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Carlinhos e Flamengo: uma história de raça, amor e paixão

Lucas Costa

O torcedor rubro-negro dos dias atuais se acostumou a ver um técnico europeu em pé na beirada do campo comandando a equipe fervorosamente. Jorge Jesus levou o Flamengo ao patamar mais alto do Brasil e da América do Sul com seu estilo de jogo ofensivo e dominador que ataca o adversário durante os 90 minutos. 

Esse modelo de jogo “à la Flamengo”, como definiu o Mister, foi o que fez a diretoria rubro-negra ir atrás do espanhol, ex-auxiliar de Pep Guardiola, Domènec Torrent, para substituir o português. Entre a saída e chegada desses homens do velho continente, o maior vencedor no comando do rubro-negro continua sendo um carioca que, com suas notas de violino, levou o Fla à glória muito antes dos europeus.

O Rio de Janeiro é o lar de diversas figuras futebolísticas históricas, uma delas é Luís Carlos Nunes da Silva. Não conhece? Pois bem, então vamos chamá-lo pelo nome e apelido que o consagrou: Carlinhos Violino.

Carlinhos quando treinador do Flamengo. Foto: Reprodução

Carlinhos faz parte do seleto grupo de jogadores que defenderam as cores de um único time durante toda a carreira. Nas categorias de base, treinou no Botafogo, mas recebeu a chance de jogar profissionalmente no clube o qual seu coração pertencia. 

Entre o início da carreira como meio-campo em 1958 e o fim dela em 1969, foram 11 anos vestindo o “manto sagrado” do Fla, 517 jogos – é o oitavo jogador que mais fez partidas pelo clube – e 23 gols. Fez parte da estrelada equipe rubro-negra com Gérson, Canhotinha de Ouro, e Dida, que ganhou o único torneio Rio-São Paulo do Flamengo em 1961, além de levantar o caneco dos estaduais de 63, no empate em 0 a 0 contra o Fluminense, ocasião na qual foi registrado o público de 194.603 presentes, o segundo maior do Maracanã, o primeiro entre clubes. E o de 1965, numa época em que o Botafogo de Garrincha era a grande equipe a ser batida no Rio e o estadual tinha uma importância gigantesca, bem longe do que é hoje.

Uma mágoa do Violino é não ter tido oportunidade na Seleção Brasileira, tendo feito apenas um jogo com a camisa verde e amarela num amistoso contra Portugal. Viveu grande expectativa em atuar no Mundial de 62, mas, na convocação final, não foi escolhido.

Ele era um meia diferenciado, um volante classudo, mestre nas roubadas de bola, desarmava sem dar pontapés e, mesmo sendo um jogador defensivo, saía jogando com toques de classe. Refinado e preciso, não à toa recebeu o apelido de Violino, justamente por toda sua habilidade jogando na meiuca. Todo esse senso de posicionamento para desarmar sem precisar fazer faltas lhe rendeu o prêmio Belfort Duarte, dado a jogadores que nunca foram expulsos.  É sem dúvida um dos maiores e melhores jogadores da história do Flamengo.

Carlinhos quando era jogador do Flamengo. Foto: Reprodução.

Ao encerrar a carreira, Carlinhos repetiu um episódio que lhe aconteceu ainda garoto, quando Biguá, ídolo e lateral direito lendário da Nação, ao se aposentar dos gramados, entregou suas chuteiras para o jovem Violino, ato que Carlinhos repetiu ao fim de sua jornada, entregando o par de chuteiras a um menino franzino, loiro chamado de Zico.

O coração e a alma do Violino pertencem ao Flamengo, por isso, quando o clube precisou e o chamou, ele não negou. Sua primeira das setes passagens como técnico do time Gávea começou em 1983 para tampar a saída de Paulo César Carpeggiani.

Não durou nem 10 jogos, já que foi chamado somente para servir como uma espécie de bombeiro e apagar indícios de incêndios no time, situação corriqueira na relação Flamengo e Carlinhos. Como era um boa praça, calmo, sempre soube se relacionar com os jogadores e tinha o respeito de todos eles, os dirigentes não pensavam duas vezes quando se viam em meio a uma crise e precisavam de algo para apagar o fogo.

A segunda e a terceira passagem aconteceram no mesmo ano, num troca-troca de técnicos bem à cara do futebol brasileiro, Carlinhos foi o escolhido para substituir Lazaroni no comando em 87, mas em menos de 7 jogos foi trocado por Antônio Lopes que também não terminou o ano como técnico do Fla. Porém, ora, então quem comandou o time histórico do rubro-negro na polêmica Copa União de 87? Ele mesmo que você pensou, o Violino mais uma vez foi o escolhido para tapar uma saída.

Em meio a toda essa bagunça no comando técnico, Carlinhos se firmou de vez, organizou o time que tinha medalhões como Leandro e Andrade, jovens jogadores como Bebeto e Leonardo – este último tinha apenas 17 anos em 87, quando Carlinhos o promoveu para a equipe principal –, e craques já firmados e consagrados como Renato Gaúcho e Zico. Pelas notas do violino, o forte time do Fla foi campeão da Copa União com muitos jogadores formados pelo clube, além do seu próprio técnico.

Com o torcedor flamenguista mais uma vez cheio de orgulho, fora criada uma antiga máxima do clube: “Craque, o Flamengo faz em casa”. A frase foi feita pelo jornalista Geraldo Mainenti, numa reportagem feita em 1979 para a Revista Manchete Esportiva com jogadores como Leandro, Junior, Zico e outros formados na categoria de base do clube.

Por muito tempo, essa frase serviu como um mandamento para o torcedor, que viu o Flamengo ser campeão com técnicos que tinham suas raízes ligadas ao time. Jayme de Almeida, Andrade e Carlinhos fizeram o torcedor acreditar que somente alguém que já tivesse vivido o Fla e soubesse o que o clube representava, poderia ser campeão com o time.

Em 88, o Violino deixou mais uma vez o time carioca e retornou em 91 para substituir Vanderlei Luxemburgo. Logo de cara, venceu o Campeonato Carioca em cima do Fluminense, mas o grande título nessa passagem viria em 92.

Com um elenco bem diferente ao de 87 e sem os craques da geração de ouro do Fla, restando apenas o maestro Junior, o rubro-negro não era nem de longe um dos favoritos ao título Brasileiro daquele ano e tampouco forte igual ao time estrelado de 87.

O surpreendente título em cima do Botafogo veio pela habilidade de Carlinhos ao enxergar potencial nas peças que tinha, encaixar bem um sistema de jogo e, aliado ao vovô-garoto Junior comandando o time dentro de campo, chegaram mais uma vez à glória rubro-negra.

O Violino ainda viria a ganhar um bicampeonato carioca em 1999 e 2000 e uma Copa Mercosul, que até 2019, tinha sido o último título internacional do Flamengo. Ainda dirigiu Guarani e Remo, em passagens rápidas. Encerrou a carreira como técnico em 2000.

Carlinhos ao lado do busto em sua homenagem na Gávea. Foto: Divulgação/flamengo.com.br.

Carlinhos dedicou toda sua vida ao Flamengo, fazendo do clube sua segunda casa. Como jogador e técnico, ele colecionou títulos, fãs, amigos e todo o amor da nação vermelho e preta. De muitos Flamengos que já existiu, seja o de Jorge Jesus, seja o de Zico, o Fla do Violino sempre estará marcado nos corações rubro-negros.

Por isso, em 2011, foi homenageado ainda em vida pelo Flamengo com um busto com sua imagem. No total, foram 313 jogos no comando do Fla, 158 vitórias, 84 empates, 71 derrotas e 6 títulos conquistados.

Carlinhos morreu aos 77 anos, em 22 de junho de 2015, por decorrências de problemas de saúde que já enfrentava há alguns anos. Marcou seu nome na história do Flamengo e do Maracanã, na beira do gramado comandando o time com seu jeito sereno e fala mansa ou em cada roubada de bola magistral e em cada passe feito com toda classe, como se tocasse violino.


Como citar

COSTA, Lucas. Carlinhos e Flamengo: uma história de raça, amor e paixão. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 19, 2020.