128.14

Caminhos pela História do Futebol

Plínio Labriola Negreiros

Ingressei, em 1986, no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC de São Paulo. Vinha da USP, onde concluiu o bacharelado e a licenciatura em História. Vale ressaltar que o curso de Mestrado nessa época tinha outra estrutura, tanto que não precisei apresentar um projeto de pesquisa finalizado e o curso oferecia, no mínimo, quatro anos para a conclusão dos créditos e a defesa pública da dissertação.

Dessa forma, a estrutura do mestrado da PUC-SP exigia dos alunos uma cuidadosa atenção às disciplinas obrigatórias e optativas, e mesmo atenção ao fechamento do projeto de pesquisa. Inclusive, a terceira disciplina do curso era Núcleo de Pesquisa, que tinha como objetivo a construção do projeto de pesquisa, com clara definição das fontes para a pesquisa histórica.

Quando os professores do pós-graduação me indagavam sobre o que seria o meu objeto de análise, desde o momento da seleção de ingresso, não havia titubeio: a pesquisa versaria sobre as transformações ocorridas nos bastidores da Igreja Católica brasileira a partir do Golpe de 1964. Tinha muito interesse em conhecer as entranhas de uma instituição que teve posições dúbias quando houve a ruptura política com a queda do governo legal de João Goulart, mas que, mais tarde, foi decisiva no combate ao regime autoritário. Com esse objetivo traçado, paralelamente a feitura das muitas leituras exigidas pelas disciplinas, selecionei a bibliografia básica para a construção da minha pesquisa. Trata-se de obras sobre as origens do Golpe de 1964, sobre a história da religião e sobre a Igreja Católica. Porém, não tinha muito segurança acerca do tema, menos ainda do recorte.

Torcedores no estádio. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Mestrado

Nesse contexto, nascia e amadurecia a ideia de mudar de objeto de análise. Esse processo foi impulsionado enquanto cursava as duas primeiras disciplinas. Na primeira, o professor Elias Thomé Saliba – que se tornou meu orientador no mestrado e que hoje é professor do Departamento de História da USP– revelou que o seu primeiro projeto de mestrado, que não foi levado adiante, versava sobre o futebol. Isto em meados dos anos 1970. Ele contava do seu fascínio pelo tema e por obras como O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho. O professor Saliba não apenas me emprestou o seu projeto abandonado, mas consubstanciou algo maior: legitimava, aos meus olhos, o futebol como objeto de análise histórica. Para meados dos anos 1980, isto não era pouca coisa; era uma conjuntura na qual as pesquisas históricas tinham outras preocupações, como os movimentos sociais e a busca das origens da tradição autoritária no Brasil.

A decisão final no tocante a mudar completamente o foco de trabalho veio com a segunda disciplina do mestrado, ministrada pelo professor Holien Gonçalves Bezerra, então presidente da pós-graduação da PUC e hoje professor aposentado da Universidade Federal de Goiás. Fazia parte do programa dessa disciplina a discussão de como se chega à definição de um tema de pesquisa histórica. Desde a escolha de um tema geral, passando pela opção de sub-temas e do corte cronológico. Além disso, a escolha das referências teórico-metodológicas. Um conselho do professor Holien, porém, me chamou muito a atenção: o tema vai ser estudado por muito tempo, exigindo fôlego e o cuidado para não se tornar maçante e desagradável. Assim, um importante critério de escolha do tema deveria ser o gosto pessoal. Essa assertiva era o que faltava para o que eu optasse por um novo tema. Eu tinha uma certeza: trataria do Sport Club Corinthians Paulista.

O projeto foi construído na disciplina seguinte, com a professora Estefânia K. C. Fraga, a partir do 1º semestre de 1988. Era exigência do curso o levantamento de fontes e a verificação das suas potencialidades. Assim, investiguei a documentação do Sport Club Corinthians Paulista, os arquivos da Federação Paulista de Futebol, vários clubes de bairro, todos os clubes profissionais de São Paulo, as bibliotecas, escolas e empresas dos antigos times de futebol, o Arquivo Municipal e o Arquivo do Estado, entre outros espaços.

Depois de alguns meses de investigação e levantamento de fontes, conclui o Projeto de Pesquisa, com o título: A fundação e organização do Sport Club Corinthians Paulista como fator de popularização do futebol paulista: 1910-1933. Foi entregue ao Programa de História em agosto de 1988. Um parêntese: a redação final do projeto recebeu uma motivação especial porque no fim de julho de 1988, o Corinthians conquistava mais um título paulista, na memorável conquista com o gol do quase estreante Viola.

O projeto anunciava uma dificuldade importante com as fontes, pois o clube objeto de pesquisa não dispunha de arquivo para a época em análise. Mas uma descoberta muito agradável: o ex-jogador corinthiano Teleco, cuidava da sala de troféus. A Federação Paulista de Futebol, por sua vez, não facilitou meu acesso aos seus documentos e biblioteca. Nesse espaço, uma emoção especial: fui muito bem recebido pelo ex-jogador Paulo Borges, então funcionário da entidade que dirige, desde o Estado Novo, o futebol em São Paulo. Dessa forma, não havia outra opção senão compreender a dura realidade da dispersão das fontes, com um olhar especial aos periódicos: O Estado de S. Paulo, O Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, Vida Moderna e O Pirralho. Mais uma forte atenção aos memorialistas da cidade e do futebol.

No início de 1989, com a atenta e profícua orientação do professor Elias Saliba, estabeleci uma mudança no corte cronológico da pesquisa. Entendia que não havia necessidade de avançar a análise até 1933, ano da oficialização do futebol no Brasil, e sim até a unificação das duas entidades organizadoras do futebol em São Paulo: a Liga Paulista de Futebol e a Associação Paulista de Esportes Atléticos. Isso se efetivou em fins de 1916.

Assim, passei a investigar as origens do Corinthians e como os primeiros seis anos da sua história foram importantes para a transformação do futebol oficial em São Paulo. E mais: como o clube nascido no bairro do Bom Retiro também foi se modificando. Dessa forma, depois de uma longa pesquisa, em junho de 1992, houve a defesa pública da dissertação Resistência e Rendição: a Gênese do Sport Corinthians Paulista e o Futebol Oficial em São Paulo (1910-1916).

Guardei do longo processo de construção de uma pequena parte da história do futebol e das práticas esportivas em São Paulo a certeza de que não era fácil estudar esse tema. Além das dificuldades inerentes ao ofício do historiador, o tema futebol não detinha muito prestígio dentro dos estudos acadêmicos. Havia quem colocasse o futebol como um tema menor. Também guardo uma satisfação: é possível que a minha dissertação de mestrado tenha sido o primeiro trabalho historiográfico sobre um clube de futebol no Brasil.

Doutorado

Voltei ao Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP, para o Doutorado, em 1994. Durante o processo de seleção, no segundo semestre de 1993, havia definido o tema (futebol) e o corte cronológico (Estado Novo) da pesquisa. Depois de dois anos e meio — tempo em que cursei as disciplinas do programa, terminei a parte essencial da pesquisa, além da participação nas atividades programadas —, o cerne do trabalho, no geral, permaneceu quase inalterado. E tive a orientação da professora Estefânia Knotz C. Fraga.

Essas escolhas (tema e corte cronológico) obedeceram a algumas preocupações. Vale ressaltar que o tema futebol veio desde a pesquisa do mestrado, sendo escolhido, entre outros motivos, em função da observação do fato de praticamente inexistirem trabalhos acadêmicos, notadamente na área de História, discutindo o esporte futebol, elemento importante na constituição da sociedade brasileira e das sociedades contemporâneas; de certa forma, outras disciplinas já caminham com essa preocupação, como tem sido o caso da Antropologia Social e da Sociologia do Esporte. Por outro lado, também não existia uma ampla produção historiográfica que dê conta da cidade de São Paulo em meados do século, em toda a sua riqueza e nas suas múltiplas possibilidades.

Assim, trabalhar com a Era Vargas, em especial o período autoritário, significou olhar para as questões culturais, pois eram muitos os trabalhos analisando olham esse período a partir dos seus aspectos político-institucionais e econômicos.

E por que trabalhar com o futebol durante o Estado Novo? Inicialmente pelas mesmas razões que justificaram a pesquisa anterior, pois sentia a falta de trabalhos que “reconstruíssem” a gênese do futebol e de outros esportes e de suas respectivas significações para uma sociedade, como a de São Paulo. Assim, cabia estabelecer as relações entre a constituição do espaço urbano, dando atenção às contradições desse mesmo espaço, e o desenvolvimento das atividades físicas e esportivas. Ao mesmo tempo, percebe-se nesse período de Vargas, a preocupação efetiva do Estado brasileiro em produzir a normatização das práticas esportivas, pretendendo atingir a totalidade das organizações esportivas do país.

A partir de 1941, com a criação do Conselho Nacional de Desportos (CND), há uma ampla legislação específica para todas as atividades esportivas, com os legisladores atentando a uma infinidade de detalhes, que deixavam claros seus intuitos centralizadores e disciplinadores. De modo explícito, o Estado apresentou-se preocupado em “tomar conta” dos esportes. Como pretendeu controlar todas as atividades físicas, a começar pelo espaço escolar. E o mais importante e que mereceu um destaque nessa pesquisa: essa ação estatal veio atender reclamos de parcelas consideráveis da sociedade brasileira.

Ainda comecei a pensar que a prática esportiva e a sua disciplinarização não poderiam ser tratadas isoladamente, na qual outros elementos apresentam-se enquanto pilares fundamentais. Tratam-se, inicialmente, das questões do corpo e da educação. Não perdia de vista que o Estado Novo fez parte do processo da chamada “Revolução de 30”, na qual novas camadas emergem ao poder e existe a necessidade de uma reestruturação do Estado, considerando-se novas preocupações e interesses. A educação passou a ser vista de forma diferente, tornando-se um espaço estratégico na consolidação do novo Estado, com a presença desses novos personagens. Daí a importância de se trabalhar com as concepções educacionais presentes na época. Paralelamente a essa questão, ocorreu a preocupação dos novos setores hegemônicos em construir uma ideia de Nação e Povo, que muitas vezes foram conceitos confundidos. Nessa construção, entre outras manifestações culturais, o futebol adquiriu uma grande importância.

Torcedores brasileiros com a bandeira da nação. Foto: Mowa Press.

Havia outras preocupações: como o corpo era pensado na época? Que relações podem ser estabelecidas entre corpo, educação, esporte e futebol? Neste ponto, tornou-se relevante pensar o desenvolvimento da Educação Física no Brasil.

Na busca de fontes, parti, inicialmente, para a leitura de periódicos da época, os da “grande imprensa”, especificamente, O Estado de S. Paulo e A Gazeta. Estes foram lidos no período 1936 a 1945. Meu interesse nesses periódicos veio da necessidade de encontrar um espaço no qual os esportes, como os temas afins, fossem discutidos de maneira sistematizada e continua. Ou seja, busquei informações acerca do dia-a-dia dos esportes, aliás, informação acoplada à visão do jornal sobre os esportes. Mas os periódicos tornam mais importante ainda por apresentarem as suas concepções de cidade, do espaço urbano. O jornal também é um lugar privilegiado, no qual um ou mais setores da sociedade, apresentam as suas concepções de mundo.

Constituíram-se, também, em fonte importante as revistas especializadas em Educação Física. Duas dessas publicações foram pesquisadas: Educação Física e Revista Brasileira de Educação Física. Ambas apontavam caminhos semelhantes: tratavam-se de materiais com fundamento científico, com caráter doutrinário. Essas revistas partiam do princípio de que a Educação Física deveria ser trabalhada enquanto uma ciência, na qual deveria ser abandonada qualquer prática empírica nessa disciplina, condição dominante até então. Havia um destaque grande aos esportes que poderiam contribuir, na visão dos editores das revistas, para a formação de um novo brasileiro, com o corpo pronto para defender a nação, seja guerreando, seja trabalhando.

Nesse sentido é que podemos compreender como o futebol, o esporte mais popular do país, era tratado. Inicialmente há um número muito pequeno de artigos evocando esse esporte; e esses poucos artigos se dividiam em duas tendências: ora tinham a clara intenção de apresentar os malefícios do futebol, ora pretendiam colocar as possibilidades de se praticar o futebol de forma científica, principalmente no que se referia aos treinamentos ou aos seus fundamentos (por exemplo, um artigo que ensinava aos jogadores a cabecearem a bola). Essa tensão que marcou a experiência da Educação Física, nada mais é do que a tensão que esteve presente em todos os que pretendiam pensar nos esportes enquanto uma atividade fundamental na construção nacional. De certa forma, os teóricos da Educação Física perceberam que o futebol não podia apenas ser ignorado ou tripudiado.

Nessa mesma área, outra fonte se faz presente. Falo das publicações que visavam objetivos semelhantes aos das revistas especializadas. Na prática são os mesmos autores dos artigos dessas revistas publicando livretos, opúsculos, livros, artigos em separata, normalmente com o apoio do poder público (poderia ser órgãos ligados à Educação Física, à Educação, ou mesmo ao DIP), discutindo a teoria e a prática da Educação Física e das outras atividades físicas. Mais uma vez é forte o caráter doutrinário dessas obras. Mas com um adendo interessante; não se trata de trabalhos que visavam olhar para as práticas físicas com exclusividade, como um fim em si mesmo. Diferente disso, existia a preocupação em relacionar o desenvolvimento da Educação Física com a organização da sociedade em geral. Assim, apresenta-se, com constância, a grandeza da nação colocada como o grande objetivo do desenvolvimento das práticas físicas. Esses teóricos faziam questão de mostrar a Educação Física dentro de um movimento maior, que apontava a construção de um Brasil novo. Sem dúvida, uma fonte importante, que merece ser ainda mais explorada.

Outra fonte pesquisava, de um potencial significativo, vem a ser as obras literárias, aqui contando com romances, contos, cronistas e memorialistas. Essas obras se constituem num importante olhar acerca da cidade, dos seus personagens com suas múltiplas experiências sociais. Em algumas obras, inclusive, são feitas referências diretas acerca do futebol, mostrando como este se constituía, quais os valores que nele estavam agregados. É o caso clássico de Antonio de Alcantara Machado, em Brás, Bexiga e Barra Funda.

Minha atenção também se voltou para os documentos oficiais, como a legislação, os discursos presidenciais e de ministros, como as obras que faziam propaganda do regime e, durante o Estado Novo, do ditador. Não tive a pretensão de olhar para essa documentação enquanto apresentadoras de uma realidade. Ou seja, não busquei reconstruir as práticas esportivas a partir da fala estatal. Minha ideia foi encontrar a construção de um discurso e de uma prática do poder público no que se refere aos esportes, nas suas múltiplas variações. Assim, o que se tornou importante foi verificar como se dava a ação estatal frente aos acontecimentos. Tive a preocupação de cruzar esses discursos e práticas oficiais com o que efetivamente se fez. A título de exemplo, cito uma contradição, que surgiu com toda a força nesse momento: por mais que as falas oficiais apontassem que as práticas esportivas eram uma prioridade nacional, encontramos as escolas de formação de professores de Educação Física em permanente estado de improvisação. Mesmo nas escolas, a falta de equipamentos e pessoal especializado era regra.

No Arquivo do DOPS paulista encontrei uma documentação muito rica, embora escassa. São prontuários de clubes e associações. Assim, pude pesquisar nas pastas dos principais clubes de São Paulo, notadamente naqueles que estabeleceram uma relação tensa com o poder público. Assim, essa tensão se constitui na principal qualidade dessa fonte, que permite perceber como os clubes esportivos se relacionaram com a polícia política, além de outros órgãos públicos que cuidavam das questões esportivas. Entre outras questões, uma pareceu-me muito interessante: como nas atividades esportivas, a separação entre o público e o privado se fez de maneira muito frágil.

Também procurei, obviamente, as obras que trabalham com o futebol durante a época em qual eu analisava. Em regra, eram livros escritos por pessoas envolvidas com esse esporte, no caso, ex-jogadores e cronistas esportivos. O grande valor desses trabalhos está no fato de apresentarem situações concretas dos diversos personagens do futebol. Ainda que sejam poucos cujo referencial seja o atleta. Porém, fala-se dos jogadores, dos dirigentes, dos jornalistas esportivos, do poder público, dos torcedores. Dimensiona-se valores, preocupações, entre outras coisas. Enfim, o dia-a-dia do futebol se apresenta. Talvez se tenha em Thomaz Mazzoni, importante cronista da imprensa escrita e radiofônica da época, em São Paulo, o nome mais importante.

Buscando conhecer os personagens que faziam parte da sociedade paulistana dos anos 1930 e 1940, e que tiveram uma ligação efetiva com o futebol, colhi alguns depoimentos orais. Tive a preocupação em buscar pessoas que ocuparam lugares diversos dentro da prática futebolística. Dessa forma, colhi os depoimentos de ex-jogadores (Chico Preto, do Corinthians Paulista e Oberdan Cattani, do Palestra Itália/do Palestra de São Paulo/da Sociedade Esportiva Palmeiras); de torcedores, que mais tarde foram dirigentes (Chico Mendes, do Corinthians Paulista e Paulo Schiesari, da Sociedade Esportiva Palmeiras) e um ex-jornalista esportivo (Murillo Antunes Alves). Inquestionavelmente, uma fonte muito rica, juntamente com os jornais, pois as experiências desses sujeitos afloram nas suas falas. Não foram apenas as suas experiências com o futebol e com os outros esportes que estiveram presentes. Tratam-se de vidas dentro de uma cidade como São Paulo, onde o futebol foi se apresentando. Em cada um dos depoimentos, temos uma riqueza significativa. Enfim, no que refere às fontes, assim como ocorreu no Mestrado, estive diante de uma dispersão. Mas as ofertas eram maiores.

Como resultado desse processo de pesquisa, em 1998, fiz a defesa da tese de Doutorado A nação entra em campo: futebol nos anos 30 e 40. Ressalto como esse trabalho contou com uma interlocução sempre cuidadosa na minha orientadora, Estefânia K. C. Fraga. Já era, por outro lado, um contexto bem diferente nas pesquisas sobre a História do Futebol. A minha solidão do início dessa década não estava mais dada.