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Nas brincadeiras é que se dizem as verdades?

Arthur Sales

Ter a possibilidade de se comunicar com milhares e até milhões de pessoas instantâneamente é uma de uma responsabilidade sem tamanho. Para o jornalista, informar, apresentar algo como fato ou verdade, deve ser produto de um cuidadoso processo de apuração e também de reflexão. Nas palavras do segundo artigo do código de ética da área:

“a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão”

Isso se aplica à todas as frentes de atuação jornalísticas, tanto na política, economia, assim como, no esporte. Porém, o jornalismo esportivo sempre foi, historicamente, uma área de menor prestígio em que, muitas vezes, regras distintas imperam no que se refere ao rigor de sua produção. O ambiente informal, descontraído até demais, dos programas de rádio e televisão, acaba permitindo com maior facilidade manifestações e discursos discriminatórios, aqueles que não necessariamente se tem por convicção, mas que estão no nosso inconsciente, fruto da nossa história e se expressam de maneira involuntária. Nessa brecha, o racismo, ainda não resolvido no Brasil, o machismo e a homofobia, preconceitos que andam juntos, podem dar as caras. Assim, o esporte que deveria promover a confraternização, fraternidade e competição sadia, acaba se tornando um ambiente assustadoramente hostil. Até que ponto o jornalismo pode ajudar a mudar, ou não, esse cenário é o ponto de partida dessa reportagem.

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O jornalismo esportivo de entretenimento

Nos últimos anos, a maior flexibilidade do rigor jornalístico no esporte ganhou ainda mais força com a priorização do “jornalismo de entretenimento”. Hoje, tudo é motivo para piada. O jogo e seus aspectos mais relevantes ficam sempre em segundo plano, também, não há muita preocupação com as consequências das frequentes brincadeiras. Para o experiente goleiro Deola, ex-Palmeiras, Fortaleza e Vitória, em muitos casos, o jornalismo esportivo “virou um stand up. Hoje em dia você vê que os programas de esportes estão próximos a programas humorísticos. São sátiras, piadas e, infelizmente, é a notícia ruim que vende. É o que as pessoas estão esperando, que os caras falem mal, façam alguma gracinha. Vi vários casos em que o peso acaba ficando maior para determinado jogador, acabam pegando mais no pé”, conta. Para o jogador, as muitas horas de programas de debate ajudam a piorar o cenário, “o povo está carente de risada, de diversão. Você vai assistir política, ouve falar de corrupção, vai ver cidades, só tem violência, as notícias são todas desanimadoras. O futebol, por outro lado, traz notícias divertidas. Só que para isso, o jornalista tem que depreciar, falar mal, caçar assunto, e, às vezes aí acaba extrapolando. O programa esportivo tem uma, duas, três horas, como você vai conseguir achar assunto para falar todos os dias? Você acaba, até de maneira inconsciente, passando do ponto”, analisa

E, como já diria a sabedoria popular, nas brincadeiras acabam aparecendo as verdades. Nas infindáveis horas de debate, ou no texto engraçadinho, preconceitos enraizados em nossa cultura encontram espaço para se disseminar. Para o professor e jornalista Juarez Xavier, “até mesmo os melhores jornalistas acabam reproduzindo isso. O Milton Leite, por exemplo, usa aquela expressão, ‘agora eu se consagro’, quando um jogador erra um gol”, a frase, segundo o pesquisador, demonstra como a visão estereotipada do jogador de futebol se faz presente no discurso do jornalismo esportivo.

Conversamos com o narrador e, também, jornalista, Milton Leite, que contrapõe, “é só ver o que já fiz em minha carreira para perceber que não estou reforçando estereótipo nenhum, nem humilhando ninguém. Se fizesse essa brincadeira só com jogadores de futebol, ou só com alguns jogadores de futebol, talvez se pudesse falar isso, mas essa mesma brincadeira já fiz com comentarista, torcedor, já fiz até comigo. Em uma situação muito legal da minha vida, disse para mim mesmo, ‘e o narrador pensou: agora eu se consagro’. Não estou reforçando estereótipo de que todo jornalista é ignorante, que todo torcedor ignorante, assim como não estou reforçando que todo jogador é ignorante. Acho que as pessoas levam muito a sério algumas coisas que a gente faz. Sei que na televisão estamos expostos, somos alvo de muita crítica, mas não entendo que seja reforçar estereótipo nenhum, não concordo com essa análise”, argumenta.

Jornalista branco e de classe média, jogador preto e pobre

A ridicularização sistemática de jogadores foi criticada há alguns meses pelo jornalista Tim Vickery em uma de suas participações na programação do canal pago SPORTV. O britânico reprovou tal postura, lembrando ter presenciado o mesmo cenário na Inglaterra, décadas atrás, quando jogadores, de origem operária, sofriam com ridicularizações de jornalistas, majoritariamente de classe média. Na visão dele, é o preconceito social invadindo as transmissões esportivas, tanto aqui como lá. “Um cara como o Tim ajuda nesse debate”, afirma Juarez, “ele viu o posicionamento e o reposicionamento na mídia na Inglaterra, podendo ter uma visão privilegiada para fazer essa crítica. Mesmo porque, a imprensa de lá tem um viés abertamente racista contra jogadores não europeus”, conclui.

No Brasil, os jornalistas esportivos da chamada grande mídia, são, assim como descrito por Tim no caso inglês, em sua maioria homens, brancos e escolarizados. Por outro lado, o jogar futebol, é o espaço da tentativa de ascensão social, do uso do corpo e não do intelecto, lugar do pobre e do negro. Aqui, a questão social se confunde de maneira muito mais significativa à de raça. Serve para ilustrar o cenário a dificuldade em encontrar representantes negros não só nas bancadas dos programas, mas também em outros cargos de direção no mundo do futebol, como o de treinador, coordenador, diretor e presidente.

Infográfico retirado do texto “O racismo além das 4 linhas”. Texto: Gabriel Paes e Maria Tereza/O Contra-ataque. Arte: Lucas Camanho. Números à esquerda referentes a qualquer cargo de comando no futebol e à direita a técnicos, diretores executivos e presidentes.

Situação semelhante acontece nas bancadas dos programas esportivos.

Comentaristas são, normalmente, homens brancos — Reprodução ESPN.com.br

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Milton Leite relativiza, em seu entendimento, o discurso preconceituoso, quando ocorre, é algo pontual, “pode acontecer, mas não vejo isso como regra geral, como média, para que se considere algo recorrente. Que um ou outro possa fazer é claro, até porque o preconceito acontece em qualquer lugar, mas, pelo menos nas coisas que leio, vejo na televisão, ouço no rádio não me parece ser regra. Considerar isso uma característica dos jornalistas por terem tido uma vida privilegiada ou porque estudaram mais é uma análise superficial. Acho que seria necessário um grande levantamento de situações que aconteceram para poder considerar como regra, como um comportamento de jornalistas que estudaram mais com relações aos jogadores. Não vejo nada disso, convivo com um monte de gente da área, jornalistas, jogadores, técnicos e nunca vi isso”, analisa. A visão é compartilhada pelo goleiro Deola e por Leandro Costa, jogador de 32 anos, que defende atualmente o Central de Caruaru, “não vejo que aconteça por racismo ou preconceito, vejo que é mais direcionado a jogadores de times grandes que dão ibope e que repercutem. Acho que as vezes há exageros, mas mais por conta disso. Podem até existir os preconceitos, racismo, mas não acho que seja o que mais transparece”, afirma o jogador.

Márcio Araújo e Muralha, vítimas recentes da violência em forma de humor

Para o professor Juarez Xavier, são nas frequentes brincadeiras que se reforçam estereótipos, “é como se todos os jogadores de futebol fossem semialfabetizados, incapazes de pensar de forma racional seus atos, suas ações e sua perspectiva política”. Quando analisadas outras modalidades, tais ridicularizações ocorrem com menos frequência em esportes mais elitizados, nas quais os praticantes não se encaixam nesses estereótipos“é algo que a gente acha difícil de acontecer, por exemplo, na fórmula 1, ou no hipismo. Às vezes até brinco com alguns colegas que gostaria de ver um programa de jornalistas que ridicularizasse seus próprios jornalistas”, observa o professor Marcel Tonini, autor da tese de doutorado Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu“Acho que isso acontece mais no futebol primeiro por conta do espaço da mídia e, sem dúvida, por causa da origem dos jogadores”, afirma o pesquisador.

“No Brasil, com relação aos estereótipos, também observamos a associação entre a prática de alguns esportes e a pouca inteligência. Não são poucas, nem raras as anedotas e as piadas feitas com jogadores de futebol. Não se observam os mesmos estereótipos com os jogadores de vôlei ou basquete ou, ainda, natação. Parece que, quanto mais popular o esporte, ou seja, mais pessoas das classes baixas estiverem envolvidas, mais o esporte tem seus jogadores estereotipados” — José Jairo Vieira

Xenofobia

O discurso preconceituoso no jornalismo esportivo se dá também em relação a esportistas de outros países. Marcel Tonini lembra de passagens ocorridas nos históricos duelos entre as seleções de vôlei de Brasil e Cuba no final dos anos 90, quando as adversárias do Brasil eram frequentemente ridicularizadas por seu país de origem e cor de pele, e, mais recentemente com o paraguaio Romero, que chegou a ficar sem dar entrevistas durante alguns meses em 2017.

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Consequências fora das quatro linhas

O goleiro Deola conta que já observou situações nas quais a atuação da imprensa teve consequências que extrapolaram as quatro linhas, “eles incitam a própria torcida a começar a falar mal do jogador. Já tiveram casos de perseguição de torcida, de agressão ao jogador, por conta de notícias que, às vezes são verdadeiras e outras são falsas. Mas por mais que sejam verdadeiras, a hora que começa a incitar a violência aí passou do ponto”, analisa. Para Juarez Xavier, são essas consequências que devem ser o centro das preocupações na atuação dos jornalistas, “o problema não é o que pensa o jornalista, e sim quando ele usa os meios de comunicação para poder dar vazão ao sentimento e à percepção preconceituosa. O mais importante é o impacto que isso tem. Se você não tem o controle da informação, com a qualidade necessária, acaba reproduzindo um ato que tem consequências sociais. Em São Paulo, por exemplo, morre um torcedor a cada clássico praticamente. Acho que essa violência é fruto da despolitização, que tem ajudado a criar um clima de preconceito e discriminação que divide, por um lado, os chamados comentaristas brancos de classe média, e, por outro, os jogadores de futebol, objetos e foco da violência racial nos estádios, na mídia e na rua. A ação da mídia é muito forte e muito séria no combate à violência nos estádios. Seria muito importante que existisse, por parte de seus agentes, essa consciência”, defende o pesquisador. A campanha #DeixaElaTrabalhar, de repórteres mulheres cansadas do assédio e violência sofrido por elas nos estádios que explodiu no último final de semana é um exemplo de como discursos violentos são inaceitavelmente frequentes no ambiente do futebol e, por outro lado, da importância da representatividade no combate de discursos preconceituosos. É possível, por exemplo, imaginar um comentarista assumidamente gay nas bancadas de programas esportivos?

Os piores jogadores do seu time

Para a realização dessa reportagem, pedimos a 48 torcedores do estado de São Paulo que tentassem mencionar de cara os piores três jogadores que viram no seu clube de coração. Dos 6 mais lembrados, 5 são negros. O levantamento, que tem um caráter apenas ilustrativo, pode servir de alerta sobre como o discurso midiático tem a capacidade de influenciar a percepção de desempenho individual de jogadores, o que impactaria inclusive na carreira esportiva dos respectivos.

Logo, “é necessário que o jornalismo compreenda as suas responsabilidades sociais e o impacto que ele tem e possa efetivamente assumir a sua responsabilidade social como segmento importante do jornalismo em especial em países como o Brasil”, como argumenta Juarez Xavier e explicita o código de ética da profissão.

Existe ainda um longo caminho a percorrer na busca por uma sociedade mais humana, porém, se por um lado ainda não nos desvencilhamos de muitas atitudes preconceituosas, é possível perceber avanços. Para o pesquisador Marcel Tonini, “hoje, já existe uma certa crítica com relação a isso, há uma noção de que o futebol não pode ser diferente da sociedade. Se a discriminação acontece na sociedade, de alguma maneira, isso vai se reproduzir dentro do futebol, e se ele se reproduz de alguma de maneira, não podemos ser condescendentes”. Marcel usa o exemplo do caso do zagueiro argentino Desábato, preso em campo por ofensas racistas ao atacante do São Paulo Grafite durante uma partida da Libertadores em 2005, para mostrar a evolução do discurso jornalístico de lá para cá, “existe uma diferença bem grande da abordagem da mídia. Na época, muitos comentaristas como o Tostão e Juca Kfouri diziam ‘ah isso faz parte do futebol’, ‘não deveria ser assim’, ‘o delegado foi oportunista’. Hoje existe uma unanimidade em tratar o assunto de uma maneira mais certa do meu ponto de vista”, analisa.

É fundamental que o jornalismo seja tratado com a seriedade que merece. Nas palavras de Milton Leite, “quem é jornalista, bem-humorado ou não, tem a missão de se aproximar da verdade, de fazer um comentário baseado em fatos e dados. Isso vale para qualquer área, esporte, economia ou política. Acho que tem muita polêmica em cima de jornalismo esportivo porque, efetivamente, a maior parte dos veículos estão encaminhados um pouco para essa coisa do entretenimento. Aí muito jornalista acaba confundindo, achando que a piada vem antes da informação, e com isso não concordo”, argumenta.

Por isso, apesar dos avanços, é preciso que quem atua como jornalista esteja ainda muito atento. A ridicularização sistematica que vem a reboque do jornalismo de “entretenimento”, cada vez mais presente na cobertura esportiva, deve ser vista com extrema cautela para que não ameace o direito de todos de se divertir, genuinamente, com o esporte.

Não conseguimos contato com o jornalista Tim Vickery até a conclusão dessa reportagem

Principais referências

A crônica do futebol que encara racismo e xenofobia como piada. El país. 10 de março de 2018.

A janela de vidro. Mauro Betti. 1997

Além dos gramados: história oral de vida de negros no futebol brasileiro (1970–2010). Marcel Diego Tonini. 2010.

Código de ética dos jornalistas brasileiros. FENAJ. 2007

Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro. José Jairo Vieira. 2003.

Dentro e fora de outros gramados: histórias orais de vida de futebolistas brasileiros negros no continente europeu. Marcel Diego Tonini. 2016.

Esporte na mídia ou esporte da mídia? Mauro Betti. 2001

Mídia esportiva e a profissão de treinador de futebol: estudo de caso sobre o mundial de clubes da FIFA. Roberto Nascimento Braga da Silva. 2014.

No futebol, a face mais explícita do racismo que “faz parte do jogo”. El país. 20 de novembro de 2017.

O racismo além das quatro linhas. O contra-ataque. 14 de março de 2018.

Onde estão os treinadores negros? Alma preta. 19 de outubro de 2015.

Sobre a televisão. Pierre Bourdieu. 1997