escreve teve a genial intenção de batizar em homenagem. Somos assim, no máximo, um Arsenal do Brasil. Muita tradição e poucas conquistas de renome.

Rodrigo Lindoso

Rodrigo Lindoso, sorrindo em seu orgulhoso esplendor ao usar o manto alvinegro. Foto: Reprodução Site oficial do Botafogo

Mas, como já virou rotina, não é mais surpresa; fato é que nós botafoguenses nos apegamos unicamente aquela vã esperança equilibrista de, no máximo, uma classificação suada para a sul-americana nos bastará. Há anos que não sonhamos com títulos de renome no futebol nacional, seria um luxo que sabemos não dispor. Há décadas que boa parte da torcida se contenta com Taça Guanabara, título do carioca e outras coisas vãs que no fundo sabemos não servir para quase nada. O futebol como o conhecíamos, meus caros, já é falecido há anos, mas, a despeito do rareamento das peladas, dos campões de terra e dos golzinhos jogados em vias públicas, ainda permanecem firme no panteão futebolístico nacional algumas leis imutáveis de nossa natureza, e, em meu caso, em nosso caso, como bons botafoguenses, como bons pagadores de promessas, continuamos fiéis àquela assertiva máxima que preenche a vanguarda dos mandamentos imaginários do torcedor brasileiro: não mudarás de time, não serás um vira folha.

Ser botafoguense hoje é ao mesmo tempo que um ato de amor, um ato de resistência, nunca se sabe da onde virá o próximo meme, não se sabe nunca em qual roda de amigos pós-pelada seremos vítimas da empreitada vil das zoeiras, não sabemos nunca quando virá o desprezo infantil destes jovens arrogantes que ousam rir quando declaramos nosso time. Estes Enzos que nunca viram um Wagner sob as traves ou nunca sentiram orgulho ao ver uma entrevista de Túlio Maravilha. Sigamos, no futebol ou no amor não se pode confiar nos deuses ou nos outros, sob pena de perder a fé em si mesmo. 

Loucos pelo Botafogo

Loucos pelo Botafogo. Foto: Wikipédia


Como citar

MENDANHA, Túlio Fernando. Botafogo: crônica de um rebaixamento anunciado. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 46, 2021.