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Bravos goleiros: alguns que fazem gols, a exemplo de Rogério Ceni

Alexandre Fernandez Vaz

O São Paulo Futebol Clube venceu por duas vezes seguidas a Copa Intercontinental, em 1992 e no ano seguinte, em partidas disputadas em Tóquio, a primeira contra o Barcelona, a segunda contra o Milan. São-paulinos fanáticos ficavam acordados até a meia-noite, quando começavam as disputas do outro lado do mundo; alguns, como meu avô, despertavam poucos minutos antes do início de cada contenda, para assistir ao time do coração. Nas difíceis partidas o goleiro brasileiro foi Zetti, formado na tradição palmeirense de arqueiros, em que se destacou antes de grave contusão e da transferência para o Tricolor. No ano seguinte, ele comporia a seleção brasileira campeã da Copa do Mundo nos Estados Unidos, ao lado do titular Cláudio Taffarel e do terceiro goleiro Gilmar Rinaldi. No segundo título no Japão, o suplente de Zetti era Rogério Ceni.

Rogério esperou ainda algum tempo no banco de reservas, mas, quando assumiu a titularidade do time do Morumbi, só a deixou ao se aposentar, há dois anos. Ele foi excelente goleiro, mas não posso deixar de destacar que o mais impressionante, para mim, foi sua capacidade de fazer gols. É recente a contribuição tática dos goleiros jogando com os pés, como um antigo líbero, sendo exemplos Manuel Neuer, do Bayern de Munique, e Éderson, do Manchester City. Não era assim que o são-paulino jogava, ainda que uma ou outra vez se aventurasse fora da área. Rogério mostrou-se sempre muito habilidoso com os pés e chegou-se a especular certa vez se não seria o caso de ele jogar no meio-campo, em um Brasileirão, com título, em pontos corridos, já assegurado por seu time. Ele não aceitou. Impressionante, no entanto, é que tenha sido, em uma equipe como o São Paulo Futebol Clube, o principal cobrador de faltas e pênaltis durante tanto tempo.

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Ceni comemora o centésimo gol da carreira. Foto: Luiz Pires/Vipcomm.

Suponho que, junto com sua capacidade técnica inegável, a ascendência em relação a colegas e comissões técnicas fez com que ele tivesse a preferência para os tiros livres e penalidades. O único treinador que pôs um limite a isso foi Mário Sérgio. Leão, ex-goleiro, implicava com a reposição de bola com os pés, ao que Ceni respondia que a precisão que empregava era a mesma que com as mãos. Mas, apesar do razoável número de pênaltis perdidos e da obrigação do time de se organizar defensivamente de forma muito peculiar quando o goleiro se deslocava para cobrar faltas, ele realmente batia bem na bola, fruto de muito treinamento, o que se mostra no número de gols que fez. Há centroavantes que não chegaram aos quinhentos gols, mesmo com carreira longeva e em grandes clubes. O goleiro fez 132. Vi arqueiro vencer arqueiro, em Florianópolis, em um São Paulo x Figueirense, quando o bom Tiago Volpi, hoje no Querétaro, no México, mesmo time em que jogou Ronaldinho Gaúcho, não foi páreo para seu congênere tricolor. Bola para um lado, goleiro para o outro. Só uma outra vez assisti ao vivo a um gol de goleiro, em uma disputa de pênaltis entre Figueirense e Atlético Goianiense, pela Copa do Brasil, quando Márcio, debaixo de muita chuva, converteu para os visitantes.

Nos anos 1970, fez história no Atlético Mineiro o goleiro argentino Miguel Ángelo Ortiz. De bermudas, cabelos longos e testeira vistosa, era o cobrador de pênaltis do Galo. Foi campeão mineiro em 1976, mas naqueles tempos quem mandava em Minas era o Cruzeiro do guarda-metas Raul Plassmann, campeão da Libertadores no mesmo ano. Se Ortiz chamava demais a atenção com seu visual extravagante e pelas penalidades máximas bem cobradas – ele dizia que na Argentina os goleiros também treinavam como jogadores de meio-campo –, Raul não ficava muito atrás, com suas camisas amarelas, ditando moda e rompendo com o costume das cores escuras, preto principalmente. O cruzeirense, com os pés, nem pensar. Imagino que o goleiro atleticano tenha sido o primeiro a fazer um gol de pênalti no Brasil, ao menos em campeonatos nacionais. Ele ainda jogou no Comercial de Ribeirão Preto, mas consta que saiu de lá com a moral baixa, exatamente por ter perdido um chute decisivo.

A preferência em cobrar pênaltis e faltas dentro de uma equipe por parte de Ceni só é comparável à que José Luis Chilavert tinha na seleção paraguaia e no Vellez Sarsfield, da primeira divisão argentina. Lembro-me de uma entrevista em que Chique Arce, que chutava como poucos, foi perguntado sobre a prioridade na cobrança dos tiros livres e penalidades, logo após a volta do goleiro ao selecionado do Paraguai, depois de um período lesionado. O lateral-direito, múltiplo campeão por Grêmio e Palmeiras, não titubeou: “Se está Chiavert, lo patea Chilavert.”. Contudo, ele não chegou à metade dos tentos acumulados por Rogério Ceni.

O centésimo gol de Rogério, foi marcado, de forma emblemática, em cobrança de falta contra o Corinthians, talvez seu principal adversário ao longo da carreira. Lembro-me de vitórias e derrotas de meu time de coração frente ao São Paulo, inclusive um 5 x 0 aplicado pelo Timão, com direito a golaço de Danilo. Ele antes fora campeão mundial pelo Tricolor, e no fatídico jogo tiraria o arqueiro da jogada no território em que este devia ser soberano, a pequena área.

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Centésimo gol de Rogério Ceni. Foto: Luiz Pires/Vipcomm.

Ortiz morreu há duas décadas, Zetti, Taffarel, Gilmar, Raul e Chilavert se aposentaram, Volpi, Neuer, Éderson e Márcio seguem na ativa, cada um do jeito que lhe é possível. Rogério se tornou treinador e na nova função segue na busca obsessiva pela vitória. Já se disse que a posição era tão desgraçada que nem grama crescia onde os arqueiros pisavam. Não é mais assim, talvez nunca tenha sido, ainda que eles tenham como ofício evitar o gol, o objetivo último do futebol. Da estirpe dos corajosos, os goleiros. Alguns ainda jogam como líberos, outros são artilheiros. Dá para admirá-los.

Sul da Ilha de Santa Catarina, setembro de 2018.