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Café e Olimpíada

Plínio Labriola Negreiros

Ao pesquisar acerca das inúmeras dimensões do futebol, não foram poucas as vezes que me deparei com temas paralelos, com alguma interface com esse esporte. Olhei os mais variados assuntos e temas: educação física, educação em geral, atividades e organização olímpicas, legislação esportiva, lazer nos espaços urbanos, além dos outros esportes. Em meio a esses temas, surgiu a natação e a sua relação com o movimento olímpico. Surgiu uma personagem e um evento: a nadadora brasileira Maria Lenk e os Jogos Olímpicos de 1932 de Los Angeles.

Nas últimas décadas, em relação às disputas olímpicas, tornou-se comum, para as entidades esportivas brasileiras, mandar um número razoável de competidores, ainda que sempre aquém do nosso potencial. Com bons patrocínios, em grande parte oficiais, há a sensação de um mínimo de organização. Olhando, porém, para outras participações olímpicas do Brasil, é possível encontrar muitas marcadas pela desorganização das nossas associações esportivas. Acredito que vale a pena relembrar a presença do Brasil nos Jogos de Los Angeles, em 1932. Quem nos ajuda nesse ato de rememorar é a nadadora Maria Lenk, a primeira mulher sul-americana a estar presente numa Olimpíada, autora de uma obra memorial: Braçadas & Abraços, publicado em 1986.

Essa Olimpíada teve como palco um mundo recém-saído da grande crise de 1929, vivendo a experiência da depressão econômica. Piorando o quadro, Los Angeles estava muito distante da Europa, resultando numa diminuição significativa no número de atletas participantes. De 3.015 em Amsterdã, em 1928, passou-se a 1.500 em Los Angeles. E o Brasil, que por falta de verbas não fora à Amsterdã, como se fez presente em Los Angeles-32?

Sem qualquer verba pública ou patrocinadores privados — apenas com alguma colaboração do governo federal, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), responsável pela delegação olímpica brasileira, usou de criatividade, que não impediu uma série de percalços.

Na figura do seu presidente, Renato Pacheco, a CBD conseguiu arrecadar 55 mil sacas de café, num momento em que esse produto estava com seu preço em queda livre no mercado mundial. Essas 55 mil sacas tinham outro destino: a queima. A ideia da CBD era a de vender esse café durante a viagem da delegação brasileira em direção à Los Angeles. Mas além do café era necessário um navio. Este foi conseguido junto à Cia. de Navegação Costeira, que fretou um navio, sem buscar lucros e ainda o adaptou para a delegação esportiva.

O Itaquicê, navio conseguido pela CBD, junto com uma tripulação da Marinha, segundo ordem do presidente Vargas, parte com a obrigação de vender o café para permitir a participação dos 82 atletas do Brasil. Inclusive uma delegação grande, se comparada a dos outros países. Porém, os primeiros problemas começaram na chegada ao canal no Panamá.

Nenhuma saca ainda havia sido vendida e era necessário pagar para utilizar o canal rumo ao Pacífico. O comando do Itaquicê argumentava que se tratava de uma delegação olímpica e que pretendiam gozar de isenção do pedágio. Porém, como explicar as 55 mil sacas de café nos seus porões? Para os administradores do canal valia o óbvio: era um navio mercante.

Panorâmica do Estádio Olímpico de Los Angeles, 1932. Foto: Library of Congress.

Depois de alguns dias negociando, com interferência diplomática, a delegação brasileira pode seguir viagem, porém com o compromisso de pagar o pedágio na volta. Assim, parecia que as dificuldades estavam vencidas. Ilusão. Após quase um mês de viagem, o Itaquicê aportava em Los Angeles, onde duas novas questões apresentaram-se: o café não fora vendido e havia a taxa de 1 dólar por pessoa para desembarcar naquele porto. Como o chefe da delegação brasileira possuía apenas 24 dólares nas mãos, apenas 24 atletas poderiam desembarcar.

Foram escolhidos os que possuíam mais condições de uma boa performance. Os outros continuaram viagem até São Francisco, com a tarefa de vender o café, além de tentar chegar à Los Angeles a tempo de participar das disputas. Nesse desembarque dos poucos “escolhidos”, outra situação no mínimo curiosa: a delegação desembarcou cantando O teu cabelo não nega, canção de Lamartine Babo. A imprensa local apresentou essa canção como o hino nacional brasileiro.

Os problemas continuaram com a questão do câmbio, pois além de dos americanos desconhecerem o mil-réis, ficou-se sabendo da guerra civil que começara do Brasil. Assim, foram preciso muito mais mil-réis para comprar dólares.

Outro momento, que talvez sintetize a participação brasileira em Los Angeles-32, vinculou-se ao corredor Adalberto Cardoso, que ganhou uma nota da imprensa norte-americana por correr 10 mil metros descalço, além de ter dado uma volta a mais, por descuido dos juízes. Mas o principal não foi noticiado: a atleta brasileiro, que havia seguido viagem até São Francisco, só chegou ao local da competição 30 minutos antes, sem qualquer dinheiro, em função de caronas e se alimentando de graça.

Vale ainda lembra que os EUA viviam a Lei Seca, e o Itaquicê acabou se tornando um espaço dos que pretendiam fugir daquela determinação legal.

Terminadas as provas olímpicas, com um fraco desempenho brasileiro, restava pegar o caminho de volta. Depois de vendido o café, que afinal havia sido o responsável pela ida dos brasileiros até Los Angeles, mas que também custou a não participação da maioria da delegação, estavam aqueles atletas e dirigentes de volta ao Brasil. Porém, como a viagem havia sido marcada por inúmeras dificuldades, mais uma se avizinhava, principalmente para os atletas e dirigentes de São Paulo: a guerra civil continuava. Os caminhos normais que ligavam o Rio de Janeiro à capital bandeirante estavam impraticáveis.

E a aventura continuou para os paulistas. Do Rio, seguiram de cargueiro até Ilha Bela, no litoral norte de São Paulo; de lancha foram até São Sebastião, de onde caminharam por muitas horas, até conseguirem uma carona de caminhão até Caçapava, onde conseguiram pegar o trem para São Paulo, graça à permissão das tropas leais ao governo federal. Assim terminava a participação do Brasil nos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles.

Esse momento da história do esporte nacional é muito significativo, já que podemos considerá-lo um divisor de águas, pois se até hoje o esporte nacional não é reconhecido por uma organização mais eficiente, estávamos diante de uma nova postura do poder público em relação às atividades esportivas. Se participação brasileira em Berlim também foi ainda muito mais confusa, ainda que por outras razões, nos anos seguintes da Era Vargas, o esporte vai adquirir um novo status, sendo colocado como prioridade na construção da nacionalidade. Ao menos no discurso.