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Calendário leva jogadores ao limite e 2021 pode ser marcante para as categorias de base

Nayra Antunes

O futebol brasileiro voltou a ativa em junho de 2020, três meses após a parada forçada em razão da pandemia da Covid-19. Os clubes entraram em campo sem torcida, com a frieza dos estádios e a promessa de cumprir todos os protocolos sanitários para conter a contaminação.

O novo coronavírus mexeu com as estruturas do futebol mundial, os clubes brasileiros tiveram de se superar e enfrentar desafios para manter a decisão de recolocar seus times em campo. O vírus por si só surgia como um grande adversário das equipes, mas foi inevitável que com o retorno do futebol, as equipes teriam de se preocupar não só com doença, mas também com aumento de jogadores lesionados.

A falta de tempo para treinar e o calendário de jogos surgem como grandes vilões do aumento de contusões na série A. O Brasileirão 2020 só terá fim em 2021, com a última rodada prevista para o final de fevereiro, rendendo mais desdobramentos desse cenário e forçando os clubes a procurarem uma solução.

Treinamentos reduzidos

O retorno dos jogos sob as restrições do distanciamento levou a uma compressão dos treinos. Não houve tempo hábil para trabalhar intensamente a regeneração e recondicionamento físico dos atletas. 

Isso resultou em mais trabalho para os preparadores físicos, fisiologistas e médicos. Um levantamento do ‘GE’ apontou um aumento de 77% das lesões em 2020 em comparação ao início do ano. E os números de desfalques por lesões só aumentaram.

Em junho, Grêmio já treinava mantendo distanciamento. Foto: Lucas Uebel/Ag. Grêmio.

Se listarmos as equipes que mais tiveram desfalques por lesões em 2020, o Fluminense deve ocupar os primeiros lugares no ranking. O tricolor carioca, que foi contra o retorno dos jogos no momento de maior pico da pandemia, também foi o que mais se atrasou nos treinamentos.  

Em novembro de 2020, o clube já contabilizava 16 jogadores contundidos, nove das lesões eram na coxa, e alguns atletas chegaram a repetir a mesma lesão.

Preparador físico do time das Laranjeiras há mais de uma década, Marcos Seixas afirma que o clube “já fazia uma previsão muito sombria” quanto ao número de lesões que o clube viria a ter no ano. Seixas ressalta que a média de idade do tricolor também contribuiu para esses dados e que o retorno dos jogos aumentou os desfalques com o número de jogadores contaminados pela Covid-19.

“Não só o número de lesões aumentou, mas também uma instabilidade na performance dos atletas, eles não conseguem manter uma regularidade na sua performance, você pode ver que é difícil você destacar um atleta performando muito bem, performando regularmente durante toda temporada. Qual é o time que tem performando coletivamente e individualmente melhor, é o São Paulo! Que foi um caso extremamente atípico, e acho que tem que ser valorizado, parabenizado e estudado”, afirma o preparador físico.

Nem mesmo os jovens da base do Verdão escaparam dos problemas físicos. Foto: Reprodução/Premiere.

O Palmeiras foi uma das equipes que mais disputou jogos no ano de 2020, envolvido em todas  as competições chegou a reta final a base de muito sacrifício. Na 22° rodada Brasileirão, o alviverde praticamente não tinha jogadores para escalar na partida contra o Goiás. Foram 22 desfalques por contusões e covid-19, houve um grande surto da doença no  elenco do Verdão.

O distanciamento social e o pouco tempo de descanso comprometem toda a lógica para a conquista de bons resultados no campo, cabe ressaltar que o desgaste mental também contribui para os erros técnicos e táticos nas apresentações em campo.

O calendário do futebol

A pré-temporada é tida como momento mais importante para os clubes, porque tem como função preparar os atletas nos aspectos físicos, técnicos e táticos para uma nova fase. No Brasil, a preparação física é a maior preocupação, tendo em vista que o tempo de preparo dos jogadores é bem curto.

Tomando por base os clubes da elite, a comissão técnica tem 15 dias para preparar seus jogadores a fim de disputar estadual, Copa do Brasil, Sul-Americana, Brasileirão, Libertadores, e até mesmo o Mundial.

Na Europa, normalmente, os clubes têm um pouco mais de tempo, cerca de um mês e um calendário mais ou menos enxuto. Os europeus, no entanto, não ficaram isentos de enfrentar os mesmos problemas durante a pandemia. Foi surpreendente para eles lidar com tantas lesões, overdose de jogos e resultados tão incomuns refletidos nas tabelas.

No Brasil, o calendário apresentado para o retorno dos jogos durante a pandemia mostrou que a CBF não se comoveu com a situação dos clubes. Com o atraso dos campeonatos ficou difícil encaixar tantos jogos com a falta de datas. Mesmo assim, o calendário não mostrou uma redução das partidas e nem mesmo adaptação, o que resultou em um ritmo intenso de jogos e pouco intervalo de tempo entre um e outro.

Acostumado a cobrir o dia a dia dos principais clubes do país, o repórter Gustavo Berton, da Fox Sports, descreve o cronograma puxado que os jogadores seguem atualmente.

“A verdade é que o jogador se desgasta muito no jogo, toma muita pancada. O cara que joga na quarta-feira, na quinta se você for acompanhar o dia a dia do treino, o jogador quase não consegue caminhar de tanta pancada que tomou e desgaste. O jogo de alto nível, ele requer isso. As dores vem na sexta, só que na sexta você já tem que treinar, porque sábado já é véspera de jogo, e domingo é o jogo. E quando joga domingo, tem a segunda pra recuperar, terça pra treinar e quarta já é o jogo. Então eles quase não param”.

Uma análise feita pela Zone7, uma plataforma de inteligência artificial que faz previsões sobre riscos de lesões nos principais clubes do mundo, alerta que um time que joga no mínimo sete partidas por mês aumenta em pelo o menos 25% as chances de lesões em jogadores comparado as equipes que jogam quatro ou cinco vezes.

Outro estudo dos especialistas reforça que a pré-temporada muito curta como a que ocorreu pouco antes dos clubes retomarem os jogos paralisados é, absurdamente prejudicial a saúde física dos jogadores.

Lance entre Athletico-PR e Palmeiras pelo Brasileirão 2020. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

O início dos Campeonatos estaduais 2021 está previsto para no máximo uma semana após o fim do Brasileirão 2020, propondo uma temporada emendada na outra. Em 2021, a Copa América pode desfalcar os times brasileiros por quase um turno inteiro, e os clubes terão de enfrentar mais desafios para essa temporada.

Gustavo Berton acredita que todo esse cenário que envolve o condicionamento físico dos jogadores ainda irá resvalar em 2021.

“Na próxima temporada, obviamente, o peso vem, porque a gente não vai ter a famosa parada, né? Os jogadores já pararam lá atrás, eles vão emendar uma temporada na outra. E isso claro vai trazer consequências físicas”.

A chave desse problema pode ser mais óbvia do que muitos imaginam, a utilização das categorias de base no início das competições. Essa tática já vem sendo utilizada há algum tempo pelo Athletico-PR, que há alguns anos vem escalando jogadores de base para disputar o Campeonato Paranaense priorizando as competições de maior relevância.

Em 2021, a mídia esportiva e os torcedores podem esperar por uma temporada com mais sequelas provocadas pela pandemia e o excesso de jogos, mas se olharem direitinho a solução pode está dentro de casa.


Como citar

ANTUNES, Nayra. Calendário leva jogadores ao limite e 2021 pode ser marcante para as categorias de base. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 17, 2021.