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Brasil e Alemanha: o que dizem nossos estádios sobre cidadania e pluralidade

Gilmar Mascarenhas

Sim, há vida (e como há) fora da Copa do Mundo, que ora atravessa onipresentemente nosso cotidiano. Como também há muita vida fora do “circuitão” hegemônico do futebol globalizado. Tanta coisa acontece ao redor dos gramados e é justamente esse outro campo de jogo, plural, mormente desprezado em nosso regime de visibilidade midiática, que faz do futebol um fenômeno planetário. O jogo “do” em vez do jogo “de” futebol, conforme aprendi com Maurício Murad, pelos idos dos 1990. Essa linguagem quase universal, terreno de disputas outras, para muito além da bola.

Palco de vitórias e derrotas para as mais diversas lutas sociais, o futebol tem essa capacidade de condensar e catalisar causas e anseios diversos. Revivemos essa máxima durante o Congresso Futebol e Sociedade na América Latina, realizado em Berlim, entre os dias 7 e 9 de junho, organizado pela ADLAF (Associação Alemã de Estudos Latino-americanos) e pela Academia do Konrad Adenauer Stiftung. Debates em torno de política, cultura e economia em distintas realidades latino-americanas. Nele apresentei o trabalho “GERALDINOS”: POPULAR CULTURE AND SOCIAL EXCLUSION IN MARACANÃ STADIUM, cuja repercussão motivou o presente texto.

Antes de Berlim, foi possível uma rápida passada por Hamburgo. Queria conhecer esta fabulosa cidade e sobretudo o lendário St Pauli. Infelizmente, sem jogo, pois no recesso entre temporadas. Mas o estádio, embora completamente vazio, não deixa de revelar a forma pela qual é apropriado pelos irreverentes torcedores. O ideal seria voltar em breve para vivenciar o clássico local, que há muito tempo não ocorre: o rival Hamburgo caiu finalmente este ano para a segunda divisão. Era o único clube em 55 anos de Bundesliga que jamais havia deixado a divisão principal. A temporada 2018-19 promete então grandes emoções na metrópole hamburguesa.

Trago o St Pauli na conversa por sua irreverente torcida (parte dela, melhor dizendo) e pelo vigoroso simbolismo que faz o clube ser mundialmente cultuado por todos que comungam em favor das liberdades e da tolerância. Posicionamento constante contra as mais diversas formas de fascismo, racismo, machismo e homofobia, além de iniciativas como apoio e inclusão recente de refugiados. Dentro do estádio, de forma muito singular, guitarras ecoam o sentimento roqueiro como expressão de rebeldia.

Irreverencia na fachada do estadio do St Pauli. Junho 2018. Autor Gilmar Mascarenhas

Irreverência na fachada do estádio do St Pauli. Junho 2018. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Este clube é, em minha opinião de geógrafo, pura expressão do bairro que o abriga e o nomeia. Zona portuária tradicionalmente habitada por estivadores e prostitutas, o bairro soube, em seu processo de obsolescência nos anos 1960 (processo mundialmente generalizado pela adoção dos containers), manter a vitalidade ao atrair e acolher hippies, punks, anarquistas e squatters. Enfim, tribos urbanas marginais e criativas que adotaram o clube como sua segunda casa. Muito raro encontrar tamanha simbiose entre um clube de futebol e seu bairro, a operar como num jogo de espelhos.

Evidentemente, para isso contribuiu a relativa debilidade econômica do clube, habituado a frequentar a segunda divisão nacional. A identidade “contracultural” do St Pauli não foi uma decisão, uma estratégia de gestão, visando marketing. O clube foi sendo adotado, pelo bairro e pela cidade. E acabou incorporando a nova imagem, que aliás rende bons negócios na venda de camisetas e outros adereços. Consta que o clube teve recentemente um diretor de futebol assumidamente homossexual. Difícil imaginar isso no Brasil. Enfim, estamos em um país no qual movimentos libertários vicejam, viabilizando um “St Pauli”.

Ousaria dizer que o universo futebolístico alemão, apesar de ainda pouco dele conhecer, tem algo essencial a nos ensinar em matéria de cidadania e respeito à diferença. Desde que veio morar no Brasil, em 2002, o pesquisador Martin Curi já muito nos informava sobre a política alemã referente às torcidas organizadas, criando e mantendo canais de diálogo e participação. Sem falar da experiência das embaixadas de torcedores, por exemplo, desde a Copa de 1990, visando oferecer ampla logística para torcidas visitantes, reduzindo assim conflitos e diversos problemas habituais. Enquanto isso, malgrado alguns avanços recentes, vivemos por aqui o ranço colonial de ignorar, quando não estigmatizar e condenar os diferentes. Apenas recentemente vão se esboçando escassos canais institucionais de diálogo com as torcidas organizadas, mas para elas prevalece ainda a face policialesca, armada do Estado como único contato direto e permanente com o aparato governamental: a Polícia Militar. Tal como as favelas, igualmente marginalizadas, criminalizadas, estereotipadas.

A Copa do Mundo de 2006, conforme apontei em trabalhos anteriores, representou uma onda de modernização dos estádios bem menos impactante que a ocorrida em outros países. Aliás, bem menos que em todas as demais quatro edições deste século XXI. Pois os alemães, além de possuírem um forte mercado interno, dotado de uma liga atraente e uma estrutura socioeconômica que reduz bastante os níveis de exclusão, adotou uma política bem menos autoritária e perniciosa na reforma de seus estádios. Primeiramente, evitou investir em cidades sem tradição ou potencial de mercado, não produzindo os “elefantes brancos” que temos em Manaus, Cuiabá, Brasília e Natal. No caso alemão, talvez apenas Leipzig seja um caso discutível, embora parcialmente justificável também por ser, além da capital Berlim, a única cidade situada na antiga RDA (Alemanha Oriental).

Mas o que considero mais importante é a forma como foi conduzida a reforma dos estádios. Restringir-me-ei ao Estádio Olímpico, único que pude visitar nesta curta estadia no país, e ao Allianz Arena, do Bayern de Munique, que pude conhecer em 2016. O grande monumento, erguido às vésperas da mais polêmica edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, foi concebido para expressar de forma inequívoca toda a pretensão de glória do Terceiro Reich. Da arquitetura de linhas severas na amplitude do espaço, com as estátuas solenemente alinhadas, o complexo nos assombra pela magnitude do Mai Feld, que acolheu multitudinárias celebrações nazistas.

Melhor não falar da piscina olímpica, que segue em funcionamento diário, uso social intenso, e todo o complexo esportivo ainda existente no local. Depois da desastrosa agressão ao complexo público do Maracanã (Estádio de Atletismo Célio de Barros e Parque Aquático Julio Delamare), e de nosso legado olímpico ainda suspenso no ar, melhor voltar ao tema futebol. Para a Copa 2006 o velho Estádio Olímpico precisava evidentemente ser reformado, adaptando-se às novas exigências. No entanto, suas linhas arquitetônicas neoclássicas foram bastante respeitadas. Sua simpática aparência minimalista conserva a rusticidade dos velhos coliseus, em contraste com a aberrante profusão de cores, detalhes e aparatos tecnológicos que fazem nossas arenas parecerem uma nave espacial, aqueles discos voadores dos filmes de outrora, repletos de luzes piscantes inúteis, apenas para impressionar os adultos e fascinar as crianças.

Basicamente, tivemos no Estádio Olímpico o quase completo encadeiramento (a Geral resiste) e a instalação de uma cobertura, característica comum às novas arenas. A presença de pilastras sustentadoras surpreende o visitante, pois representam “pontos cegos” no anel superior. Segundo o guia do estádio, elas baratearam a obra: o objetivo era mesmo reduzir custos de instalação e manutenção da imensa estrutura. De fato, o custo da reforma foi praticamente a metade do que consumimos no Maracanã, apesar da mão de obra alemã ser muito mais cara que no Brasil. Reduzir custos no país mais rico da Europa, e justamente num ramo de atividade econômica altamente rentável, soa estranho aos nossos ouvidos colonizados, bem como aos nossos olhares latino-americanos habituados a obras faraônicas produzidas por regimes ditatoriais. “Para que reformar o estádio se ele não servir a todos?” explicava o nosso guia.

Pilastras no Estadio Olímpico. Junho 2018. Autor: Gilmar Mascarenhas

Pilastras no Estádio Olímpico. Junho 2018. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Ademais, não se pode falar em elitização como legado da Copa 2006, ao menos nos índices alarmantes verificados no Brasil. A redução do custo na reforma dos estádios, aliado a uma política inclusiva, reflete-se diretamente na acessibilidade popular. Ao contrário de um Itaquerão marmorizado e de tantas outras arenas brasileiras repletas de sofisticação, o torcedor pobre tem vez no Estádio Olímpico de Berlim. Ele pode adquirir, por exemplo, para os dezessete jogos da temporada (do clube Herta Berlim), um pacote que resulta no custo de doze euros por partida. Considerando o salário mínimo nacional em torno de 1.500 euros, cada ingresso representa 0,8 % do mais baixo salário, correspondendo, comparativamente, a menos de oito reais no Brasil. Não é por acaso que o futebol alemão apresenta a melhor média de público no bem sucedido futebol europeu.

Assim como o Borussia Dortmund (caso mais conhecido entre nós, com sua invejável “Muralha Amarela” reunindo até 25 mil torcedores em pé), também o Herta Berlim oferece a seus torcedores uma “geral” para os jogos da Bundesliga. Atrás das duas balizas, temos um setor inteiro, no anel inferior, destinado aos que ficam em pé. Em torno de 20% da capacidade máxima do estádio está voltada para este setor, chamado pelos alemães de stepplatz, aproximadamente “lugar para se estar de pé”.

Geral do Estádio Olímpico. Junho 2018. Autor: Gilmar Mascarenhas

Geral do Estádio Olímpico. Junho 2018. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Consta que em média os clubes na Bundesliga oferecem o setor “geral” para 20% a 30% dos lugares do estádio. Um caso a parte é o Allianz Arena, que ao ser reformado para a Copa 2006 destinou menos de 10% de sua capacidade para a Geral. Pesou o interesse econômico para o clube que é a maior potência do futebol alemão. Mas em 2015 nova reforma contornou esse “déficit social”, duplicando o espaço do setor popular, a Sudkurv. Ali estive em setembro de 2016, em companhia de Marco Paes (ex-bolsista de Iniciação Cientifica e posteriormente orientando de mestrado, hoje doutorando em Geografia na capital da Baviera, mas sobretudo um amigo). Goleada, estádio lotado e muita vibração.

Geral do Allianz. Setembro 2016. Autor Gilmar Mascarenhas

Geral do Allianz. Setembro 2016. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Assistir ao jogo em pé não significa desconforto, conforme apregoam os defensores das Arenas, que nunca saborearam uma Geral, ou quiçá uma quermesse, um carnaval de rua e outras festas populares. Ao contrário, a ausência de assentos representa liberdade corporal e conforto para expressar suas intensas emoções, sem estar atado a uma camisa-de-força encadeirada. Conforto para se deslocar, se mover, transbordar. E liberdade para saltar e viver coreografias coletivas. Em suma, o estádio alemão contemporâneo acolhe não apenas os segmentos economicamente desfavorecidos. Acolhe também a atmosfera viva do futebol, da ardente paixão torcedora.

Geral do Allianz. Setembro 2016. Autor Gilmar Mascarenhas

Geral do Allianz. Setembro 2016. Foto: Gilmar Mascarenhas.

O 1FC Union, também de Berlim, merece breve alusão. O filme Schulter an Schulter (documentário, 2013) expõe o envolvimento intenso da “pequena” torcida (se comparada a do rival Hertha) com o clube. Atuou decisivamente, com dinheiro e suor, na reforma do estádio Old Forester. Com capacidade para vinte mil pessoas, o estádio se apresenta como espaço alegre e vibrante, como se fosse possível recuperar a atmosfera de, pelo menos, três ou quatro décadas atrás. Espaço de encontro comunitário, de congraçamento. Ali a metrópole fragmentada (e dilacerada) se reconstrói, revive, renasce, ainda que por momentos. O que já vale muito, de tão raro em nossos dias.

Quanto ao Brasil, a situação é por demais conhecida e muito pouco alentadora. Perdemos a Geral do Maracanã, a Coreia do Beira-Rio e tantos outros espaços populares, na poeira das britadeiras implacáveis e sedentas de lucro fácil às custas do patrimônio cultural. Para além do contexto da nova economia do futebol, nossos principais estádios foram tragados também pela voracidade da profitópolis, a cidade máquina do crescimento a qualquer custo. E pelo sentimento “antipovo” que exala da Casa Grande e nos assola desde sempre.

Em suma, estádios não precisam ser luxuosos, mas oferecer o essencial para a dignidade do torcedor. Segurança, acessibilidade, alimentação honesta e diversificada. Banheiros limpos e em quantidade razoável, sobretudo para o púbico feminino, que em nossos estádios (antes da arenização) sofria com imensas filas, pela escassez do serviço disponível. A ausência destes requisitos fundamentais serviu como cínico argumento para a onda de “modernização” que se abateu verticalmente sobre nós e transformou nossos estádios nesses equipamentos sofisticados que tendem a silenciar a festa e celebrar a exclusão. Mas há vozes e gestos dissonantes, num processo que tenho denominado “a reconquista do estádio”. Bola pra frente, Brasil.