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Das cidades atingidas pela Copa: Cape Town (2010) e o novo apartheid

Gilmar Mascarenhas

Decorrido um quarto de século desde o fim oficial do regime de apartheid, muito pouco tem a comemorar a população de cor negra na África do Sul. Tímidos avanços para além da conquista de determinados direitos civis, e convivência com elevados índices de desigualdade econômica que tendem a aumentar. No que tange ao direito à cidade, vemos escassas conquistas para além de alguns casos de regularização fundiária nas famosas townships: a segregação residencial permanece praticamente intacta, obedecendo agora não mais ao draconiano regime racista, mas as leis do mercado, tão poderosas quanto as velhas leis do apartheid. Argumentaremos aqui que a Copa de 2010, ao menos em Cape Town, contribuiu para o acirramento desta problemática.

Antes de adentrar a realidade sul-africana, cumpre frisar que este início de século XXI tem sido marcado, até aqui, por um novo modelo de Copa do Mundo no que diz respeito ao nível de sofisticação (e custo) dos estádios. Observe-se que a França organizou o evento em 1998, erigindo um único estádio novo, o Stade de France, em Paris. Na edição anterior, a dos EUA, o país simplesmente adequou os campos dos preexistentes estádios de futebol americano, com gasto bastante reduzido. A primeira Copa do Mundo do terceiro milênio, no entanto, realizada conjuntamente entre Japão e Coreia do Sul, em 2002, inaugurou o modelo pautado em volumosos investimentos em diversos estádios, sem qualquer previsão de aproveitamento regular posterior. Já presenciamos cinco copas no atual século e o modelo segue vigente e produzindo (com exceção da edição alemã de 2006) um lastro (ou manada) de elefantes brancos. Mais gravemente nos países “emergentes”, os famosos “BRICS”. A África do Sul incluída, notoriamente.

Não obstante todas as mazelas que assolam a população sul-africana, para a Copa do Mundo de 2010 o país edificou cinco novos estádios e reformou outros cinco, ao custo então de quase três bilhões de dólares[i] (Cottle, 2011, p. 58). Alguns desses estádios encontram-se totalmente subutilizados, como equipamentos altamente deficitários que sobrecarregam os cofres públicos, como no caso de PoIokwane e Mbombela (nesta última uma furiosa multidão tentou incendiar e destruir o elefante branco alguns meses após a copa[ii]), cidades de escasso mercado futebolístico e cujos governos locais não têm recursos (e mesmo se os tivessem, seria uma completa inversão de prioridades) para manter os novos elefantes brancos em sua paisagem. Trataremos aqui de um dos casos mais graves da história recente das copas do mundo, ocorrido precisamente na capital legislativa da África do Sul.

Por sua natureza exuberante, Cape Town (ou Cidade do Cabo) é sem dúvida uma das mais belas cidades africanas, caprichosamente assentada entre o mar e a montanha. Condição extraordinária que leva o mundo a compará-la com o Rio de Janeiro, porém menos “violentada” pela verticalização e pelo urbanismo predatório. Não obstante tamanho encanto, Cape Town é também palco de um modelo de segregação socioespacial de base racista dos mais impressionantes. Toda a zona que se estende espremida entre as íngremes vertentes da espetacular Table Mountain e o Oceano Atlântico é exclusivamente habitada pelas classes abastadas, isto é, gente de pele branca. A leste e ao sul do referido maciço montanhoso temos a zona portuária e a extensa periferia majoritariamente negra. São duas cidades em uma: nível de segregação e desigualdade que infelizmente os quase 25 anos do período pós-apartheid não conseguiram atenuar.

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Foto 1: vista da cidade a partir de Table Mountain. O estádio em destaque, e marco que limita a área central do inicio da zona nobre, para além dos morros, na direção do Oceano. Autoria: Gilmar Mascarenhas, setembro 2018.

Estive nesta cidade em 1998 e a visitei pela segunda vez neste mês de setembro de 2018, portanto, vinte anos depois. Como sinal de tênue mudança, apenas notei que as cobiçadas praias (Sea Point, por exemplo) são agora também frequentadas, ainda que timidamente, por negros. No mais, as estatísticas confirmam o impasse no projeto de redução das desigualdades sociais e raciais na cidade.

E aonde entra o futebol nesta história? Numa sociedade tão radicalmente dividida, o universo esportivo, como qualquer outro aspecto da cultura, corresponde de forma reflexa a esta brutal separação interna entre os sul-africanos. A forte presença inglesa no país desde o início do século XIX contribuiu para um elevado nível de esportivização, sobretudo em cidades portuárias como Cape Town. Como em diversos países o futebol, inicialmente um reduto elitista, foi se popularizando e se tornando o esporte dos pobres, isto é, dos pretos. Desejosas de manter suas firmes linhas demarcatórias da diferença, as elites progressivamente abandonaram o futebol e concentraram suas atenções no golfe, no rugby (esporte número um para a minoria branca nacional) e no críquete.

Muito próxima à área central, núcleo original da cidade, uma belíssima área de uso comum, plana, costeira e em forma de meia-lua, era utilizada como pastagem bovina. Trata-se do “Green Point”, toponímia em alusão direta aos seus verdes campos. Os recém-chegados ingleses logo perceberam o potencial de ali produzir um common ao seu modo, isto é, dedicado à prática esportiva. Fizeram-no a partir de 1860. E assim, quando se inicia o século XX, o Green Point já abriga corridas de cavalo, golfe, críquete, rugby e diversos campos de futebol, na condição de principal centro da vida esportiva na cidade. Ali surgiu, a propósito, a primeira liga de futebol em toda a região, a Western Province Football Association, em 1892. Exclusivamente formada por clubes de indivíduos “brancos”, da elite local.

O futebol rapidamente se popularizou em Cape Town, mas enfrentando uma cidade racialmente dividida. E assim, em 1927, os negros criaram sua própria associação, a Cape Peninsula Bantu Football Association. A registrar que “banto” é uma denominação genérica, criada pelos europeus, para designar de forma absolutamente imprópria a heterogeneidade dos povos africanos.

Àquela altura, já era conhecida a localidade como Green Point Common. Interessante registrar que o advento da intensa prática esportiva não necessariamente “expulsou” os usos pregressos no Green Point: o gado seguia pastando sobre campos de futebol amador (os clubes profissionais atuavam na Bantu League). Sim, o futebol como “primo-pobre” no mundo esportivo, coisa de preto, daí o uso improvisado do terreno compartilhado com animais. Mas esta presença negra estava com seus dias contados.

Sendo gestada progressivamente desde as primeiras décadas do século XX, a segregação racial sul-africana não nasceu com a decretação do Apartheid em 1948, mas certamente com ele adquiriu novo patamar. Estando o Green Point Common situado em zona enobrecida, decretada como “zona dos brancos”, os diversos clubes negros foram sendo “convidados” a não mais usufruir do local. A década de 1950 vivenciou este progressivo processo de expulsão destes, cuja resistência foi minada também pelas diversas remoções de comunidades negras para zonas muito distantes do Green Point, tal como o famoso District Six, bairro popular portuário inteiramente arrasado nos anos sessenta e que abriga, desde 1994, um museu específico para contar esta dramática história.

Nesta migração forçada de clubes “negros” para a periferia, o Stephanians, por exemplo, deixou o Green Point para alojar-se a vinte quilômetros dali, erigindo sua nova casa, o estádio Hannover Park. Outro clube, o Sea Point Swifts, deslocou-se onze quilômetros ao deixar o Green Point. O East End, por sua vez, deixou o mesmo local para passar a mandar seus jogos no Atlhone Stadium, a exatos quinze quilômetros dali. Estimulando a segregação, a municipalidade criou o Athlone and District Sports Board, em 1957, órgão gestor da prática esportiva em Cape Flats. Em suma, podemos falar num radical processo de “embranquecimento” do primeiro núcleo de prática esportiva de Cape Town, o Green Point, conforme aponta o livro “Fields of Play: memories and forced removals in Cape Town”, editado pelo Six District Museum em 2010.

A população negra que habitava o entorno da área central então foi em grande parte removida para Cape Flats, extensa zona periférica que se constituiu enquanto repleta de favelas e conjuntos habitacionais de baixa renda. Ali o futebol ganhou centralidade, daí a zona abrigar, desde 1972, o principal estádio da cidade antes do advento da Copa 2010, o Athlone Stadium. Ali, na vastidão da periferia, o Santos Football Club, criado em 1982, manda seus jogos, na condição de clube mais popular de toda a região oeste do país. Em suma, a Copa veio para desrespeitar esse padrão locacional local, que concentra no subúrbio e nas favelas os amantes do esporte bretão.

Embora indicado pelo Comitê Local para sediar jogos da Copa, sendo inclusive reformado para este fim, a FIFA rejeitou Athlone, zona considerada violenta e de paisagem urbana pouco apetecível aos patrocinadores do evento. Foi reformado, mas apenas aceito para treino de seleções, para frustração da grande maioria dos habitantes.

Segundo Blake e Hlatshwayo (2011), a FIFA agiu de forma impositiva e preconceituosa para com os bairros populares de Cape Town. A municipalidade contestou a proposta de edificar um estádio em área nobre e de lazer, mas a entidade máxima do futebol foi taxativa: ou construía ali, na grande vitrine da cidade, um novo estádio, ou não haveria Copa na cidade.

O novo estádio custou 600 milhões de dólares e figura em alguns “rankings” como o segundo mais caro do mundo. E é certamente um dos mais sofisticados elefantes brancos do planeta: os clubes de rugby preferem jogar em Newlands (tradicional estádio local) e o clube Ajax Cape Town, após insistir alguns anos com média de público inferior a dez por cento da capacidade do estádio, resolveu deixar de mandar jogos ali, exceto os de grande apelo de público. Avalia-se, pelas mais otimistas estimativas, que o equipamento gera um prejuízo anual que varia entre sete e dez milhões de rands (equivalente entre dois e três milhões de reais) aos cofres públicos.

Muito já se falou em demolir o monumento, por sua quase inutilidade. Em 2012, o congresso nacional da Central Sindical Sul-Africana colocou em pauta o destino do estádio, e foi aprovada a audaciosa proposta de transformá-lo em projeto de habitação social, conservando o campo de jogo como parque de uso comum para os novos moradores. O teor do projeto se baseia no espírito geral da era pós-apartheid, que anuncia intenção de reduzir a injustiça social e promover a retomada de antigas áreas ocupadas pela população negra, fazendo de Cape Town uma cidade “realmente africana”, misturada racialmente. A associação de moradores do Green Point (bairro nobre) contesta alegando que desde 1923, (quando a cidade recuperou a área ocupada pelos ingleses) seu fim é por decreto puramente destinado ao lazer, e não ao uso residencial.

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O canhão, remanescente do período colonial, aponta para o estádio, involuntária e ironicamente expressando o desejo de muitos: implodir o elefante branco. Autoria: Letícia de Luna Freire, setembro 2018.

O grande estádio se ergue imponente e silencioso na extensa área vede (e “desértica” em termos de uso social), em grande parte circundada pelo elegante Campo de Golfe. Um belo monumento à ostentação e ao mau uso do dinheiro público, bem como ao autoritarismo da FIFA.

Blake e Hlatshwayo (2011, p.226) arriscam afirmar que, “sem dúvida, na era pós-apartheid, Cape Town se tornou a cidade mais desigual do mundo”. Não apostaria convicto nesta afirmação, considerando cidades indianas e outras no próprio continente africano. Mas provavelmente ela se tornou mais desigual que antes, e neste movimento a Copa 2010 aportou sua contribuição.

Tem elefante branco no safári…


[i] COTTLE, Eddie (org.) . South Africa’s World Cup. A legacy for whom? Natal (South Africa):Kwasulu-Natal, 2011.

[ii] McKinley, “Mbombela:corruption, murder, false promises and resistance”. In COTTLE (2011), p. 305.