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Cai a hegemonia, se levanta o futebol

Ivo Barreto

Adentrando os tempos de Copa do Mundo, me recordei de um episódio recente, que me fez refletir um pouco sobre alguns porquês do futebol e de seu magnetismo, exercido pelo menos com quem é boleiro desde criança, situação na qual me enquadro. A cena vem de um jogo recente do Flamengo pela Libertadores, no qual o rubro-negro da Gávea cumpria uma penalidade e jogava em casa, mas sem direito a torcida, estádio vazio. Sendo o campeonato que é, o jogo foi transmitido pela TV e, mais até que do que o jogo em si, outra coisa foi o grande barato aquela noite: nos dois tempos de 45 minutos, se podia ouvir grande parte das conversas dos jogadores em campo. Reclamações, palavrões de monte, (ok, esperado), mas também um diálogo próprio do futebol, íntimo de quem gosta de bater uma pelada, um festival quase musical de “Olha as costas, passou, passou!”, “No primeiro pau, alguém!”, “Inverte, inverte!”, e por aí vai. O que seria um moroso e indignante 1 x 1 em casa, ao final me pareceu um jogo fantástico, pelo que foi capaz de transmitir: a mais absoluta condição de humanidade, de um esporte cada vez mais distante disso.

Nos últimos tempos, o futebol mudou muito, e o que era um espetáculo palpável, embora enorme, perdeu a humanidade que liga este esporte a suas raízes, transformando seres humanos em objetos de marketing, atores de propaganda, símbolos icônicos de comerciais, mas que em campo deixam a desejar. Algo como se o business do futebol desse um carrinho no próprio esporte, que sai mancando e o juiz não dá nem um amarelo. Não que os caras ainda não sustentem seu talento minimamente, não é isso, mas muda a estratégia, muda o público e com consequências que não se pode ignorar. O futebol brasileiro, em especial, perde seus talentos cada vez mais cedo para mercados financeiramente mais aquecidos como o Europeu e, resultado disso, chega-se a uma Copa do Mundo sem que metade do público do país saiba quem são boa parte do elenco, figuras que jogaram aqui muito pouco tempo. Falta identidade, falta liga, falta química. Ainda assim, a Copa do Mundo de futebol me parece um período de acesso a este algo de humano que aos poucos tona-se cada vez mais raro no futebol profissional, mas deixa ver se me explico melhor.

Se atentarmos aos porquês, em milhares de bairros brasileiros, em sua grande maioria alijados de qualquer planejamento de qualidade de vida por parte de quem maneja as ferramentas de gestão da cidade, são os campos de futebol os únicos espaços de lazer, já desde muitas décadas. E veja bem, não são espaços meramente desportivos, do futebol. São espaços sociabilizados pelo uso diverso, imensamente ressignificados, locais onde a comunidade realiza suas festas juninas, eventos da escola ou da igreja, onde os pequenos brincam de muitos jogos e piques durante a semana e onde os grandes se confraternizam nos finais de semana, seja pelos muitos campeonatos locais e regionais, assistidos de pé e com torcida, na cerca, ao lado das linhas laterais, seja em peladas despretensiosas cujo único objetivo é dar sede, digamos, mobilizando a conversa animada após o jogo, com famílias e amigos.

Pois bem, se por um lado, nestes contextos o futebol ainda encarna o que há de mais humano das relações entre as pessoas e suas práticas culturais, ampliando generosamente seu lugar para o campo simbólico de muitas outras atividades, na Copa do Mundo de futebol é possível ver aflorar estas heranças “crianceiras”, como quer Manoel de Barros, mesmo no mais galáctico jogador. Entra-se em campo muitas vezes tão somente pela realização de um sonho, seja ele ganhar o título (o que garante jogos de uma entrega integral dos atletas, e não a monotonia de certos campeonatos de pontos corridos nacionais) ou mesmo simplesmente dar tudo de si em uma participação na Copa, em muitos casos, única na vida de alguns jogadores e seleções. Até por isso, não é raro ver um jogador derrotado em uma partida tietar um adversário que ele admira, ou comemorar como um título aquele único gol chorado, feito em meio a uma goleada sofrida, sabendo ser aquele o clímax a ser festejado, sem tristeza.

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Pelos campinhos muitos gols de placa são feitos, como os que brotam das ruínas do futebol brasileiro em Alcântara, Maranhão. Foto: Ivo Barreto.

Em um clima assim, portanto, fica fácil aflorar no mundo profissional dos campos o futebol tão apaixonante e humano que povoa as lembranças de criança de todo amante deste esporte. E, como esperado, a lógica das potências históricas no esporte já não consegue ser hegemônica no filtro de quem vai brilhar, pois muitas vezes o distanciamento com suas origens faz tremer até mesmo os maiores, prevalecendo muito das convicções pessoais ou permeadas no coletivo de cada equipe, coisas mais emocionais. Passada a primeira fase da Copa e os primeiros dramas do mata-mata, período suficiente pra ver fazer as malas de maneira melancólica tradicionais potências da bola, como Argentina e Alemanha, nos encaminhamos para as quartas de final, a espera de um confronto que pode não fazer vista aos mais desavisados, mas que já animava boleiros de plantão desde a definição dos grupos e chaveamentos: o temido, mas futebolisticamente desejado, Brasil x Bélgica.

Quem pode acompanhar este time Belga há mais tempo, não se engana com a escorregada que vimos em parte do jogo contra o Japão, nas oitavas, vencido no cair do pano, aos 48 do segundo tempo, depois de passar um calor considerável. Herdeira de uma base que chegou até as quartas de final na Copa de 2014 (hoje quatro anos mais experiente), quando falamos em Bélgica, falamos de um time que dá gosto de ver em campo, dona de um futebol de muito toque, mas com objetividade ofensiva, engendrado por um meio campo habilidoso, de figuras absolutamente fora da média, como De Bruyne e Hazard, além de um banco de luxo (com Fellaini, Batshuayi e por aí vai), capaz de manter a máquina azeitada e em alta rotação mesmo com mudanças. Mas é no ataque que acredito que caiba aqui o destaque a parte: Romelu Lukaku.

Belga de nascimento, mas de tronco familiar vindo do Congo (ex-colônia belga), Lukaku teve uma infância de extrema pobreza, vivenciando com intensidade potencializada o preconceito de ser negro nestas condições, em um dos países mais desenvolvidos da Europa. Com apenas 25 anos e havendo se profissionalizado aos 16, já passou por times como Anderlecht (maior time belga) e Chelsea (onde jogou com William, da nossa seleção) e joga hoje no Manchester United. Pelo convívio com outros jogadores, Lukaku fala seis idiomas, dentre eles o português e já se declarou um admirador da cultura brasileira, fã de feijoada, guaraná e do futebol, claro. Não bastasse isso, não há como ver o cara em campo, desenvolvendo uma velocidade absurda com a bola e lances precisos de finalização, sem se lembrar das arrancadas imparáveis dos brasileiros Ronaldo, Fenômeno, ou de Adriano, o Imperador. Além do mais, Lukako tem 1,90m de altura, o que, convenhamos, torna bem difícil a vida de qualquer zagueiro, se considerarmos que falamos, então, de algo como parar uma locomotiva em alta velocidade. Até por isso, não me parece exagero da impressa aponta-lo, como já vem ocorrendo, como o mais brasileiros dos belgas.

Confirmando até aqui o esperado, Brasil e Bélgica vão fazer nas quartas de final um confronto aguardado, digno de final de Copa. O que pesa é só um probleminha, o tal belga “brasileiro” estará neste dia com a camisa vermelha, o que exigirá que Neymar e cia abandonem de uma vez por todas o que resta de teatro na atuação e coloquem foco em tirar o coelho da cartola, senão, sei não… Se em algo colabora um conselho, acho que recordar daqueles campos de várzea ajudaria bastante, afinal, são espaços como aqueles, tão simples e tão densos de memórias e afetos, que fazem qualquer um entender e concordar com o escocês Bill Shankly, pra quem o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso.