107.15

Cadê os gols?

Leandro Marçal

– Um absurdo.

– Como assim?

– O jogo, um absurdo. A gente veio até aqui, pagou ingresso, enfrentou esse trânsito desgraçado pra quê?

– Foi um jogaço!

– Jogaço? Tinham que devolver o dinheiro…

– Mas foi um jogaço. Três bolas na trave, um pênalti perdido, expulsão, emoção do começo ao fim, um duelo tático. Queria o quê mais?

– Gols, queria gols.

– Ah, mas…

– Não tem “ah, mas…”. Cadê os gols? Zero a zero é o fim da picada.

– Também não é assim.

– Como não? Não podia acabar assim. Zero a zero não tem graça, pô!

– Não quer dizer que foi ruim, oras. Um treinador meteu três zagueiros, o outro povoou o meio e não fosse a troca do volante por outro homem de ataque, ali na metade do segundo tempo, não sei não…

– Cê ganha quanto pra falar tanta asneira? Vou te dar minha mesa de pingue-pongue pra explicar as táticas nela, quer?

– Para com essa chatice…

– Chatice? A Fifa devia mudar a regra, ninguém merece pagar pra ver um jogo sem gols. É pior que tomar um fora! Eles ganham bem demais pra não acertar um chute no gol!

cadeosgols

Cadê os gols? Foto: Rhisiart Hincks (CC BY-NC-SA 2.0).

– Tá, e se fosse um a zero pra eles?

– Se a gente perdesse?

– É.

– Pô, ia ser chato, né?

– Então?

– Vai me dizer que cê gosta de um jogo sem gols?

– Gosto de jogos bons…

– Não foi isso que perguntei.

– Tá, prefiro ver gols, óbvio.

– Eu também.

– Então, se tivesse que escolher, preferia perder de um a zero que esse empate sem gols?

– Preferia ter ficado em casa.

– Mas não tem como saber.

– Eu sei.

– Faz parte.

– Não dá, zero a zero não dá.

– Isso porque cê tinha falado que nem liga muito pro campeonato.

– Não começa.

– Calma… Vâmo tomar uma?

– Vâmo, quem convida paga.

– Claro, mas se acalma.

– Precisa ser bem gelada, viu? Prefiro o zero a zero que uma cerveja quente.

– Ok, ok!

Como citar

MARçAL, Leandro. Cadê os gols?. Ludopédio, São Paulo, v. 107, n. 15, 2018.