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Carta aberta aos corpos que se mexem

Gabriela Seta Alvarenga

Fred Astaire. Foto: 7Wallpapers

Sempre gostei de dança. Na verdade mesmo, sempre gostei de futebol. A dança veio logo em seguida e foi arrebatadora, ocupou todo o espaço e quando percebi era uma pessoa que dançava e, além disso, torcia para a Ponte Preta, meu time de futebol. 

No momento em que soube que ia escrever aqui neste site fiquei pensando: Como eu vou falar de dança em um lugar que majoritariamente as pessoas falam de futebol? Ainda mais esta dança que danço que é o Popping, com seus movimentos plásticos e fragmentados, e que quase ninguém conhece? Dança em que a técnica prevalece sobre o corpo, mas que sem o “talento”, essa inteligência corporal, nada acontece. Fiquei constantemente pensando sobre isso, o que me levou a questionar o que acontece quando o futebol e a dança se encontram.

Em um jogo de futebol assistido pela TV é muito comum que o narrador descreva os passos dos jogadores até chegar o momento do gol, ou até a finalização do lance. Essa narrativa de passos do corpo só aconteceu comigo, na dança, quando soube mais ou menos o que era aquilo que estava vendo ou dançando. Será que é possível imaginar? Passa o braço para cima, desliza os pés na mesma velocidade que a cabeça, o tronco e o quadril deslocam para a diagonal, o corpo rotaciona quarenta e cinco graus, o bailarino finaliza seu movimento. 

É certo que nem na dança, nem no futebol exista de fato um modus operandi para ter sucesso em suas performances. Mesmo que os treinos e a disciplina somem muito para o rendimentos destes artistas, é na hora de mostrar sua ginga em campo, nos palcos ou nas batalhas que o drible do corpo se sobrepõe ao ato do jogador e nos faz ver a mágica que forma sua composição de movimentos. O jogador na tentativa de enganar seu adversário passa o pé por cima da bola, de fora para dentro, em uma direção que ele não deseja seguir. O rival ludibriado pelo artista segue para esse lado, e o jogador segue livre para dentro da área. Quanta maestria nesse passe, que bela pedalada! 

Na dança esses movimentos não são muito diferentes. Trabalhar bem com os pés não é uma exclusividade do futebol. Lá vai ele… Com o pé esquerdo à frente do direito, eleva a parte de trás do pé direito. Deslizando a canhota para trás, apoiando o peso do corpo na ponta da destra! Que paaasse! Agora ele troca os pés e passa o apoio do corpo para a ponta da esquerda! Desliza repetindo toda a coreografia. O jogador fez o backside dele! Michael Jackson é o nome dele, popularizando esse passo como ‘moonwalk’!

Moonwalk. Foto: Reprodução Facebook

Chutar a bola, fazer uma bicicleta são movimentações do futebol, e se observarmos atentamente cada segundo do lance, há ali puramente dança. Na verdade, são corpos capazes de produzir experimentações visuais que nem eu, nem você, nem o narrador ou o jurado estávamos esperando. Essa leveza de malemolência que carrega a bola por todo o espaço do campo e que cria metáforas figurativas com o corpo dá ao movimento a excitação que estamos vendo. Seja em uma batalha ou em um jogo, quem assiste a essas jogadas plásticas se excita, se emociona, vibra com o imprevisível que aquele drible de corpo pode fazer. 

No documentário brasileiro de Marcelo Masagão, Nós que aqui Estamos por Vós aqui Esperamos (1998), há uma cena em que Fred Astaire, um dos dançarinos mais famosos do século XX, e Mané Garrincha, o lendário jogador brasileiro de futebol, aparecem em imagens sobrepostas, como uma colagem. O diretor brinca com a sutileza do futebol e da dança, no que entendemos por esporte e arte, técnica e virtuosismo. Astaire dança com um cabideiro, e parece empolgado por ele, assim como Garrincha com a bola e seus adversários, que zonzos com os seus dribles, formam uma enorme coreografia. O jogo, por fim, com toda sua elasticidade, corporeidade, ginga e habilidade de drible e controle nem parece uma dança ou um futebol, para quem o observa. Parece mais um encantamento do olhar, uma euforia de otimismo e tranquilidade, um espetáculo de boas sensações.

Se pararmos para observar com mais cuidado, os movimentos ali dos atletas em campo, sem a bola, são visivelmente dança. E se colocarmos essa esfera nos pés dos dançarinos em sintonia entre bola e corpo, transformam uma coreografia num jogo. Sem querer, o goleiro defende uma bola alta e se transforma em um bailarino de ballet clássico. Espontaneamente, um bboy faz um footwork, que se olhado por um admirador de futebol, vira um drible. Tudo é possível na arte do corpo, basta entender o referencial que essas práticas se cruzam. Em uma piscada, nada pode tudo, e o que era para ser um gol, ou um passo de dança, vira, na verdade, um corpo que se mexe. 

Fotos: Equipe Cultura / Reprodução SporTV / Divulgação NSC Total

Por fim, futebol e dança tem tudo a ver. É sobre se apaixonar pelo nunca visto, pelo passe ou movimento que, ao ser anunciado já se desfaz, que possibilita nossa experiência em direção ao improviso, que brinca com o lúdico e fantasioso nos dando motivo para gritar Gol! e aplaudir muitas vezes! De vez em quando, até com os olhos marejados… 

Para quem se interessar em ver a linda cena do documentário mencionado:


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

ALVARENGA, Gabriela Seta. Carta aberta aos corpos que se mexem. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 40, 2020.