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Caso Lisa Olson e o Futebol Americano

Wagner Xavier de Camargo
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Bola de futebol americano. Foto: Cristiano Gatti (CC BY-NC-ND).

Em meados de fevereiro de 2017, fãs ou não de futebol americano, ficaram surpresos com a conquista da Super Bowl (jogo que define o time campeão da temporada anual) pelo New England Patriots. Com o jogo quase perdido e placar de 28 a 03 a favor do adversário, o time arrastou o jogo para um empate e, num lance inusitado levou-o à prorrogação, da qual saiu vencedor por 34 a 28 contra o Atlanta Falcons. O feito foi inédito e, como o próprio narrador da ESPN disse, “inacreditável”! Nós, como brasileiros, igualmente nos regozijamos ao ver flashes de Gisele Bündchen aos gritos, na torcida pelo marido Tom Brady, quarterback e um dos principais jogadores da equipe. O que poucos sabem, no entanto, é que por detrás das conquistas brilhantes do New England Patriots, dos cinco troféus do Super Bowl e de uma campanha exitosa desde os anos 2000, há uma história oculta, que não aparece no site do clube, nem em blogs sobre ele: a história de Lisa Olson.

Lisa era jornalista esportiva num tempo em que mulheres não tinham muito espaço e reconhecimento no mundo dos esportes profissionais nos Estados Unidos. Ela trabalhava para o The Boston Herald (jornal de grande circulação na cidade de Boston e arredores, fundado em fins do século XIX) e construiu sua reputação conseguindo bons e inusitados furos de reportagem, apesar de sempre desdenhada pelos colegas de profissão. Discutia-se no país à época (anos 1980), o acesso e a livre circulação de mulheres em espaços considerados “exclusivamente masculinos”, como os vestiários esportivos. Tal assunto virou debate judicial e se conta que a própria NFL (National Football League ou a Liga Norte-americana de Futebol) chegou a conceder “acesso igualitário” a homens e mulheres – particularmente profissionais como jornalistas, massagistas, e afins – nos locais considerados exclusivos, como os vestiários masculinos.

A pretensão da jornalista, naquele fatídico setembro de 1990, era entrevistar alguns jogadores do Patriots, num dia comum de treino, dentro do “espaço sagrado” do vestiário masculino. Apesar de algumas reclamações pontuais, Lisa transitava pelos locais, falando com alguns membros da equipe, inclusive na presença de outros profissionais, como o manager e o representante das relações públicas do time.

De repente, tomada como atitude invasiva por parte de alguns atletas, o comportamento investigativo de Lisa provocou reações adversas e não esperadas. Queriam saber o que ela procurava lá, quais eram suas intenções e por que estava a entrevistar jogadores dentro do vestiário. Lisa, então, foi assediada verbalmente por Zeke Mowatt, que balançou seu pênis e o ofereceu a ela, e por Robert Perryman, que fez o mesmo no momento seguinte, enquanto ela se virava de costas, indignada. Relata-se que Michael Timpson gargalhava jocosamente diante do que via, assim como outros faziam algo semelhante. Com adeptos do assédio mais exaltados ou outros mais tímidos, a jornalista virou chacota de um time inteiro.

Após uma investigação que provou que ela havia sofrido humilhações e realmente passado por uma situação degradante, o clube foi punido com multa de US$ 50 mil e os atletas também, porém com valores menores. Tal caso repercutiu negativamente para Lisa, que recebeu xingamentos verbais de torcedores do Patriots, além de ser ameaçada de morte e ter o apartamento invadido e furtado.

A violência a que foi exposta enquanto pessoa e profissional provocaram sua transferência para a Austrália a fim de trabalhar em duas sucursais do jornal americano, o The Daily Telegraph e o Sydney Morning Herald. De lá moveu uma ação judicial por danos morais contra o Patriots de US$ 250 mil. Retornou oito anos mais tarde para os EUA e ainda sofreu perseguição de torcedores, obcecados com o ocorrido.

Vestiário. Foto: Michael B. Stuart (CC BY-NC-SA).

O caso Lisa Olson deflagra privilégios instituídos por homens nos esportes e a falácia de uma masculinidade viril, que não afeta apenas o futebol americano, mas também outras modalidades. Tal masculinidade insiste em ser hegemônica, dominante e opressora, que reconhece como “sujeitos de direito” às práticas e aos espaços esportivos apenas os corpos masculinos de “homens reais”. Mulheres heterossexuais, lésbicas, corpos em transitividade de gênero são menosprezados, impedidos de circular nos espaços privilegiados do masculino, sendo a eles destinados o abuso, o assédio, a agressão.

Lisa não foi a única profissional estadunidense no ramo dos esportes a passar por isso. Jennifer Frey, jornalista do Washington Post, sofreu algo similar anos mais tarde com uma equipe de beisebol. Porém, o caso Olson expõe duas questões fundamentais àqueles que se preocupam com os debates acerca das relações de gênero nos ambientes esportivos (profissionais ou amadores): de um lado, há bases machistas e misóginas sobre as quais os comportamentos são instituídos e validados, e de outro (e em consequência disso), hierarquia e desigualdade de gênero são instaladas a partir dos discursos do senso comum. Com essas questões de fundo e tendo em consideração que o esporte é uma das maiores instituições segregadoras de gênero das sociedades contemporâneas em prol da “igualdade de chances”, temos que, em se tratando de mulheres atletas, elas são muitas vezes, desqualificadas, inferiorizadas e não respeitadas enquanto sujeitos esportivos.

De meu ponto de vista, há algo além a ser considerado. E o problema não está, em definitivo, somente no futebol americano. De uma parte, há uma constante generificação dos espaços nos esportes como “masculinos” – por exemplo, instalações esportivas em que só têm um vestiário, em geral, esse é tomado como “masculino” e, muitas vezes, inexiste o vestiário feminino – e, de outra, por extensão, há uma sacralização do vestiário masculino, legitimando-o como local de reunião, concentração, preces e falação de atletas homens! Nem assistentes técnicas, massagistas ou fisioterapeutas mulheres têm voz ou vez nesses lugares. Qualquer invasão desse espaço por corpos outros macula uma quase “lei” fundamental de proeminência do masculino. Foi isso que Lisa fez, em função da profissão e da ousadia jornalística. O que ela se esqueceu de considerar, entretanto, foram os códigos (sexuais) aí incrustados; códigos perniciosos, que são levados ao extremo por atletas homens heterossexuais, que sexualizam ao bel prazer alguns corpos e deslegitimam outros.