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Carmen Lydia: impressões de uma história de esportes, artes e resistência através do século XX

Luciane de Castro

Bendita seja a quarentena utilizada para vasculhar. Bendita seja a quarentena que me ofereceu tempo para vasculhar jornais e apresentou a história de Carmen Lydia.

Desenvolvendo um projeto que espero em breve poder anunciar, tomei o início do século XX como ponto de partida da minha pesquisa. De conhecimento do Páreo Elegância, competição de natação realizada para moças às margens do Rio Tietê, avancei sobre as publicações com ares de urgência. A gente sabe que as histórias existem, mas nem toda história tem seu registro adequado. O tempo avança e, de concreto, o que temos é o esquecimento de nós e dos outros. Imbuída do sentimento de necessidade de resgate, me deparei com Carmen Lydia. E com Carmen Lydia estou envolvida há três meses.

O “graciosa nadadora” era apenas um dos predicados da menina que exibia saltos na praia de Botafogo e que também circulava pelos salões e teatros com apresentações de dança e interpretação de clássicos da música. Carmen Lydia foi, de acordo com notas e extensas matérias nos jornais da época, uma garota badalada por seu desempenho físico no esporte e na arte.

No dia 13 outubro de 1915, o jornal Correio Paulistano – com repercussão em jornais do Rio de Janeiro – tratava de anunciar a festa em homenagem a Olavo Bilac, onde Carmen Lydia tomaria parte do evento com duas apresentações: recitando ‘Romeu e Julieta’, de Bilac e dançando ‘As visões de Salomé’, de Joyce.

Nota sobre a presença de Carmen Lydia para inauguração da seção feminina da Associação Atlética São Paulo, dez. 1916. Foto: Reprodução.

Jornal do Commercio registra apresentação na Praia de Botafogo, dez. 1915. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além do destaque em apresentações de dança pelos salões da alta sociedade carioca e paulista, Carmen Lydia é acompanhada, clicada e comentada em razão de suas atividades na natação e nos saltos. Em dezembro de 1915, o Jornal do Commercio – Edição da Tarde trazia pequena nota sobre os concursos aquáticos realizados pela Federação Brasileira de Remo na Praia de Botafogo e os saltos de Carmen Lydia.

Nos primeiros dias de janeiro de 1916, Carmen Lydia é notícia d’O Tico Tico – Jornal para Crianças. Na edição do dia 5, em uma foto, e na do dia 12, em nota onde imputam a Carmen a iniciativa para a criação do Grupo Amphibios.

Foto de Carmen Lydia em O Tico Tico, 5 jan. 1916. Foto: Reprodução.

Nota sobre a criação do Grupo Amphibios n’O Tico Tico. 12 de janeiro de 1916.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em janeiro de 1916, Carmen compete na festa inaugural do ‘Grupo dos Amphibios’ em duas modalidades e obtém a vitória nos 50ms – o segundo colocado foi Ademar Martins – e no Salto – Altura 5 a 6 metros, sendo um de frente e outro de costas com e sem impulso, e dois saltos de fantasia livres – Carmen fica com o segundo lugar.

Resultados obtidos por Carmen Lydia no festival do Club do Amphibios, jan. 1916. Foto: Reprodução.

Pequena reportagem sobre Carmen Lydia, seus saltos e seu maiô, fev, 1916. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mal entrava o segundo mês do ano de 1916 e as polêmicas em torno de Carmen Lydia começavam a rodar nos impressos. A Revista Careta publicava, no dia 5 de fevereiro, duas fotos de Carmen na praia. De uso de seu maiô para natação e salto, a revista dá aspa à importante observação da então menina sobre o vestuário adequado para a prática esportiva.

Tomar conhecimento da vida de Carmen era, por si só, de uma alegria imensa. Imaginar que, há mais de um século, viveu uma menina capaz de mobilizar a imprensa e a sociedade da capital do país e da pauliceia acerca de suas qualidades de ‘sportwoman’ e artista, transformou meus dias de quarentenada numa espectadora do passado ansiosa por mais e mais notícias. Ora, o uso do ‘maillot‘, tão comum na tão prestigiada Europa pela alta sociedade brasileira, figurava como um acinte aos bons costumes e postura das damas e senhorinhas. Convém destacar que a atividade mais praticada pelas mulheres nas primeiras décadas do século XX era o ‘footing‘, ou seja, a caminhada ao longo dos calçadões a beira mar, que distante de nós há mais de cem anos, contemplavam vestimentas próprias da época.

Não demorou para que a revista mensal A Faceira – Culto a mulher, aportasse Carmen em suas páginas dedicadas às letras feministas. Em fevereiro e setembro de 1916, na coluna ‘As victorias do feminismo‘, entre notícias dos movimentos de mulheres no mundo que estava em guerra e exaltação das brasileiras que galgavam os mais variados profissionais, há registros das atividades de Carmen Lydia.

A Faceira, fev, 1916. Foto: Reprodução.

A Faceira, set. 1916. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ano de 1916 segue intenso de atividades e matérias sobre a jovem e suas habilidades como dançarina e dançarina e com textos de repúdio e de aprovação em razão do uso do maiô para os esportes. Há, inclusive, solicitação do Flamengo para inscrevê-la nas provas de natação com negativa da Federação de Remo por, até aquele momento, na cidade do Rio de Janeiro, não existir provas femininas na modalidade. A negativa não afastou Carmen da prática quase que diária da natação e salto, que era rotina, bem como as aulas de ballet, necessárias para suas apresentações pelos teatros e salões.

Careta, set. 1916. Foto: Reprodução.

Careta, set. 1916. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Encerra-se o ano com a participação de Carmen Lydia na inauguração da seção feminina da ‘Associação Athlética São Paulo’ com grande destaque no Jornal do Commercio do dia 20 de dezembro. Com toda a rapidez com que se desenvolveu as notícias a seu respeito e por todas as habilidades demonstradas pela jovem Carmen, era de se esperar que o ano de 1917 surgisse auspicioso.

Mas não.

A edição do dia 16 de janeiro de 1917 do Correio Paulistano, traz em sua página 3, pequena nota sobre a presença de Carmen Lydia na cidade para algumas apresentações no Teatro Municipal. Dois dias depois, os jornais O Imparcial (RJ), Gazeta de Notícias (RJ), O Paíz (RJ), A Época (RJ), A Gazeta (SP), A Noite (RJ) e A Rua: Semanário Ilustrado (RJ), imprimem em suas páginas, o escândalo envolvendo Carmen, sua avó Rosa Schindelar e Oswald de Andrade.

Resumidamente, o caso consistiu em denúncia de maus tratos e exploração da jovem Carmen pela avó, Rosa Schindelar e seu marido, Arthur Schindelar. Carmen deixou o Hotel França, após o almoço com sua avó e se dirigiu ao Fórum Cível e procurou o juiz de órfãos, Dr. Adalberto Garcia.

Reproduzo aqui a nota da edição 1652 de A Época, uma espécie de nota replicada em vários jornais.

“A bailarina Carmen Lydia abandona a familia, narra aos juiz de orphãos seus infortunios e é internada num collgio á ordem deste”

Foi muito commentado hoje, aqui, o seguinte facto: A jovem e apreciada bailarina brazileira Carmen Lydia, de 16 annos de edade, que tanto sucesso alcançou no Rio de Janeiro na sua recente estréa e também nesta capital, hoje, após o almoço que fez em companhia de sua avó, a Sra. Rosa Schindelar, que se diz sua mãe, deixou o Hotel França, onde se acha hospedada, à Rua Líbero Badaró, e dirigiu-se, sozinha, ao Fórum Cível, apresentando-se ao juiz de orphãos, Dr. Alberto Garcia.

Na presença dessa autoridade, Carmen Lydia fez uma longa e commovente narrativa dos soffrimentos por que era submettida pela Sra. Rosa, que a explorava e a expunha a situações humilhantes e immoraes, explorando-a.

Declarou, nessa occasião, que foi feita bailarina na idade de cinco annos, por processos de deslocamento doloroso de seus membros. Desde ahi, foi obrigada a trabalhar continuamente, sob insultos e pancadas, por fim, na Europa, abandonada em Milão, onde ficou dois annos, sozinha, completando sua arte morando numa pensão. Depois de procurar enganar-se a si propria, insistindo numa vida que não era a de seu desejo, aqui chegando e após pouco em pouco ir adquirindo a consciencia do papel que representava e do destino que sua pseudo mãe lhe preparava, resolveu vir à presença do juiz, a quem pedia para mandar internar num collegio e salvar algo de sua situação já bastante compromettida perante a sociedade em que vivia. Declarou que, si essa sua vontade não fosse satisfeita, lançaria mão do suicídio, não se conformando com o regresso à companhia de sua algoz.

O juiz penalisado ante a gravidade do assumpto que lhe era referido, attendeu à solicitação de Carmen Lydia, mandando-a internar num collegio depois de tomadas por termo suas declarações. Em seguida, mandou intimar Dona Rosa Schindelar, convidando-a a ir, amanhã, depor na sua presença. Também, amanhã, será designado um tutor para a infeliz Carmen.

O caso arrastou-se pelos jornais ainda por vários dias, trazendo declarações de Arthur Schindelar com acusações a Oswald de Andrade como sendo o articulador da “fuga” de Carmen Lydia. Segundo Arthur Schindelar, Oswald insistia em casar com Carmen Lydia,o que lhe foi negado em razão da grande diferença de idade, por ela ser menor e por estar casado com uma francesa de nome Kamiá, com quem, em 1914, teve seu primeiro filho. Oswald, em juízo e pelos jornais, negou as acusações, dizendo que observava os maus tratos sofridos por Carmen e que, inclusive, aconselhara o casal Schindelar a não expôr Carmen em trajes tão imorais, como o maiô para a prática da natação.

Por dias os jornais traziam notas com depoimentos de testemunhas dos dois lados da história. Umas defendiam o casal Schindelar moradores da pensão onde moravam no Rio de Janeiro e outras defendiam Oswald, como amigos jornalistas e poetas e outras pessoas das classes mais abastadas da capital paulistana. Defesa e acusação ofereciam material para o jornal e para o público. E eu, daqui de mais de um século depois, tentei me colocar no lugar da Carmen Lydia. Não como a Luciane de seus quase cinquenta anos, mas como a Luciane adolescente da década de 1980. Tentar fazer essa dupla viagem no tempo e tentar compreender as circunstâncias a que somos expostas em vários momentos da vida como mulher, só aumentou meu interesse pelo desfecho da história de Carmen e sublinhar a importância dos movimentos de mulheres contra a violência.

Seguem mais alguns dias dos primeiros meses de 1917 nos jornais. O jornal A Época traz, em sua edição de 13 de fevereiro, depoimento de Rosa Schindelar, apresentando cartas enviadas por Oswald, nas quais tentava obter de Carmen, em declaração assinada, autorização para que fosse seu diretor artístico. Havia, inclusive, turnê marcada para apresentações na Argentina e no Uruguai, organizadas por Oswald. Insiro a seguir recorte da matéria e seu inteiro teor pode ser lido aqui.

[…] Mas não. Tudo era uma trama. Carmen continua explorada. Conseguiu livrar-se da tutela da avó para cahir nas cadeias de braços mais fortes – daquelle que primeiro despertou em seu coração o anseio desse abandono feminino, que é a attracção do amor.

D.Rosa levou hontem ao conhecimento do Sr. Juíz da 2ª vara de orphãos, como instrucção de uma petição redigida pelo Dr. Astolpho Rezende, uma larga documentação que põe em foco as intenções do jornalista paulista Oswaldo de Andrade sobre o futuro de Carmen Lydia.

É o novo capitulo de sua novella.

Oswaldo de Andrade pedira a mão de Carmen Lydia quando ella tinha pouco mais de 10 annos. Uma creança!! O pedido foi, e nem podia deixar de ser, repellido. Mas Oswaldo continuou a persegui-la. Durou o assedio cinco annos. Era como uma paixão dominadora a pertinancia de Oswaldo em torno da menina, que se fazia moça, como um botão de flor que desabrocha e abre.

Mas esse amor, assim intenso e assim persistente, um dia revelou seu intuito mercantil. O moço apaixonado tramava assim a posse da pequena… Em uma carta dirigida de Paris para D. Rosa Schindelar, que se achava em Milão, Oswaldo confessa que “é mesmo por ella (Carmen) se dedicar à dança e à música que lhe quer tanto bem.”.

E, ao lado da idea de ser amante da pequena de cabelos fulvos, como filões d’ouro ao sol, que dança a graça primaveril de seu corpo cor de rosa-chá, desvenda-se a ganância do empresario. Sinão, vejamos. Carmen chegou mesmo a assignar a seguinte declaração, que é bem uma especie de contrato: “Declaro que acceito a direção artistica do Sr. Oswaldo de Andrade para a execução de minha primeira ‘tournée’, que se deve realizar este anno, nos melhores theatros do Brazil  e, si for possivel e conveniente, nos da Republica da Argentina e de outros paizes da America. Para isso, proponho-me: 1º sujeitar-me aos ensaios necessarios que elle marcar; 2º aceitar a organisação dos programmas que elle fizer; 3º cumprir os contratos que elle tiver combinado.”

Ou, mais claro ainda, em outra carta: “E, como é impossivel voltar a Europa e difficil ir aos Estados Unidos durante a guerra, eu tinha idea de fazer você se preparar com muita reserva, para uma ‘tournée’ definitiva que rendesse… dinheiro e celebridade. Para isso é preciso absoluto accôrdo entre nós e muita paciência, devendo você se convencer de que as pressas só servem para forjar desastres.”

E foi Oswaldo quem attrahiu Carmen para São Paulo. Foi elle quem preparou ali, o escândalo. Instruiu a pequena. Insinuou-se na sua vontade. Carmen declarou então que era explorada por sua avó e pelo marido desta, que viviam à sua custa. A essa accusação juntou outras, fez-se um rapido inquerito judiciario e o juíz de São Paulo proferiu sentença, destituindo Rosa Schindelar da tutela legal e nomeando tutor de Carmen um poeta residente em S.Paulo e intimo amigo de Oswaldo de Andrade.

Para isso o juiz considerou São Paulo como domicílio da menor, o que vae de encontra ás disposições da lei.

A petição termina por pedir ao juiz que requisitou do juiz de orphãos de São Paulo, a presença de Carmen Lydia nesta capital e se solicite immediatamente da policia paulista, o exame medico legal, para verificar si a menor foi o não desvirginada.

O caso, pois, promette um largo escandalo.

Triste sina a da pequena nadadora-bailarina! Foge dos maos tratos da avó, que a queria explorar, para rolar aos braços de um futuro amante, que a faria continuar a vida como d’antes…

Segue o caso por mais algumas edições impressas com Oswald de Andrade se defendendo não só no âmbito judiciário como também em respostas ao Jornal O Imparcial, com a avó desdizendo o que disse, com Carmen abrigada no internato Sant’Anna até a decisão final do juíz, que declarou Amadeu Amaral (o íntimo amigo de Oswald citado na matéria) como tutor de Carmen Lydia.

Vasculhei os anos de 1918 e 1919 desesperada por notícias de Carmen. Nada encontrei. A sensação era de um final no ostracismo. A vida artística ou esportiva tão prodigiosa jogada na lata do lixo. “Por que raios as pessoas tendem a destruir a vida de outras, sem nenhum respeito, conduzidos, única e exclusivamente para seus mais funestos desejos?” Foram semanas com essa sensação mais a curiosidade, aquela que não me larga. Outros compromissos me impediam de seguir cotidianamente na busca por mais informações até que adentrei os anos 1920. Encontro – não sem expressar uma felicidade sem motivo – foto do casamento de Carmen com Damaso. A revista A Cigarra imprime foto dos noivos e outra com os padrinhos e madrinhas. 

Carmen e Damaso para A Cigarra, jun. 1920. Foto: Reprodução.

Noivos, padrinhos e madrinhas. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E era isso? A agora Sra. Maria Carmen Brandão, esposa do proprietário do famoso Café dos Andes da Rua XV de Novembro, abdicou de fato de toda a construção esportiva e artística a que se dedicara? Uma jovem que ousou usar roupa adequada para a prática esportiva em pleno 1915 e que desempenhava um balé tão absolutamente estético e promissor desistia de seu protagonismo de corpo e alma para ser a senhora de alguém?

E, de fato, publicamente Carmen Lydia não existia mais. Era a esposa de Damaso de Souza Brandão, homem de negócios e de família produtora de café. Não aparece no radar pelos próximos quase vinte anos.

Mas, de posse de seu nome de casada, parto para mais buscas. E encontro em 1948, mais especificamente na edição do dia 7 de dezembro do Jornal de Notícias (SP), nota com foto sobre a comemoração dos dez anos do Original Ballet Mímica Infantil e Juvenil.

A sra. Maria Carmen Brandão com suas alunas do Original Ballet Mímica Infantil e Juvenil, dez. 1948. Foto: Reprodução.

Ao dom não se nega espaço. Carmen seguia. E trabalhava com crianças! Oxalá é mais! Raríssimas eram suas aparições em fotos, sendo citada, quase sempre em notas sobre apresentações artísticas em São Paulo, onde constava como diretora e coreógrafa.

Alunos de Maria Carmen Brandão em apresentação. Foto: Reprodução/Revista Rio, jun. 1949.

Carmen, ao centro. Correio Paulistano. Ago, 1955

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em agosto de 1955, o Correio Paulistano traz nota com foto sobre a nova empreitada de Carmen: o Teatro Permanente do Ballet. Carmen avançava na construção de uma nova geração de bailarinas e bailarinos.

Em setembro do mesmo ano, é protagonista de matéria para o Correio Paulistano onde conta o trabalho com o balé e as dificuldades para manter o Teatro Permanente de Ballet. A matéria na íntegra pode ser lida aqui.

Anuncio da Escola de Ballet, Correio Paulistano, jan. 1958. Foto: Reprodução.

Nos anos 1960, o que se encontra de Carmen, são menções como formadora de nomes importantes do balé brasileiro, como Joshey Leão e Norma Masella. Que se tornaram grandes nomes artísticos. É só dar um ‘Google’ que é possível conhecer a história de Joshey Leão. 

Avanço sobre as décadas seguintes e não obtenho sucesso na pesquisa. Maria Carmen Brandão não se encontra onde meus braços, mente, corpo e espírito alcançam. O que encontro, entretanto, são informações sobre a data de seu falecimento e outros detalhes mais pessoais. E para coroar este meu enlace fraterno com a figura da mulher que percorreu o século XX entre o esporte e a arte, entre a exposição e a exploração, entre o anonimato da figura da esposa e a formação de figuras importantes da nossa classe artística, fecho meu ciclo ouvindo Carmen. Por ocasião do centenário de Oswald de Andrade, o MIS – Museu da Imagem e do Som – registrou sua história oral.

Maria Carmen Brandão em foto para o Correio Paulistano, set. 1955. Foto: Reprodução.

Aqui e aqui a primeira e segunda parte do registro do MIS com Maria Carmen Lidia Brandão em 14 de dezembro de 1990, dois anos antes de seu falecimento.

Que não se olvide da emoção. Neste particular, acompanhar o desenrolar da história de uma vida com tantas nuances (coisa tão nossa, tão humana) e com tantos predicados esportivos e artísticos me trouxe uma nova experiência: a de sentir a história. Sou uma curiosa metida a pesquisadora, sem metodologia, sem formação específica na área, mas alguém que nasceu e vive entre um século e outro e que tem gosto profundo por ouvir e ler.

Por trás de cada um de nós, existem marcas indeléveis de alegrias, tristezas, realizações e frustrações. Avançar, apesar de tudo, é constituinte do nosso cerne. Com Helen Carmen Kosbab ou Landa Kosbab ou Carmen Lydia e, finalmente, com Maria Carmen Brandão, o aspecto da trajetória passa do ordinário para o especial, para o digno de nota de exaltação. No rastro de sua história, duas grandes guerras, mudanças no aspecto cultural do país e a eterna cultura do machismo, para o que Carmen, ainda que não se desse conta, deu de ombros e fortaleceu, e CERTAMENTE inspirou muitas mulheres.

Que este registro não seja apenas o foco de uma curiosidade. Que seja ele, mesmo longe de ser acadêmico, o resgate para que se dê a devida importância aos feitos de Carmen Lydia para além, MUITO além, de Oswald de Andrade. Carmen construiu sua própria história e merece, como bem sugeriu Joanna Burigo, um Doodle bem lindo!


Como citar

CASTRO, Luciane de. Carmen Lydia: impressões de uma história de esportes, artes e resistência através do século XX. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 16, 2020.