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Cenários para 2018: o legado da desilusão e o reencantamento do futebol

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Dois mil e dezoito será um ano com definições importantes para o futebol brasileiro. A primeira delas, mais evidente, é a nova edição da Copa do Mundo de futebol profissional, organizada pela Fifa, a ser realizada nos meses de junho e julho na Rússia. O ciclo quadrienal do megaevento esportivo mais difundido do planeta se reinstaura e será inevitável aos brasileiros repisar os acontecimentos do último Mundial. Como se sabe, a Copa de 2014, sediada no Brasil e malograda pela seleção, teve resultado tão vexaminoso quanto risível nas semifinais da competição, motivo de escárnio mundo afora e de parte de sua própria população.

A esperança de conquista do hexacampeonato, com a eventual expiação do vexame na Copa de 2014, volta a se projetar. Sob o comando de um novo treinador, vitorioso em seu clube de origem e equilibrado na lida com os jogadores e com a imprensa, a equipe nacional deu mostras em 2017 da retomada de um futebol convincente, sólido em seu conjunto e hábil em sua performance individual, característica esta mais associada à sua imagem, dentro e fora do país.

A desconfiança ainda reinava no início das Eliminatórias, com uma sequência de desempenhos medíocres e com resultados negativos que pareciam colocar em risco a classificação para a Copa de 2018. Quando Tite chega à testa da comissão técnica, esse cenário assiste a uma inflexão. Em meio a vitórias sucessivas, a seleção acaba por se classificar com facilidade ao Mundial da Rússia e credencia seu habitual favoritismo para o torneio internacional do ano que vem.

O acento sobre a figura do treinador atual não é uma forma de cultuar o personalismo ou a genialidade. Ao contrário, trata-se de um modo de salientar a importância do planejamento, da preparação, da estratégia, da experiência e dos aspectos técnico-táticos que a organização de um selecionado requer. Um ajuntado de jogadores talentosos por si só não configura um time. É preciso corpo, alma e certa dose de reencantamento com a “camisa amarela”.

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Tite conseguiu implantar um padrão de jogo na seleção brasileira. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

À MANEIRA DO QUE VEM OCORRENDO NA POLÍTICA NACIONAL COMO UM TODO, PERSONAGENS QUE HÁ DÉCADAS OCUPAM AS CÚPULAS DIRIGENTES DAS ENTIDADES ESPORTIVAS PASSAM A SER PUNIDOS E A SOFRER AS CONSEQUÊNCIAS DE SUAS PRÁTICAS TRADICIONAIS

Outro elemento decisivo para o futebol brasileiro em 2018 diz respeito à renovação de sua estrutura organizacional. Está em questão a necessidade de uma mudança radical de parcela significativa da elite dirigente que compõe as federações estaduais de futebol e, em especial, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Já se disse que a CBF é uma entidade privada, o que tornaria impróprias as cobranças externas e as prestações de contas do tipo estatal ou governamental. Sua natureza jurídica não a exime, no entanto, de compromisso público e de responsabilidade social, porquanto representa parte expressiva do sentimento coletivo e identitário nacional, construído historicamente ao longo de gerações.

É bem verdade que esses questionamentos foram deflagrados em âmbito internacional e tiveram impacto, por assim dizer, de fora para dentro do país. Em 2015, as investigações do FBI (Federal Bureau Investigation) contra os procedimentos da Fifa na manutenção de seu poderio global e na maximização de seus lucros tornaram-se públicas. Desde então, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tem revelado os subterfúgios da corrupção na entidade suíça, colocando no banco dos réus dirigentes de alto escalão e prendendo diversos representantes das confederações continentais.

Jornalistas investigativos como o escocês Andrew Jennings e os brasileiros Jamil Chade (Estadão) e Juca Kfouri (Folha) há muito denunciavam atividades ilícitas. Entre as acusações, mencionavam-se a compra de votos no interior da instituição controladora do futebol, o benefício nos contratos com empresas de marketing esportivo e os esquemas de venda dos direitos de transmissão a grandes emissoras televisivas. Não obstante, apenas em 2015 as denúncias se concretizaram, sendo julgadas por iniciativa do órgão estadunidense. Os inquéritos têm sido céleres, com efeito no curto prazo. Eles já implicaram, por exemplo, na renúncia de Joseph Blatter, presidente da Fifa por quase duas décadas, e no afastamento de seu secretário-geral – e braço direito –, Jérôme Valcke.

As ações policiais do FBI atingiram também representantes brasileiros, com a condenação do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e com a suspensão do atual presidente, Marco Polo Del Nero, impedido de sair de seu próprio país. Durante o ano de 2017, a Polícia Federal brasileira, na esteira da operação Lava Jato, passou a mirar um rol de políticos e dirigentes esportivos, a exemplo do ex-presidente do COB – Comitê Olímpico Brasileiro –, Arthur Nuzman. Este, em conexão com instâncias de poder federal, estadual e municipal, é acusado de abusos cometidos na organização dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

O presidente da CBF José Maria Marin(E ) e Marco Polo del Nero oncedem entrevista coletiva na sede da entidade na Barra da Tijuca, 17 de Julho de 2014. Bruno Domingos / Mowa Press

José Maria Marin e Marco Polo del Nero. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

À maneira do que vem ocorrendo na política nacional como um todo, personagens que há décadas ocupam as cúpulas dirigentes das entidades esportivas passam a ser punidos e a sofrer as consequências de suas práticas tradicionais. De igual modo, assim como a reciclagem na política nacional, a efetiva mudança da estrutura desportiva continua a ser uma incógnita para 2018. Ainda não se sabe o grau de resiliência das instituições e dos atores incumbidos da gestão do futebol e dos esportes brasileiros. Também se desconhece até que ponto as denúncias terão continuidade e existem dúvidas, mesmo com o apoio da opinião pública, quanto à real capacidade de modificação do modo de governança nos esportes, que não incorra nem no patrimonialismo, enraizado na cultura política nacional, nem na miragem do receituário neoliberal que vem de fora.

Em âmbito clubístico, o panorama é pouco alvissareiro para 2018. A maioria dos clubes de futebol brasileiro padece de problemas estruturais de gestão, característica que tende a se repetir no próximo ano. Tal ordem de dificuldades administrativas refere-se não apenas a critérios externos de modernização. Estes são via de regra associados à ótica weberiana da defasagem, do atraso e da inferioridade, conforme salienta o sociólogo Jessé Souza. Em termos esportivos, isto se traduz na incapacidade de adequação ao modelo do futebol europeu, na precariedade da montagem de um calendário e na impossibilidade de racionalização das suas formas de administração interna.

Uma elite de clubes brasileiros vem tentando conformar-se a padrões empresariais de seus congêneres na Europa, com investimentos vultosos, com agregação de valor à sua marca e com projeção internacional, a exemplo de clubes como Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Cruzeiro e Grêmio. Destes, o Corinthians apresenta paradoxos interessantes, uma vez que vem constituindo uma hegemonia futebolística em campo, com uma sequência de títulos nacionais e internacionais – desde o título mundial de clubes no Japão em 2012, contra o poderoso londrino Chelsea, até o heptacampeonato do Brasileirão 2017 –, mas ainda amarga uma dívida estratosférica, fruto da megalomania de construir, sob iniciativa de sua política interna clubística e com o beneplácito do governo federal, um estádio de mármore em plena e pobre periferia paulistana. Time do povo, estádio da elite.

Segundo o historiador Hilário Franco Jr., pelas contradições que encerra o Corinthians é uma espécie de “retrato do Brasil” contemporâneo. Nesse sentido, país e clubes de futebol continuarão em 2018 a lidar com as desilusões de um prometido legado – esportivo, social, econômico – que não veio com os megaeventos esportivos e que pode ser resumido na máxima da Fifa: “lucros privados, prejuízos públicos”.

Por fim, o principal desafio que o futebol brasileiro enfrentará em 2018, a meu juízo, relaciona-se à temática da violência nos estádios. Ao contrário do que se esperava, a conversão dos estádios públicos em arenas privadas não modificou o comportamento dos (sócio)torcedores. Dentro e fora das praças de esporte, campearam em 2017 cenas de completo despreparo policial, incapazes de conter a radicalização, a premeditação e a sistematicidade dos confrontos inter-torcidas.

A responsabilidade está longe de ser apenas da Polícia Militar: falta comprometimento e planejamento às federações, à CBF e aos clubes, entes responsáveis pela organização das partidas e dos torneios. Em meio à onda conservadora por que passa o país, apenas a repressão, a criminalização e a proibição das torcidas organizadas – associações com mais de 75 anos de existência no Brasil – são aventadas como solução. Cortina de fumaça, bode expiatório, trata-se de paliativo superficial, momentâneo, iníquo. Seu maior exemplo é a pífia medida da “torcida única”, que impera há dois anos nos estádios da cidade de São Paulo, espécie de derrota da cidadania e de vitória da intolerância no futebol.

Para o ano que principia, é preciso com urgência formular políticas públicas preventivas, aptas a delinear formas permanentes de reflexão e de ação coordenadas, capazes de arbitrar e de minorar conflitos sociais que explodem nas canchas futebolísticas, reflexo de uma sociedade em anomia, esgarçada moralmente, de alto a baixo. Em 2018, o delineamento de uma efetiva política nacional de prevenção à violência no futebol seria um “legado” maior que a conquista do hexacampeonato na Rússia.

nexo_jornal_logoEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.