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Ciclismo em Tandem: prática esportiva e de sociabilidade

Wagner Xavier de Camargo

Num domingo das férias de janeiro, acordei sobressaltado com vontade de caminhar com a fresca da manhã, coisa rara para alguém que passa, normalmente, a maior parte das noites escrevendo ou lendo. Vesti-me rápido, engoli uma banana regada a suco de laranja, e saí. Nas ruas apenas se ouviam pássaros erráticos cantantes e o preguiçoso silêncio da manhã. Dirigi-me à chamada “Lagoa do Taquaral”, uma área bastante arborizada, na qual há um grande lago e um entorno propício para caminhadas. Este local é conhecido como Parque Portugal e é considerado um dos pontos turísticos da cidade de Campinas.

No meio do caminho, avisto uma movimentação típica dos grupos de prática esportiva que frequentam os arredores da lagoa, porém o que vi me sugeria algo diferente. Pessoas circulavam com coletes da cor amarelo-fluorescente puxando outras com coletes laranja-avermelhado. Aquilo me lembrou de guias e atletas cegos ou com deficiência visual e me trouxe à memória os anos em que corria junto com eles, já relatados aqui em algum momento. Se minha suspeita se confirmasse, estaria ali diante de uma prática esportiva que envolvia tais indivíduos e algumas bicicletas. Parei para olhar atentamente e, em alguns minutos, tudo se esclareceu: era um grupo do chamado “Ciclismo em Tandem”.

Convencionou-se chamar assim a modalidade de ciclismo que se faz com uma bicicleta dupla, de estrutura acoplada, com dois assentos, sendo que quem vai à frente é o condutor (ou guia) e quem se assenta atrás é o passageiro (ou pessoa com alguma deficiência visual). O Ciclismo em Tandem foi introduzido como esporte de competição nos Jogos Paralímpicos de Nova Iorque, em 1984, e agregou mais provas dentro dele (como as de estrada), quatro anos mais tarde em Seoul, na Coreia do Sul. Basicamente, suas regras seguem as da Union Cicliste Internacionale (UCI), com algumas adaptações, no controle mundial do ciclismo desde 1900. Como atividade recreacional é divertido, proporciona interação e sociabilidade, principalmente entre quem pedala junto.

Tandem bicycle. Foto: Wikipedia.

Assim que avistei o banner com uma explicação acerca do projeto que ali se realizava, parei para lê-lo. E, nesse momento, interpelou-me Almir Martelli, o idealizador do chamado Projeto “KB2 Olhos que Guiam”, que é baseado no desenvolvimento do Ciclismo em Tandem em torno da Lagoa do Taquaral. O projeto completou dois anos de existência no início de fevereiro de 2019 e tem atendido inúmeras pessoas com deficiência visual que lá aparecem, aos domingos de manhã, com iniciativa e coragem para pedalar em consonância com alguém. São muitos/as os/as guias ciclistas que se voluntariam para tal empreitada, tanto dividindo o pedal, quanto servindo de “batedores” que vão abrindo caminho para a bike dupla entre os pedestres que, inadvertidamente, invadem a ciclofaixa. Na festinha de comemoração dos dois anos de vida, até um bolo com o simpático logotipo do projeto foi feito.

Banner do Projeto KB2 – Olhos que guiam, exposto entre dois coqueiros junto à margem externa da lagoa do Taquaral. Foto: arquivo pessoal.

Bolo de 2 anos, Projeto KB2. Foto: Almir Martelli.

Almir começou pioneiramente tal atividade e desde então tem se informado mais e mais sobre esporte praticado por tais pessoas, bem como suas necessidades durante as atividades esportivas. Além disso, em conjunto com a esposa, criou uma estrutura de atendimento da demanda de pessoas que desejam aparecer para pedalar. Debaixo de uma sombra agradável de coqueiros imperiais, num dos cantos externos mais visíveis e aconchegantes do parque, Almir monta uma mesa com quitutes (banana em fruta, paçoquinhas, pequenos doces energéticos), água e espalha banquinhos de descanso para praticantes e acompanhantes. Os/As guias completam o cenário com brincadeiras humoradas, casos engraçados, experiências de vida e mesmo com “som ambiente” a partir de alguma caixinha plugada num celular. As conversas e interações rolam durante quase toda a manhã, e o ambiente de sociabilidades entre diferentes gêneros e amantes do ciclismo é instaurado de forma harmônica.

Do modo como foi estruturada, a iniciativa é inédita na cidade de Campinas. Algo parecido, mas longe deste formato e bastante amador aconteceu nos anos 1990, quando um professor de Educação Física, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trazia vez ou outra uma bicicleta adaptada de Jundiaí para a prática do Ciclismo em Tandem dentro do campus. No entanto, ela só circulava com pessoas do projeto de extensão da Faculdade de Educação Física da referida universidade e mediante acompanhamento de guias daqueles projetos. Eu era um deles, no auge de minha adolescência e na ânsia por participar da prática de diferentes esportes adaptados.

Bicicletas duplas e ponto de concentração de praticantes e acompanhantes. Foto: arquivo pessoal.

Naquele domingo de janeiro, retornei à casa feliz pela descoberta feita. Todos/as que lá estavam foram muitos receptivos/as e Almir me convidou para voltar e pedalar com eles/as, em qualquer outro domingo. Que venham muitas outras pessoas para pedalar e tantas outras para guiar! Que Almir siga em frente, com sua alegria contagiante, e seu modo simples (porém certeiro) de tocar as coisas prossiga. Felicidade e muitos anos de vida para o Projeto KB2!

Primeiro dia do Projeto em 2017, da esquerda para direita: Almir (idealizador), Roberto (ciclista) e Fátima (batedora). Foto: Almir Martelli.

 

PS: Para quem se interessar, a base de encontro desse pessoal alegre e festivo é próximo do portão de entrada para a Concha Acústica da Lagoa do Taquaral, todos os domingos por volta das 8h30 da manhã. Instagram @kb2olhosqueguiam