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Clássicos, Argentina, El Superclásico

Alexandre Fernandez Vaz

Para Ricardo e Pedro, Millonarios.

 

Cada cidade tem seu derby, ainda que algumas poucas, é certo, mais de um. Ouvi uma vez de um sociólogo com estudos importantes sobre futebol, que Buenos Aires e Londres seriam as duas cidades do mundo com mais equipes em primeira divisão nacional. Suponho que ele estivesse errado, já que Montevidéu abriga mais clubes da principal série local do que as duas capitais. Por outro lado, seria certo dizer que bonaerenses e londrinos podem assistir, sem que seja preciso deixar a cidade, a um número maior de derbies. Na capital uruguaia, clássico é Nacional versus Peñarol, e nada mais.

Na capital argentina são muitos os clássicos, mas Boca Juniors versus River Plate é el superclásico. Dois grandes clubes, com inúmeros títulos nas respectivas salas de troféus, desde sempre agremiações internacionais. Houve o grande Boca da década de 1970 (o da final da Libertadores contra o Cruzeiro, em 1977, logo campeão intercontinental contra o Borussia Möchengladbach, com gol de Loco Salinas, que antes se destacara no maior adversário), o de Bianchi e Riquelme nos primeiros anos deste século. Mas o River não fica atrás, com la Maquina dos anos 1940, talvez o melhor time do mundo de então, os títulos dos anos 1990, além do recente êxito depois de um ano na segunda divisão, em especial sob a direção de Marcelo Gallardo, el Muñeco, ídolo do clube também como jogador.

Algo que sempre me impressionou entre os portenhos é que são menos comuns que em outros lugares que um jogador atue pelos dois maiores da capital. Sim, há casos, como o Salinas citado acima, e Lucas Pratto, formado no Boca e hoje titular do River. Mas dá para imaginar Juan Román Riquelme, Carlitos Teves ou Diego Maradona com a camiseta dos Millonarios? E Daniel Passarela, Marcelo Gallardo ou Ramón Díaz com a dos Xeneizes? Para Ramón, aliás, o Boca Juniors é los Bosteros – apelido mais que pejorativo, tão preconceituoso quanto generalizado – como li em uma entrevista dele à revista El Gráfico, há muitos anos, quando era o treinador (ou el DT, Director Técnico, como são chamados na Argentina) no Monumental de Nuñez. Foi ele, aliás, quem comandou o time no título da Libertadores de 1996.

Tudo isso não impediu que no domingo passado Lucas Pratto, logo depois da partida de seu time contra o Gimnasia y Esgrima, em La Plata, descesse ao vestiário adversário, no acanhado estádio do Bosque, para cumprimentar o técnico da equipe local. O River vencera o jogo, do qual o atacante fora poupado em razão da partida de terça-feira pela semifinal da Libertadores, contra o Boca. Neste momento dirige o time azul e branco da bonita capital da província de Buenos Aires nada menos que Diego Maradona. Este, por sua vez, declarou que “com River não se puede”, quase que prevendo a derrota de seu time do coração, o Boca, no jogo que estava por vir. Maradona, como era de se esperar, foi há poucas semanas recebido com festa e esperança no Gimnasia, chamado de el Diez, el Dios, mas, claro, a coisa não vai funcionar. Como se sabe, Diego foi magistral jogador, é grande personagem e péssimo treinador.

Mensagem de boas-vindas a Maradona. Foto: Arquivo pessoal do autor.

Em La Plata a rivalidade, aliás, tampouco é pequena. Certa vez em uma partida entre Estudiantes e Boca Juniors, observava uma torcida do time local que levava uma faixa com sua denominação: Filial Javier Mazzoni. Ao perguntar a um amigo, Eduardo Galak, quem fora ele, a resposta não poderia ter sido mais surpreendente. Tratava-se de um ex-jogador que jamais atuara pelo Estudiantes, mas que era homenageado porque, com um gol, alhures impedira que o Gimnasia se tornasse campeão nacional. Jogando pelo Independiente, de Avellaneda (cidade vizinha a Buenos Aires, que abriga também o Racing), Mazzoni marcou o tento que levou à vitória contra o albiceleste de La Plata, dando o título do Clausura de 1995 ao San Lorenzo de Almagro.

Assim como o Gimnasia, o River já esteve na Primera B, a segunda divisão nacional. Venceu o torneio de 2011-2-12 com nada menos que David Trezeguet no ataque, o campeão mundial em 1998 que dos dois aos dezoito anos viveu em Buenos Aires, voltando ao país para ajudar a levar los Millonarios de volta à elite do futebol argentino. Pela passagem pela B os torcedores do River leem e escutam sua equipe ser chamada de Riber. Como já escrevi aqui mesmo no Ludopédio, passar pela segunda divisão ensina e humaniza[1].

Em três semanas Boca e River duelam em segundo round por uma vaga na final da Copa Libertadores, que será contra um clube brasileiro, Flamengo ou Grêmio. A partida será em La Bombonera, a mítica cancha xeneize, em La Boca, lugar do jogo que Pelé, o craque dos craques, considera o mais difícil de sua carreira. Haverá apenas uma torcida, como já aconteceu nesta semana, quando o River recebeu seu adversário no Monumental de Nuñez, na Costanera Norte. No ano passado, ambos adversários na final da Copa mais importante da América, tiveram que jogar em Madrid, uma vez impossível a partida em Buenos Aires e dada a proximidade do Troneio Mundial Interclubes, do qual um deles participaria. Já houve de tudo no superclásico, inclusive bom futebol, o que não foi o caso da partida da última terça. Esperemos que seja a da de 22 de outubro, escrevendo-se mais um capítulo do belo e apaixonante futebol dos Hermanos.

Ilha de Santa Catarina, outubro de 2019.

Nota

[1] Já estive na segunda divisão, não me fez malhttps://www.ludopedio.com.br/arquibancada/ja-estive-na-segunda-divisao-nao-me-fez-mal/ (08.12.2018).