17.1

Brasil e Argentina: mundos rivais e iguais

Marco Antunes de Lima

As seleções de futebol do Brasil e da Argentina se enfrentarão novamente no dia 17 de Novembro de 2010 em partida amistosa a ser realizada na cidade de Doha, no Qatar. Se não o mais importante, talvez o mais interessante dos clássicos entre seleções, as partidas entre Brasil e Argentina são recheadas de emoções e trazem a tona questões interessantes sobre quem possuí o melhor e o mais original futebol do mundo. Atualmente as duas seleções passam por momentos de renovação (mais até a brasileira do que a argentina) após os resultados não satisfatórios na Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. Antes da Copa as duas seleções eram cotadas como finalistas e todos esperavam um duelo entre nações vizinhas e irmãs, para coroar a Copa da África. O duelo não aconteceu; as duas seleções ficaram pelo caminho.

O sociólogo brasileiro Ronaldo Helal, em artigo relacionando o futebol brasileiro e o argentino, cita a conversa que teve, em Buenos Aires, com Pablo Alabarces, em que este teria dito que “os brasileiros amam odiar os argentinos, enquanto os argentinos amam odiar os brasileiros”1. Frase interessante que demonstra certas relações entre os dois países, principalmente quando a discussão envolve futebol.

Não sei se o sentimento exposto pelo sociólogo argentino Alabarces pode ser tomado como verdadeiro; se os brasileiros, amam odiar os argentinos e se os argentinos odeiam nos amar. Pode-se argumentar que tal afirmação não passa de um mito que reforça a rivalidade entre os dois países. No entanto, o que é possível dizer, é que existem semelhanças e diferenças entre as construções históricas e mitológicas dessas duas seleções e seus respectivos futebóis. De uma maneira geral, em minha opinião, nós brasileiros, a não ser em poucos casos tentamos não olhar para nossos vizinhos e suas culturas. Achamos que possuímos uma cultura própria, isolada do resto da América Latina. Que somos diferenciados, que não pertencemos a esse mundo latino americano, que não devemos integrá-lo. Pior, dizemos que os argentinos é que são isolados, se consideram europeus e não se sentem latinos. No mundo do futebol, para alguns pensadores, reflexo do mundo social, as coisas não são muito diferentes, principalmente quando nos referimos a Argentina. Este texto pretende expor, de maneira breve, alguns aspectos semelhantes e diferentes entre o o futebol argentino e o brasileiro.

Brasil x Argentina

Brasileiros e argentinos analisam seus estilos de jogo de maneira muito parecida. Nós brasileiros construímos uma identidade futebolística baseada no termo Futebol-Arte. Um futebol artístico, marcado pela criatividade, habilidade e que tem como forma principal o drible; momento em que o jogador usando de sua habilidade engana o adversário e proporciona a alegria do futebol. Os brasileiros se percebem como possuidores do melhor futebol do mundo, mesmo nos momentos em que não ganham – quando nosso complexo de vira-latas vem a tona.

Quando classificamos o estilo de jogo argentino o colocamos acima de tudo como “raçudo”, com maior vontade, com disciplinas táticas mais desenvolvidas, um jogo de força, totalmente diferente do e nosso futebol. De maneira geral, a crônica brasileira, ao longo de décadas, construiu uma ideia de que o futebol argentino é o oposto do brasileiro. Nossos maiores rivais tinham que ser diferentes de nós. Os argentinos não se veem da mesma forma como os brasileiros os analisam. Eduardo Archetti, sociólogo argentino, em consagrado estudo sobre formação e o discurso sobre o estilo argentino de jogar futebol2 nos mostra que o estilo nacional argentino, ou o fútbol criollo, foi caracterizado, ao longo da história como um estilo baseado na criatividade, na individualidade, na habilidade do jogador, tendo como movimento principal a gambeta. Esta seria uma forma de movimento próxima do nosso drible, com a função de enganar e desconcertar o adversário.

Podemos notar que a forma como a população argentina olha para o seu próprio futebol (acepção criada pela imprensa esportiva, assim como no Brasil) é estruturada de uma maneira muito parecida como a que nós brasileiros, idealizamos o nosso próprio estilo de jogo. Os argentinos, diferenciam seu estilo de jogo do estilo de jogo europeu; considerado como disciplinado, cheio de passes, sistemático, e, de certa forma , “quadrado”.

Entretanto, como tenta demonstrar Ronaldo Helal, quando os argentinos analisam o estilo de jogo brasileiro, o fazem de maneira muito parecida ao estilo de jogo que eles acreditam possuir. Em pesquisa realizada nesta última década, em periódicos argentinos, Helal, analisa que os portenhos admiram o futebol brasileiro como um futebol de “jogo bonito”. Porém, o autor, afirma, que para os argentinos, quando estes enfrentam a seleção brasileira, a sua seleção joga um estilo de jogo diferente do fútbol criollo. Fica a questão a se pensar.

Mas o que podemos realmente nos questionar é o porquê de os brasileiros verem o estilo de jogo argentino como diferente, com outras características e o porquê, de os argentinos, virem o estilo brasileiro como parecido com o seu. Podemos perceber que no caso brasileiro, ao criar uma identidade em relação ao seu maior rival, assim faz, diferenciando-o da sua identidade; enquanto que os argentinos não a diferenciam, mas criam uma identidade como igualitária.

Criollismo, hibridimos e miscigenação

O conceito de fútbol criollo é a base da explicação do que é o futebol argentino para os próprios argentinos. Esse estilo de futebol, dentro da memória nacional argentina, é o que melhor representa a nação platina. Conforme estudo de Archetti o termo fútbol criollo, surgido e desenvolvido no periodismo esportivo é fruto do hibridismo argentino. Para o autor, hibridismo seria uma mistura de características muito mais cultural do que puramente racial entre uma população.

Borocotó, famoso jornalista esportivo argentino da primeira metade do século XX; espécie de Mário Filho do futebol argentino, teorizou o termo Fútbol criollo, como um estilo de futebol surgido na Argentina nas primeiras décadas do século XX. Para ele, que é a base do pensamento argentino sobre o assunto, o Fútbol criollo, é fruto da mistura cultural e das habilidades dos argentinos nativos do período colonial com os filhos dos italianos e espanhóis que imigraram em grande número, no final do século XIX e início do século XX ,para o país portenho.

O fútbol criollo, teria surgido na Argentina diferenciando-se do fútbol inglés, jogado no país por ingleses e seus filhos, nas escolas, desde 1867. Este fútboll criollo, dentro da memória construída argentina seria a caracterização de uma força nacional. Archetti prefere dizer que este estilo é fruto do hibridismo cultural argentino, quando se misturam argentinos nativos, imigrantes espanhóis e italianos e os ingleses.

Apesar de Borococó criar uma ideia de que o fútbol criollo seria algo natural, a teoria do hibridismo demonstra que o estilo de jogo está muito mais ligado às práticas culturais, principalmente corporais, misturadas, do que algo natural, já posto.

A grande teoria do mito futebol-arte brasileiro é do jornalista Mário Filho. Estilo de jogo que ganhou repercussão em 1958, mas que já existia e se diferenciava do resto do mundo desde a década de 30. Para Mário Filho, inspirado nas teorias do sociólogo Gilberto Freire, as características típicas do futebol brasileiro, proveem da miscigenação existente no país e construía a nação.

A figura do mulato é fundamental para o entendimento do futebol brasileiro analisado por Mário Filho. O futebol jogado no país, assim como o povo brasileiro, para Freire, seria a expressão máxima da miscigenação. O professor, músico e lingüista José Miguel Wisnik, em seu livro Veneno Remédio: o futebol e o Brasil desenvolve uma análise em que as qualidades do futebol brasileiro estariam ligadas ao que o autor nomeou como um “DNA cultural”, diferenciando-se assim da ideia de uma pura miscigenação – mais voltada para a idéia de raça. Esse “DNA cultural” brasileiro, que Wisnik desenvolve pouco em seu ensaio, constitui-se como uma explicação próxima do hibridismo de Archetti para explicar o futebol argentino.

Borocotó  tem como um dos pilares da sua teoria sobre o fútbol criollo a figura do pibe – garoto na gíria local. Para ele o pibe é a razão da formação do fútbol criollo. É no sentimento de ser liver da criança que se encontra a essência do futebol argentino. O pibe, atrevido, livre, despreocupado pode jogar futebol a vontade sem ser preso as regras e táticas. Outro pilar do fútbol criollo para Borocotó é o Potrero, ou seja o campo de pasto, o que seria, guardadas as devidas proporções culturais, a várzea brasileira. É no potrero que o pibe irá desenvolver e criar o seu estilo próprio de futebol – estilo diferente do futebol inglês praticado nas escolas britânicas.

No Brasil, as ideias não são muitos diferentes. O nosso futebol-arte surge na infância, com o garoto. O futebol-arte vem do campinho, da várzea, da rua, do lugar simples. Jogar futebol arte no Brasil é jogar como um garoto, com inocência e liberdade. Uma grande coincidência da visão de jogo com o país vizinho.

Argentina e Brasil, além de vizinhos e ao mesmo tempo rivais no mundo esportivo, especialmente do futebol, possuem muitas coisas em comum. É necessário que um estude o outro e não se virem para o outro lado. Muitas coisas podem ser entendidas se tentarmos entender como nossos rivais pensam. Muitas outras semelhanças existentes entre esses dois países, principalmente no mundo futebolístico. Diferenças também, mas essas deixamos para os duelos nos gramados.

BIBLIOGRAFIA PARA SE PENSAR

ARCHETTI, Eduardo P. Masculinidades: fútbol, tango y pólo en la Argentina. Buenos Aires: Antropofagia, 2003.

HELAL, Ronaldo. “Como eles nos veem: futebol brasileiro e imprensa argentina”. Revista on-line Contemporânea. Edição nº 04. Volume 03 – nº 1, Jan/Jun 2005.

WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 


[1] HELAL, Ronaldo. “Como eles nos veem: futebol brasileiro e imprensa argentina”. Revista on-line Contemporânea. Edição nº 04. Volume 03 – nº 1, Jan/Jun 2005.
[2] ARCHETTI, Eduardo P. Masculinidades: fútbol, tango y pólo en la Argentina. Buenos Aires: Antropofagia, 2003.

Como citar

LIMA, Marco Antunes de. Brasil e Argentina: mundos rivais e iguais. Ludopédio, São Paulo, v. 17, n. 1, 2010.