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Chape: recordações sentimentais

Alexandre Fernandez Vaz

Há quarenta e dois anos, em 30 de outubro de 1977, escutávamos pelo rádio a final do Campeonato Catarinense de futebol entre Associação Chapecoense de Futebol e Avaí Futebol Clube, que acontecia no Estádio Índio Condá, em Chapecó. A disputa permaneceu empatada até os últimos minutos do segundo tempo, quando, aos 44 minutos, a equipe anfitriã fez o gol da vitória para logo chegar ao primeiro título estadual. A dar razão a locutores e comentaristas à época, não foi só um jogo, mas uma batalha, com a torcida da Chape atuando de maneira decisiva.

O time do Avaí era muito forte, com vários jogadores que depois se destacaram no cenário nacional, como o primeiro-volante Almir, o meia-atacante Renato Sá e o ponteiro-esquerdo Lico, todos campeões brasileiros, respectivamente, por Coritiba, Grêmio e Flamengo. Lico foi ainda campeão das Copas Libertadores da América e Intercontinental, fazendo o lado esquerdo do campo com Junior e Adílio, em uma das melhores equipes de todos os tempos no Brasil. Não há quem diga, no entanto, que a equipe do Oeste não foi melhor naquela tarde de domingo.

Lico nos tempos do Avaí, em 1976. É o último jogador agachado da esquerda para a direita. Foto: Reprodução/Placar.

Criança, eu aprendera algo sobre Chapecó na escola, uma das cidades mais importantes da economia catarinense. Além disso, no velho Estádio Adolfo Konder, então pertencente ao Avaí, na região central de Florianópolis, assistiria em 1979 a uma partida entre a equipe da capital e a do Oeste pelas quartas-de-final do Campeonato Catarinense escolar, disputado por meninos de até quatorze anos. O gramado era falho, as arquibancadas desconfortáveis, a impressão que dava é que nada mudara desde os tempos em que aquele lugar era o Campo da Liga Florianopolitana de Desportos Terrestres. A área hoje é ocupada pelo Beira-mar Shopping.

A partida entre garotos foi duríssima, mas leal, e terminou com a vitória do time da casa por dois a um. As torcidas de cada lado, formadas basicamente por familiares e amigos dos jogadores, também entraram na disputa, com humoradas provocações, mas sem violência, um ingrediente a mais na festa daquela manhã de domingo. O destaque do vencedor era o meia-atacante Rodrigo Pereira, que anos depois atuou como profissional no Figueirense Futebol Clube. Meu irmão Otavio era titular na zaga.

Todas essas recordações me vieram à mente quando muitos anos depois, em 2013, eu me deslocava de casa para, com meu irmão, ir ao Estádio da Ressacada, do Avaí, para assistir a um novo enfrentamento entre Avaí e Chape, desta vez pela Série B do Brasileiro. Era doze de outubro, dia das crianças, estádio lotado, ambos ainda eram candidatos ao acesso à Série A. No entanto, apenas o clube do Oeste, com o vice-campeonato alcançado ao final da temporada, jogaria na elite no ano seguinte .

Poucas vezes presenciei uma equipe taticamente tão bem organizada como a visitante da tarde de sábado, com todos em campo sabendo exatamente o que fazer a cada momento. Os deslocamentos sem bola dos jogadores obedeciam a uma coreografia eficiente, que fez com que, em dois contra-ataques fulminantes, os gols saíssem. Gilmar Dal Pozzo, que anos antes atuara no time da Ressacada como goleiro, era o treinador da Chape, ele que neste 2019 acaba de ser campeão da Série C pelo Clube Náutico Capiberibe. O gol do Avaí foi marcado pelo o ótimo Cléber Santana, que seria, anos depois, o motor do meio-campo da Chape, até morrer naquele triste dezembro de 2016, a caminho da final da Copa Sul-americana.

Chapecoense e Avaí em partida válida pelo Campeonato Brasileiro de 2017. Foto: Fotos Públicas/Sirli Freitas.

Tenho uma relação muito especial com a cidade de Medellín, desde que em 2007 lá estive pela primeira vez. Era lá que deveria ter sido disputado o jogo mais importante da história do time de Chapecó. Sempre com amigos, vivi o futebol e outras delícias da cidade que ainda sofre com o preconceito de ter sido a sede do cartel de drogas liderado por Pablo Escobar. Estive nas tribunas populares do Estádio Atanasio Girardot para assistir a uma vitória da seleção colombiana contra a peruana, pelas Eliminatórias do Mundial de 2010. Presenciei em 2014, em camarote em que também estava o ídolo Faustino Asprilla, a vitória do Grêmio contra o Atlético Nacional, pela Libertadores. O passado de extrema violência não deve ser esquecido, mas a principal cidade do estado de Antioquia não se esgota nele, mas se expande pela rica vida social e cultural, pela mobilidade urbana exemplar, por seus artistas, sendo o mais famoso, mas não o único, Fernando Botero. Escobar, aliás, é também o nome do zagueiro da seleção que representou o país na Copa de 1994, e que, dez dias depois do gol contra que marcou na partida frente aos Estados Unidos, foi assassinado. Até hoje é reverenciado pela torcida do Atlético Nacional.

Estive várias vezes em Chapecó nos últimos anos, sempre a trabalho e sem ter tido a oportunidade de visitar à Arena Condá. O mais próximo que cheguei do futebol local foi como membro da comissão examinadora da ótima Dissertação em Educação de Eduarda Moro: Pra quem joga, terminar o ensino médio já é grande coisa: o processo de subjetivação do jogador de futebol de base e sua relação com a educação escolar. Mais uma mostra de que o futebol é tão bom para desfrutar quanto é para, com e sobre ele, pensar.

Um tributo à Chapecoense e às vítimas da tragédia com o voo da delegação, na madrugada do dia 29 de novembro de 2016, tomou a Arena Condá. Foto: Wikipedia.

A Chapecoense está em má situação na Série A deste ano e o caminho para rebaixamento, o primeiro depois de chegar à divisão mais importante de nosso futebol, é quase definitivo. Torço para que isso não se concretize, mas, se acontecer, equipe e sua torcida são maiores que qualquer infortúnio, capazes de superar até mesmo o desaparecimento de todo um elenco. Fortes para fazer o luto e para admitir que há um sofrimento que não cessa, mas também para seguir adiante.

Que um dia a Chape possa estar em um avião que finamente aterrisse no Aeroporto Internacional de Rio Negro, e com isso possa se deixar abraçar pela cidade de Medellín, sentindo o carinho que ela lhe devota. Sentimento que, aliás, também é o meu.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2019.