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Cadê o homem gol?

Rafael Miguel

“Umbabarauma, homem gol!” Assim começa a música “Ponta de Lança Africano” de Jorge Ben, o famoso verso ainda é repetido diversas vezes durante a canção exaltando a função da posição no futebol. O homem gol, o centroavante, o camisa 9, o artilheiro… são várias as denominações para aquele jogador que tem como principal responsabilidade proporcionar o momento maior do futebol: gol.

Mas por que no futebol moderno, principalmente no Brasil, essa função parece ter perdido importância? Há times que jogam sem um centroavante, há equipes que o jogador que ocupa essa posição tem outras funções, como marcar seu adversário ou compor o meio campo. Imagine se um técnico decide jogar sem zagueiros? Impossível! Mas por que jogar sem um centroavante parece ser algo tão natural?

O “homem de área” é algo que permeia o imaginário do torcedor, principalmente os mais antigos, e ao longo dos anos a posição de centroavante produziu alguns dos maiores ídolos do futebol brasileiro. Desde Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva e Vavá, passando por Roberto Dinamite, Reinado e Dadá Maravilha; até artilheiros mais recentes como Ronaldo, Careca e Romário. Os anos 90 e começo dos anos 2000 foram ainda bastante proeminentes em grandes centroavantes que marcaram época, como Viola, Luisão, Deivid, Guilherme, Washington, Oséias, Adriano, Jardel, Túlio Maravilha, Evair, Valdir Bigode e tantos outros.

Mas em 2019 e já há alguns anos, o futebol brasileiro parece viver uma espécie de crise quando o assunto é “camisa 9”. Basta observar a Seleção Brasileira, que tem exatamente a posição como uma das mais contestadas atualmente. Gabriel Jesus, que surgiu como uma esperança de gols, não foi bem na Copa do Mundo 2018. Já Richarlisson tem ganhado oportunidades, mas ainda não correspondeu à altura. Além disso, os dois citados fazem parte daqueles atacantes que possuem outras funções antes do ofício de marcar gols. Quem se lembra de Gabriel Jesus voltando ao meio campo para marcar seus adversários durante a Copa do Mundo da Rússia? O resultado disso, um total de 0 gol marcado pelo camisa 9 no Mundial.

Gabriel Jesus com a camisa da seleção brasileira. Foto: Gabriel Jesus/Instagram/Reprodução.

Quando olhamos para o futebol brasileiro, vemos que há pouca renovação de centroavantes. Surgem jogadores rápidos, que jogam pelas pontas e ainda possuem poder de marcação aos montes, mas goleador anda em falta. No Campeonato Brasileiro que acabou de começar, os principais atacantes da competição são nomes que iniciaram suas carreiras ainda na década passada. Fred do Cruzeiro (35 anos) e Ricardo Oliveira do Atlético-MG (39 anos) estão entre os principais artilheiros da temporada até então, com destaque para o camisa 9 celeste, que foi o goleador maior do Campeonato Mineiro e é o jogador com mais gols na temporada no futebol brasileiro até o momento.

Poucos são os atacantes jovens que surgem como possíveis destaques do Brasileirão 2019. Pedro (21 anos), do Fluminense surgiu na temporada passada como um típico homem gol, que até lembrava atacantes do passado, mas uma séria lesão atrapalhou os planos do jovem jogador, que precisará provar mais uma vez em 2019 que é um verdadeiro artilheiro. Gabriel Barbosa (22 anos), o “Gabigol” do Flamengo, também tem faro de artilheiro e entre altos e baixos tenta se firmar como um dos grandes atacantes da nova geração.

A lista de artilheiros dos Campeonatos Brasileiros também é um ótimo lugar para se constatar a decadência dos goleadores. No Campeonato Brasileiro de 1971, por exemplo, o artilheiro foi Dadá Maravilha, o “Peito de Aço”, com 15 gols, porém sua equipe, o Atlético-MG (campeão brasileiro naquela temporada) realizou 27 partidas, o que dá uma média superior a meio gol por jogo. Já em 2016, Fred, Potker e Diego Souza dividiram a artilharia do Brasileirão com 14 gols em 38 rodadas, uma média de 0,36 por jogo. Além do número baixo de gols marcados, nota-se que dos 3 artilheiros, apenas 1 é atacante de ofício (Fred).

Reinaldo, em sua comemoração típica. Foto Reprodução/Galo Mineiro.

O artilheiro máximo de um Campeonato Brasileiro é Washington “O Coração Valente” que balançou as redes 34 vezes na competição de 2004 atuando pelo Athletico Paranaense. Destaques também para Reinado, artilheiro em 1977 com 28 gols em 21 jogos de sua equipe, uma das maiores médias da história. Em números absolutos, o feito só foi quebrado 20 anos depois, por Edmundo, que chegou aos 29, mas com 25 jogos do Vasco da Gama.

Existem vários fatores que podem explicar esta falta de atacantes, principalmente quando se fala naquele típico camisa 9, alto, forte, bom de cabeça, que muitas vezes não possui tanta técnica com a bola nos pés, mas compensa com ótimo posicionamento e grande capacidade de finalizar jogadas. A culpa pode ser dos técnicos das categorias de base que não conseguem revelar jogadores para a posição, de uma “seca” de atletas que reúnem as características descritas acima ou dos técnicos das equipes principais, que primam por estratégias mais defensivas e muitas vezes dispensam a utilidade de um “fazedor de gols”.

Romário marcando um dos seus gols mais lembrados com a camisa da seleção. Foto: Framme/Reprodução.

A verdade é que quem se acostumou a ver grandes centroavantes nas equipes brasileiras e também na Seleção tupiniquim sente falta deste camisa 9, que já trouxe tantas alegrias ao futebol e já foi uma das posições mais nobres do esporte. Responder à pergunta do título deste texto é difícil, mas que o futebol sente a falta do homem gol, ah… isso não há dúvida.