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Bye, bye futebol

Marcos Alvito

Foi que nem um soco na boca do estômago. Era um curso universitário sobre futebol, composto sobretudo de leituras de cunho histórico e antropológico. No início da primeira aula, pedi que eles se apresentassem, explicassem o motivo de estarem fazendo o curso e, é claro, declarassem para que time torciam. A moça, no início dos seus vinte anos, não titubeou, pelo contrário, afirmou com toda a certeza:

– Eu torço pelo Manchester United!

Reparem bem. Ela não é uma torcedora de Flamengo, Corinthians, Atlético, Internacional que tem simpatias pelo time de Old Trafford. Ela explicou que era tão somente, única e exclusivamente torcedora da equipe do norte da Inglaterra.

Depois veio o relato de uma amiga minha vinda de Campinas com os filhos. Apaixonada pela cultura carioca e pelo Flamengo, ela tentou transmitir a paixão rubro-negra ao filho menor. Como este demonstrasse um desejo bacana de jogar futebol de botão, lá foi ela com ele até a loja comprar um time. Chegando lá, antes que a mãe pudesse abrir a boca, o menino faz o pedido ao vendedor:

– Eu quero um time do Barcelona.

Diante da surpresa da mãe ele explicou que até achava o Flamengo simpático, mas já torcia pelo Barça há tempos.

Por que não? Se o futebol hoje é sobretudo um show televisivo, porque não torcer pelas equipes com as melhores performances, com os astros mundiais, que conquistam o título das competições mais glamourosas como a Premier League ou a Champions League?

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O futebol que eu conheci simplesmente não existe mais. Isso não é saudosismo, é apenas uma constatação. A ida aos estádios é cada vez menor. Na verdade, os estádios estão desaparecendo, agora são studios de futebol, ou arenas, para usar a palavra da moda. A média de público do primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, foi de 20.360 torcedores por jogo. Se levarmos em conta que a população da época não era nem a metade da de hoje, isto seria o equivalente, em 2017, a uma média de 41.833 torcedores. Sendo que a média real do campeonato brasileiro de 2017 até o momento em que escrevo é de apenas 15.873. Resumindo: na ponta do lápis a média de hoje representa apenas 38% da média de 1971.

Um outro caso: um menino que adora jogar futebol e é até bom de bola. Mas não assiste futebol de forma alguma. Prefere jogar videogame. Talvez porque só tenha ido ao estádio uma vez na vida em onze anos de existência.

Sim, o mundo mudou, existem outras formas de lazer. Hoje o mundo todo passa na tela do computador e todo mundo fica na tela do computador. Redes sociais, séries, filmes baixados…

Ao implementarem a destruição dos velhos estádios, ao fazerem a opção preferencial pelos ricos, aumentando abusivamente o preço dos ingressos, o que os dirigentes de clubes não percebem é que estão praticando suicídio a médio prazo. Eles estão matando a galinha dos ovos de ouro, ao cortar a fonte renovadora do amor ao futebol: o ritual de ida ao estádio pela primeira vez, a vivência do futebol ao vivo, no gramado de verdade e não na tela.

Descubro que o site oficial do Manchester United no Brasil existe há dez anos e foi reconhecido no início deste ano pelo clube. Se você se registrar, ganha cartão, certificado, kit torcedor com direito a livro, cachecol, broche e posters de jogadores. Não é só isso, também participa em sorteios mensais, recebe uma newsletter, pode reservar ingressos para Old Trafford com desconto, válido também para o museu do clube e tour do estádio, sem falar na loja do ManU, inclusive online.

Enquanto isso, se eu for sócio-torcedor do meu clube aqui no Brasil eu tenho direito a comprar ingressos com preços altíssimos, cinco vezes mais caros do que na Alemanha se levarmos em conta o poder aquisitivo, para frequentar um estádio gentrificado, cada vez mais sem povo, cada vez mais sem vida.

A moça tem razão em torcer pelo Manchester United.

Bye, bye, futebol.

Como citar

ALVITO, Marcos. Bye, bye futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 100, n. 6, 2017.