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“Brasil, me diz como se sente”

Nathália Corrêa Costa

O professor e sociólogo argentino Pablo Alabarces (UBA) deu início à palestra com tema “Brasil, me diz como se sente” explicando a origem da música “Brasil, decime qué se siente”, cantada pelos argentinos para debochar dos brasileiros durante a Copa do Mundo de 2014. A música original “Bad Moon Rising” do grupo norte-americano Creedence Clearwater Revival já era bastante utilizada em paródias sobre política e futebol.

Segundo ele, a escolha dessa canção para as diversas paródias existentes passam pelo fato de o grupo pertencer ao movimento rock proletário e a canção possuir uma boa memória musical através da sua melodia simples. Porém, a escolha da mesma para a paródia especificamente criada para a Copa não tem um motivo declarado.

Esta versão foi escrita por torcedores jovens e viralizada nas ruas de Copacabana, nas redes sociais e também em vídeos com os jogadores da seleção argentina. O ritmo escolhido nesta paródia não pertence ao mesmo estilo da original e das demais paródias, o rock. Segundo Alabarces, podemos perceber uma “argentinização” da música, utilizando o estilo cúmbia como base para a melodia e a paródia de resposta dos brasileiros veio em forma de samba, símbolo da nossa brasilidade.

Pablo Alabarces durante a palestra de abertura do Seminário Internacional sobre “Copa do Mundo, Mídia e Identidades Nacionais”. Foto: LEME.

O palestrante também discorreu sobre a falta de identidade nacional na escolha das músicas oficiais dos mundiais, como por exemplo, a falta de brasilidade na canção “We Are One (Ole Ola)” e o erro na escolha do cantor Pitbull como intérprete. Segundo ele, a partir dos anos 90, as músicas oficiais passaram a ser no estilo pop e o foco mudou para o ponto de vista do torcedor, agora voz principal da narrativa e não mais, os esportistas.

Após as explicações iniciais sobre a melodia, Alabarces retomou com uma tradução do sentido da paródia “Brasil, decime qué se siente”. O palestrante explicou que a figura do Diego Maradona não poderia ficar de fora e muito menos a rixa com Pelé. Descobrimos após uma providencial intervenção do Professor Ronaldo Helal que “tener en casa a tu papá” significa que temos o líder em confrontos diretos, ou seja, nós brasileiros seríamos o freguês dos argentinos.

Nossa rivalidade não é culpa do futebol, mas neste esporte depositamos maior energia. Foi curioso descobrir a fama que o Pelé tem na Argentina em torno da sua opção sexual, através da expressão já enraizada por lá: “Pelé debutó con un pibe”. No Brasil, o Pelé é conhecido como mulherengo, apesar de ser lembrado apenas por ter namorado a Xuxa, tratada como símbolo sexual pelos argentinos.

Pablo Alabarces. Foto: LEME.

Alabarces ainda comentou sobre a “invasão argentina” durante a Copa. O objetivo central da torcida é justamente ocupar o território do outro e melhor que seja da forma como foi: televisionado, usando celulares para publicar nas redes sociais e viralizando uma canção que trata de forma sarcástica o seu maior rival.

O palestrante chama atenção para o fato de que nem tudo deu certo para os argentinos. Messi não se concretizou como o herói da canção e continua muito distante do ídolo Maradona, este sim, peronista, carismático, ativo nas questões políticas, enquanto Messi permanece calado.

Como uma apaixonada por futebol, talvez seja previsível dizer o quanto me encantou ouvir sobre aquela música que captou minha atenção no metrô ao cruzar com meia dúzia de hermanos horas antes dos jogos, digo meia dúzia, pois o meu orgulho me impede de ser sincera quanto aos números. A palestra do Pablo Alabarces abriu o Seminário com excelência e respondendo apenas em meu nome devo admitir ter sentido certa inveja dessa torcida aguante e da sua invasão branca e azul.