56.3

Cidades Hospitaleiras

Marco Lourenço

Na última semana foram definidos os locais de treinamento das seleções para o período de preparação da Copa do Mundo de 2014. (Confira o infográfico publicado pelo Ludopédio aqui).

O resultado apresentou poucas surpresas, com exceção à ausência das delegações europeias nos estados da região sul do país – onde há maior semelhança climática com o velho continente. Revelou-se evidentes dois aspectos: a concentração das seleções no leste do país e majoritariamente no estado de São Paulo (46,87%).

Os critérios de escolha revelaram-se bem técnicos, à princípio. A preocupação com o desgaste pelo deslocamento durante os jogos e a inevitável necessidade de adaptação climática fixaram suíços e alemães, por exemplo, no litoral baiano (suíços jogam a primeira fase em Brasília, Salvador e Manaus; já os alemães jogam em Salvador, Fortaleza e Pernambuco).

Apesar da oferta maior e mais qualificada de centros de treinamento, o estado de São Paulo recebeu apenas uma seleção campeã mundial: a França. O investimento para adequação gastos pelos quinze centros garantiu suas marcas nos registros da história das Copas do Mundo, no entanto, no que diz respeito à visibilidade é bastante discutível.

No caso do CT Joaquim Grava (Corinthians), em Guarulhos, que passou a ser considerado um dos melhores do país, a recepção à delegação iraniana pode ser considerada frustrante, ao menos em dois aspectos. Em primeiro lugar, há uma contradição desapercebida relevante: o time que possui raízes históricas com um dos movimentos democráticos mais significativos da história do Brasil, a Democracia Corintiana, recebe a seleção de um dos países mais anti-democráticos que mais agridem os direitos fundamentais de sua população.

Ademais, a Liga Iraniana (Iran Pro League ou Persian Gulf Cup) criada há pouco mais de quarenta anos, não promove um campeão asiático desde 1993 (Pas Tehran). Curiosamente, o último ranking mundial de clubes da Pluri Consultoria indicou o bicampeão asiático Esteghal, da capital iraniana Teerã, em 78º lugar, à frente de todos os clubes paulistas que sequer figuram na lista dos 100 melhores.

Dentre os nove estados que receberão as delegações, apenas Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná – além de Sâo Paulo – contarão com os favoritos a melhores do mundo no dia-a-dia do aquecimento para a Copa. À rigor, o impacto do “padrão FIFA” no cotidiano das cidades que receberão as seleções é imprevisível até certo ponto. É possível imaginar que Mangaratiba (RJ), Porto Feliz (SP) ou Mata de São João (BA) passarão a ter seus nomes em negrito no mapa mundi.

As implicações no turismo destas cidades, no entanto, estarão condicionadas às condições de infra-estrutura apresentadas e o desenrolar de eminentes manifestações ao redor das “áreas FIFA”. Fatalmente, de maneira geral, o que escapa a todas reportagens e comentários é o famoso “legado” para além do ponto de vista urbanístico – no que diz respeito a mobilidade. Um dos problemas é a interrupção de planos de governo, ou o deslocamento de políticas públicas centrais aos “municípios hospitaleiros” para o beneficiamento da recepção às delegações.

Visita ao CT de Viamão – Aldo Rebelo. Foto: Paulino Menezes – Portal da Copa/ME.

Um exemplo deste fiasco é Bento Gonçalves (RS), que ficou de fora do rol das “cidades hospitaleiras” – a cidade Viamão (RS), representante gaúcha, vai recepcionar a delegação equatoriana. A prefeitura captou recursos de empresários de vinículas da região e contratou uma empresa de consulturia norte-americana para trabalhar na sua promoção em eventos da Concacaf, Copa Ouro e a própria Olimpíada de Londres. O portal Terra apurou que o pequeno município de pouco mais de 100 mil habitantes teria movimentado cerca de R$ 300 milhões no projeto para a Copa.

O que se vê, portanto, é um esforço desproporcional destes municípios em atrair estas seleções. Com a definição dos locais de treinamento, será possível a partir de agora acompanhar o andamento da preparação para a chegada das visitas ilustres, e notar, com atenção, quantas cadeiras terão de ser tiradas de nossas cozinhas para acomodá-los em nossos aprazíveis salões de festa padrão FIFA.

Como citar

LOURENçO, Marco. Cidades Hospitaleiras. Ludopédio, São Paulo, v. 56, n. 3, 2014.