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Carta de uma torcedora

Leda Costa

Caro futebol,

Que bom saber que ainda está vivo. Afinal, você correu sério risco de falecimento.

Como se fosse um gol, estou aqui comemorando o rompimento do contrato entre Santos e Robinho.

Confesso que aquela contratação foi um dos fatos mais chocantes ocorrido nos últimos tempos e que abalou, mais uma vez, a relação de forte amizade que mantenho com o mundo da bola.

O jogador acusado e condenado em primeira instância pela justiça italiana por participar de um estupro coletivo chegou perto de poder, novamente, vestir a camisa que já foi de tantos nomes importantes. Uma camisa que já foi vestida por Marta, uma das maiores atletas do futebol mundial.

Alguém pode dizer: “mas a condenação de Robinho foi em primeira instância, ainda faltam outras, por enquanto ele é inocente”. Eu chamaria esse argumento de cínico. Ele não costuma ser evocado em qualquer situação.

Vejamos. 40% da população carcerária no Brasil é formada por presos que ainda não foram definitivamente condenados. Essa parcela, aliás, em sua maioria é acusada de crimes considerados leves. E são poucas as vozes que saem dizendo “essas pessoas são inocentes até que se prove o contrário” como afirmou o advogado de Robinho e o presidente do Santos ao tentar justificar a contratação do jogador.

Esse tipo de alegação se enfraquece imensamente após tomarmos conhecimento de alguns detalhes da condenação em primeira instância do jogador. Havia provas vigorosas contra Robinho. Provas que me provocaram profundo nojo e revolta.

O crime de Robinho foi hediondo.

A sua contratação foi derivada do descaso com a violência contra as mulheres. É como se o futebol nos dissesse: pode agredir ou mesmo matar mulheres (vide o caso Bruno), pois nossas portas sempre estarão abertas. Portas que conduzem a um território de alta visibilidade e no caso do Santos – como outros clubes de primeira divisão – a grandes salários e premiações.

Felizmente a contratação de Robinho foi desfeita, em grande medida, por pressão dos patrocinadores e das diversas vozes que se levantaram contra aquilo que seria um dos capítulos mais tristes da história do Santos e do futebol brasileiro.

Embora exista entre nós e nossos clubes um sentimento de amizade único, é preciso não esquecermos que eles são comandados por pessoas. Pessoas que frequentemente não nos representam, que lutam por interesses próprios, que sucateiam nossos clubes até fragilizá-los de tal modo que se torna difícil recuperá-los depois.

Torço pelo Vasco da Gama e sei bem o que é isso.

E ademais sou mulher.

Torcedoras juventinas. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo

No caso específico de nós mulheres é válido dizer que tínhamos  – e ainda temos – muitos motivos para desprezarmos o futebol, detestá-lo do fundo do coração. Isso porque esse esporte tem sido historicamente usado como um dos mais participativos agentes que alimentam diversos preconceitos que sofremos diariamente.

Para nós, os estádios raramente se construíram como uma ilha de refúgio do cotidiano. Ao contrário, as arquibancadas frequentemente se apresentaram como locais hostis à nossa presença. Lá ainda costumamos sentir medo do assédio, da violência física e verbal. Por isso, de fato, ir aos estádios não está no topo do nosso cardápio de lazer. Nossas vozes são pouco ouvidas, frequentemente menosprezadas e mesmo desconsideradas.

Torcendo pela televisão, tivemos que conviver durante anos a fio com mesas redondas formadas somente por homens. E o critério que os fazia estar ocupando a posição de especialistas não era a competência. Porque se pelo menos os debates esportivos tivessem qualidade de análise e informação, haveria algum consolo. Mas nem com isso podíamos contar.

O fato de ser mulher, ao contrário, foi elemento que criou diversos empecilhos para que participássemos de modo mais amplo do jornalismo esportivo, um local fundamental de produção de sentidos no futebol. Na verdade, o simples fato de ser mulher limitou em diversos níveis nossa participação no universo futebolístico de um modo geral.

Eu não tenho dúvida de que cansamos disso tudo. Nos organizamos em coletivos torcedores, manifestamos mais nossa opinião e reivindicamos igualdade. Esse fenômeno me parece evidente e fértil a um futebol que agonizava mergulhado no machismo.

Muitos clubes entenderam essa demanda e se esforçaram para participar de um amplo movimento de desintoxicação. É preciso desintoxicar o futebol do machismo. Processo longo, mas que parecia estar ganhando importantes aliados.  Diversos clubes se empenharam em campanhas contra o assédio, contra a homofobia, enfim ações que visavam tornar o futebol um ambiente mais acolhedor e democrático.

Muitas de nós torcedoras agradecemos. Mas devemos nos manter indignadas e vigilantes. Somos torcedoras, amamos nossos clubes e é fundamental que sejamos representadas de fato e não somente levadas em consideração como uma simples jogada de marketing.

Suportamos muitos obstáculos.

Assim agimos porque torcer é uma experiência incrível. Como torcedoras morremos um pouco a cada derrota de nossos times de coração. Mas também conseguimos experimentar o sentido da vida, toda vez que comemoramos um gol.

Sobrevivemos porque ser torcedora é parte constitutiva do nosso ser. E porque sempre soubemos que o futebol pode mudar.

Ser torcedora é, também, um ato de resistência. É, também, um ato político por intermédio do qual expressamos a vontade de transformar a realidade.

E se existe uma realidade que precisa ser modificada é aquela que coloca o Brasil dentre os países onde mais se agride e se mata mulheres.

Os clubes de futebol, o esporte mais popular do país, não podem ser indiferentes a essa luta.

Podemos derrubar as estátuas de nossos opressores, mas melhor mesmo é sequer permitir que elas sejam erguidas.

Caro futebol, assim termino este desabafo em forma de carta.


Como citar

COSTA, Leda. Carta de uma torcedora. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 46, 2020.