120.29

Brasil de A a Z – o C de Castilho

Guilherme Trucco

O Brasil é um cano estourado vazando jogador bom pra todo lado. Sempre foi.

É tranquila a tarefa de elencar um escrete canarinho de A a Z.

Uma seleção de jogadores pra cada letra do alfabeto. Tarefa esta que, inevitavelmente, desencadeia um tratado fantástico de lendas da mitologia ludopédica tupiniquim.

Este é o Brasil C, de Castilho. 

Atenção, a escalação não deve ser lida. Seria inexato, incompleto.

Um selecionado brasileiro deve ser sempre recitado, como poema que é, em redondilhas maiores, e métrica espaçosa. Verifique.

Castilho

Carlos A. Torres, Clébão, Calvet, Capone

Capitão (o Óleude), Clodoaldo, Coutinho

Canhoteiro, Careca, Casagrande

Que me perdoe essa violenta linha de frente, mas hoje não irei comentar sobre a habilidade dos homens de ataque. Seria chover no molhado. Hoje quero assuntar dois dedos de prosa sobre nosso camisa 1.

Castilho, 1956. Foto: Wikipédia.

Francamente: Somos um país que odeia nossos goleiros. Aqui, ficam conhecidos não pelas grandes defesas, nunca por serem impenetráveis, mas antes pelas falhas, pelos gols históricos tomados, pelos frangos indecentes. Não queremos saber de defesas. Nunca. Os arqueiros internacionais têm apelidos favoráveis como o Aranha Negra, ou o Tarântula. Aqui não. Por isso mesmo, aqui não os chamamos de guarda-metas, são meramente os goleiros, aqueles que tomam os gols.

Já falamos sobre Barbosa no Brasil B. O detalhe é que anos depois da brutal final de 1950, Barbosa chamou alguns amigos, dos mais chegados, para um desimportante churrasco em sua casa. Enquanto todos mastigavam as coxas e sobrecoxas de um cínico galeto, escorria pelas barbas, pingando, manchando, uma sensação tenra e úmida. A lenha em brasa que assava a carne, uma madeira leve, nada mais era do que a antiga trave do Maracanã, feitas de madeira àquela época. Barbosa adquiriu, na moita, os mastros do arco em que tomou o gol da final contra o Uruguai. Naquele churrasco, viraram grosso braseiro incandescente. A fumaça subia, tosca, impregnava os poros. Ninguém, exceto Barbosa, sabia o que se passava ali. Apenas riam e bebiam cerveja no domingo de sol. Barbosa mastigava o gol do Uruguai, em uma espécie de antropofagia ludopédica.

Mesmo os goleiros do estrangeiro, como o argentino Andrada que tomou o milésimo gol de Pelé, quando em terras tupiniquins, ficam afivelados ao destino de serem vazados miseravelmente. O que dizer de Manga, e seu quiproquó na Copa de 1966? Tentou vender o time, é o que dizem. Saiu no tiro com João Saldanha. Não posso deixar de lembrar de Gilmar Rinaldi, o bigode, conhecido por tomar frangos com caráter. Ou então Veludo, eterno reserva de Castilho.

Chegamos então no camisa 1 do nosso onze letra C: Castilho, meus caros, não defendia bem. Simplesmente tinha sorte, desmedida sorte. Abria a leiteria. Castilho, observem, era daltônico. Para ele, a bola não era branca, e sim uma esfera vermelha, pelota de fogo vindo em sua direção.

Castilho é a representação drástica dos nossos porteiros. Um ser mitológico, que, por raça e amor ao time, decepou o próprio dedo, dificultando sua tarefa de defender. Castilho, abrindo a leiteria, é a ironia total dos nossos goleiros.

Como citar

TRUCCO, Guilherme. Brasil de A a Z – o C de Castilho. Ludopédio, São Paulo, v. 120, n. 29, 2019.