98.8

Centenário e cinquentenário do Derby Paulista

Plínio Labriola Negreiros

No distante 1981, na redação do vestibular da Fuvest, os candidatos a uma vaga na USP foram desafiados a escrever sobre uma memória de infância que tivesse contribuído para escolha do curso e/ou carreira pretendidos. A referência para a tarefa era um excerto da obra de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, num capítulo denominado O menino é pai do homem. Eu concorria para a FFLCH-USP, História em primeira opção; a outra era Ciências Sociais. Não pensei muito no evento que escolheria: a minha primeira vez em um jogo de futebol.

Não me lembro, com detalhes, dos argumentos que utilizei para relacionar a escolha pela área de Humanidades com uma lembrança muito viva. Talvez tenha explicitado que naquela provável tarde de novembro de 1967, com cinco anos, eu estava na arquibancada do estádio municipal Paulo Machado de Carvalho, o estádio do Pacaembu, levado pelo meu pai, para assistir a um Corinthians e Palmeiras. Sentamos, acredito, na arquibancada que fica ao lado das numeradas, próximo à saudosa Concha Acústica, tristemente substituída pelo Tobogã no início dos anos 1970 (episódio dos tempos autoritários…). Duas situações tomaram a minha atenção: a torcida corinthiana em número bem superior a do adversário e o momento no qual o Corinthians entrou em campo: a equipe trajava camisas e meias brancas e calções pretos.

Na lógica dos meus poucos anos de vida, a vitória naquela partida deveria recair sobre a equipe que levou mais torcedores ao estádio. Entendia, de alguma forma, que o júbilo deveria se destinar à maioria. E essa maioria, os corinthianos, eram, em essência, homens e, muitos deles, negros. Sentia que nós, meu pai e eu, fazíamos parte daquela comunidade. Era bom estar naquele espaço. Recordo-me de perguntar ao meu pai porque o Corinthians não tinha vencido. Não me lembro da resposta.

A outra situação marcante: a emoção muito particular de ver o alvinegro entrando em campo. Era a primeira vez que reconhecia o uso de calções pretos. Eles ficaram ainda mais reluzentes diante das camisas brancas. Naqueles poucos instantes, o consubstanciar de uma paixão sem fim. Senti que era corinthiano, assim como meu pai era. E isso merece uma digressão.

Havia um dado de geração: meu pai, nascido em 1927, já vivera e comemorara muitas conquistas, tal como o tricampeonato paulista de 1937-38-39, sempre com memoráveis gols do centroavante Teleco; e mesmo o cobiçado Campeonato Paulista de 1954, no ano do IV Centenário da cidade de São Paulo. Falava dos grandes jogadores que tinha visto jogar. Gostava muito do Luizinho, do Claudio e do Baltazar. E mais: ressaltava uma característica corinthiana: era o time das viradas.

corinthians1954

Corinthians campeão do IV Centenário da cidade de São Paulo. Foto: reprodução.

Eu nasci em outra época da saga alvinegra. No ano do meu primeiro jogo no estádio, somavam-se 13 anos de “fila”. Eu não sabia disso. Demorou alguns anos para que eu descobrisse o que significava tal “fila”, assim como comecei a escutar a expressão “corinthiano sofredor”. Observava a existência de bandeiras do Corinthians, vendidas na porta dos estádios, com a frase “Campeão ou não, és minha paixão.” Confesso que esse amalgama – calções pretos e camisas e meias brancas, a maior torcida com sua ampla diversidade étnica e social, estar na “fila” e ser “sofredor” – me fez corinthiano.

Entendia que ser torcedor do Corinthians Paulista era uma ação de resistência. Achava sem sentido torcedor para quem conquistava títulos com frequência. Minha paixão, como a frase da bandeira indicava, não dependia desses títulos. Tanto que, com o fim da “fila”, temia que a paixão corinthiana sofresse grave abalo.

Outra digressão: no meu universo infantil, apesar de já conhecer muitos times de futebol, o mundo estava dividido entre torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Mal me lembro de são-paulinos ou santistas. Assim, construí uma contraposição ao Corinthians: a equipe do Parque Antártica. Para mim, uma rivalidade perene.

E no ano do centenário do Derby Paulista, fiz as contas e descobri que eu acompanho essa rivalidade há meio século. Vi vitórias e conquistas inesquecíveis contra esse rival. Sofri muito com algumas derrotas. Diverti-me com as derrotas alheias. Não era fácil encarar, na segunda-feira, os colegas de escola depois de um fiasco diante do “inimigo” na tarde anterior. Como ato de sobrevivência, criei e cultivo uma aversão àquela cor secundária, originária do azul e do amarelo.

Passado meio século, continuo presente nos estádios para ver o Corinthians jogar. E muito mudou. A começar pelo que mais me entristece: meu pai não está mais comigo; não posso retribuir as inúmeras vezes que ele levou eu e meus irmãos aos jogos (levava também meus amigos, como estes me lembram até hoje). Ao mesmo, me emociono ao ver os muitos filhos que levam seus pais velhos aos jogos. Como me deixa muito feliz ver os pais que levam seus filhos pequenos pela primeira vez.

Entristece-me, ainda, ver a elitização das arquibancadas (ainda se pode usar essa denominação?). Olho ao meu redor e vejo poucos negros. Estes resistem, bravamente, no espaço, que não deveria existir porque segrega, das torcidas organizadas; estas lutam como podem, seja com sinalizadores ou faixas cobrando punição “aos ladrões de merenda”. E permanece alucinante ver o time de calções pretos e camisas e meias brancas entrar em campo, assim como fazer parte da torcida.

Por fim, uma recorrência e uma declaração. Em qualquer partida de futebol que eu esteja, sinto-me remetido à minha primeira experiência, naquele Corinthians e Palmeiras. E a minha paixão pelo alvinegro do Parque São Jorge me fez ter gosto pela história do Corinthians e do futebol. Mas essa é outra história.