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“Clube-Empresa” no futebol brasileiro: um debate que precisamos melhorar

Daniel Vinicius Ferreira

Recentemente, a ideia da transformação/privatização dos clubes em formatos empresariais tem ganhado força no Brasil. E não apenas no nosso país, na vizinha Argentina o tema igualmente tem experimentado, há algum tempo, relevância nas discussões dos círculos desportivos. No Chile, uma mudança de impacto já foi inclusive adotada, no formato de Sociedades Anônimas (SAs).

Trata-se, em realidade, de uma tendência mundial e pode ser identificada mesmo como um dos pilares da globalização pós-década de 1970, demarcada (entre outros aspectos) pela ascensão do neoliberalismo, da expansão do capital transnacionalmente e para dentro de espaços sociais antes não tão associados prioritariamente (e plenamente) à lógica mercantil. A referida trajetória impactou e (combinada a outros fatores) provocou um movimento de metamorfose no campo esportivo global. Isso tem redefinido o modelo dos clubes, com adaptações locais em cada parte do planeta, inseridos dentro de mesma uma lógica global (o que os sociólogos Richard Giulianotti e Roland Robertson chamariam de glocalização).

Registro da reunião ocorrida no mês passado entre dirigentes e o deputado Pedro Paulo, escalado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para tocar o projeto. Foto: Reprodução/TV Globo.

É importante lembrar que o Brasil já teve uma guinada legislativa rumo ao que se convencionou chamar de “clube-empresa”. Isso ocorreu na década de 1990, durante os governos Fernando Collor (1990-1992)/Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando foram aprovadas as chamadas “Lei Zico” (1993) e “Lei Pelé” (1998 – com alterações posteriores). Estas nasceriam tendo como um dos ideais a transformação dos clubes em “empresas”. Porém, elas não tornariam obrigatória aquela transformação dos clubes, mas abriram a possibilidade dos clubes, que assim desejassem, incorporassem o formato privado.  

O que se busca brevemente discutir neste artigo é como, no plano do debate, tem sido consagrada a ideia da transformação dos clubes no Brasil, atualmente. Além disso, pensar este “debate brasileiro” à luz de duas experiências internacionais de transformações no campo esportivo a modelos afinados à globalização: o modelo alemão e o modelo estado-unidense. Essa discussão tem como eixo central a problematização das próprias enunciações que recorrentemente movimentam e protagonizam aquelas discussões: argumenta-se “pela modernização do futebol brasileiro” ou “pelo bem do futebol brasileiro”.  Ao final, trazemos alguns apontamentos para fechar o artigo.

“Clube-empresa” no futebol: a “salvação da pátria” para o “futebol brasileiro”?

A discussão sobre a alteração do formato dos clubes tem promovido diferentes propostas e ideias em Brasília, nos últimos anos (como a de Otavio Leite em 2016; de Andres Sanches em 2018). Atualmente é a proposta do deputado Pedro Paulo/DEM-RJ que vem sido debatida.

Discute-se sobre a obrigatoriedade ou não da transformação dos clubes em modelos empresariais; sobre os modelos possíveis (se sociedades anônimas de capital aberto e/ou fechado, e/ou limitadas). Discute-se também (no modelo acionista) a possibilidade de limitação de ações vendidas a investidores privados e se deveria haver formatos em que as ações tivessem pesos diferenciados em termos de poder decisório (numa precaução pela manutenção de alguns valores tradicionais considerados essenciais para os clubes). Finalmente, discutem-se possibilidades de oferta de refinanciamento das dívidas dos clubes (como um atrativo para adotarem o formato privativo), de recuperação judicial e mesmo sobre a opção de associação com empresas/investidores com o uso de créditos públicos para pagar dívidas dos clubes.

Para além dessas discussões, o que se destaca aqui é que o projeto do “clube-empresa” tem aparecido, muitas vezes, em diversos espaços protagonistas do futebol (como entre dirigentes ou profissionais) e além dele (como na imprensa e entre políticos) com um certo padrão de narrativa heroicizada, consagrando (muitas vezes) uma simbologia ingênua de “salvação da pátria” para o “futebol brasileiro”, ganhando geralmente a alcunha de “modernização”, como um movimento inescapável em direção ao “futuro”. Nesta perspectiva, a ideia (porque, como se viu, as propostas ainda são várias) acaba assumindo uma espécie de “papel coringa” ou um “guarda-chuva” que poderia dar conta de qualquer e todo problema que assola hoje o “futebol tupiniquim”, narrado de forma totalizada.

E é assim que se argumenta que o “clube-empresa” possibilitaria atrair mais investimentos privados (para o “nosso” combalido futebol), que forneceria mais segurança jurídica para que os clubes conseguissem financiamento (junto a patrocinadores, investidores ou mesmo bancos), e isso daria aos clubes mais perspectivas de contratar (ou segurar) os melhores jogadores, podendo o “futebol brasileiro”, inclusive, almejar em competir com as principais ligas europeias.

Andrés Sanchez, presidente do Corinthians e ex-deputado federal, disse em setembro passado: “Sou contra clube-empresa do jeito que está”. Foto: Reprodução/Twitter.

Também se afirma, nessa mesma linha, que os clubes se tornariam mais profissionais (afastando o seu uso político, geralmente por pessoas amadoras incrustadas nas suas estruturas de gestão); que os clubes seriam menos envolvidos em casos de corrupção e seriam mais responsáveis (já que teriam “donos”, seriam empresas, não teriam a “leniência” do Estado estando sujeitos a efetivas “punições” e “perdas financeiras”). Isto empurraria as agremiações a serem menos endividadas e mais sustentáveis economicamente, já que estariam envolvidas pelos ideais da livre iniciativa, do ambiente corporativo, privado e sob a “prova” do mercado, onde “tudo funciona”.  

A aura “mítica” que envolve a ideia do “clube-empresa” como “salvadora da pátria” no Brasil é ingênua e perigosa. Podemos, inclusive, nos servir da história, para ter alguma base empírica: o futebol espanhol revela-se um bom exercício para tal. Só para se ter uma ideia, em 1984 a dívida dos clubes na Espanha era de 16.000 milhões de pesetas (cerca € 84 milhões). Em 2010, a dívida girava em torno dos € 4 bilhões: isto cerca de 20 anos depois da imposição do modelo das Sociedades Anônimas aos clubes (1990-92), que tinha como grande justificativa “tornar os clubes mais sustentáveis”.  

Não se trata simplesmente de ser “do contra” ou “a favor”. Tampouco se trata de negar que o “amadorismo”, que o uso dos clubes como fonte de capital político para alguns (desvinculados dos propósitos da sua comunidade), e (mesmo) que a “corrupção” e os desequilíbrios contábeis sejam problemas graves e estruturais no nosso futebol. Ou que, ainda, formatos de “clube-empresa” podem (de fato) servir como um instrumento de melhorar e profissionalizar a gestão do futebol brasileiro, promovendo um melhor encaixe do futebol nacional à lógica global.

Trata-se de sermos críticos aos possíveis impactos das transformações dos clubes, evitando limitar a discussão a um simples maniqueísmo envolvendo  “moderno” x “arcaico”. Trata-se de chamar a atenção de que o movimento da globalização, e a hegemonia hoje do “habitus mercantil”, que perpassa cada vez mais inúmeros espaços da vida social é muito mais complexo, que tem revelado inúmeros casos de desdobramentos errantes e impacta de diferentes formas em cada lugar.

Sem entrar no mérito de um maior apartamento entre os valores/interesses da comunidade torcedora e dos núcleos diretivos que passam a compor os “clubes-empresas” (o que é um tema necessário, mas que por si só demandaria uma reflexão à parte), há muitos casos de clubes, pelo mundo, que pioraram (em termos financeiros, de profissionalismo e de desempenho) com formas mais mercantis ou pretensamente “mais empresariais” de gestão, como, por exemplo, quando adotaram formato das sociedades anônimas.

Pela modernização e pelo bem do futebol brasileiro”

Um ponto, em particular, deseja se destacar: será que, naqueles debates que consagram o “clube-empresa” como ponto de partida para “revolução do futebol brasileiro”, está se considerando um conjunto de mais de 700 clubes no Brasil, cuja imensa maioria sequer tem calendário de três meses ao ano? Clubes que são a base de todo o sistema do nosso futebol.

Nesta perspectiva é primordial acrescentar que o futebol nacional, em suas várias dimensões, está profundamente inserido e entrelaçado na sociedade brasileira, movimentando um universo econômico e social extremamente abrangente. Por isso, revela-se atrelado e reflete o próprio desenvolvimento social do país, que vai muito além do campo esportivo. Será que esse complexo universo estaria, também, sendo vislumbrado nos supracitados debates?

Pois o que me parece é que muitas das referidas demandas, consagradas por aqueles debates, se restringem mais a um seleto grupo de clubes, que não representariam nem 5% de uma realidade muito mais vasta do futebol brasileiro.

Em 2017, o Figueirense divulgou uma parceria com um grupo de investidores, transformando o clube em empresa. Foto: Reprodução.

Daí o questionamento: se fazer todo um esforço, para evitar-se o “êxodo” dos principais atletas, consagrar alguns clubes globais, tornar um “futebol sustentável e profissional” para apenas 5 ou 10 clubes  (sendo extremamente otimista, e se é mesmo que o “futebol empresa” poderia fazer tudo isso) deveriam ser as metas principais de uma “modernização” que se pretende nacional, que impacta em todo o futebol brasileiro e, devido a sua dimensão, inter-relaciona-se a um projeto de sociedade. Isto considerando-se toda a complexidade, a amplitude e a heterogeneidade do futebol e da sociedade brasileira.

Adiante vamos trazer as experiências alemã e norte-americana, ambas com forte compromisso social (uma democrática, outra educacional), mas ao mesmo tempo bem encaixadas à lógica global, buscando assim superar um pouco a dicotomia “moderno” x “arcaico” que tem pautado os debates sobre o “clube-empresa” no Brasil. 

Estados Unidos: no topo um futebol plenamente empresarial, mas envolvido pelo compromisso educacional em toda sua extensão

Pode-se afirmar que foi nos Estados Unidos que o paradigma do “futebol empresa” foi inaugurado. Isto porque a NASL (North American Soccer League / 1968-1984) já se estruturava a partir de clubes privados, gerenciados por modelos empresariais. Configurava, já naquela época, grupos de interesse mais complexos em torno do desporto, nascendo a NASL sob os conceitos de “Liga” e “clubes franquias”. Este modelo, na verdade, já estava consolidado no futebol americano, beisebol e depois inspiraria a reformatação da própria NBA (PRONI, 2000). A NASL teria problemas financeiros nos inícios da década de 1980, e em 1984 seria encerrada.

Em 1996, após a Copa do Mundo nos Estados Unidos (1994), uma nova tentativa de liga norte-americana de futebol foi tentada a partir da MLS (Major League Soccer). Um modelo novamente muito afinado com o mundo corporativo e profissional. Assim, este modelo se notabilizaria pelo paradigma de propriedade da “Liga” e dos “clubes-franquias”, onde não haveria o sistema de acesso e descenso dos clubes entre as divisões (embora se estabelecessem três divisões de futebol profissional).

Isto não significou que não tenha se desenvolvido um modelo altamente regulado pelos próprios proprietários do futebol, nos Estados Unidos. Nesse sentido, vale destacar que a MLS passou a se sustentar em alguns princípios de controle, como o teto de salários dos jogadores (embora com algumas brechas para exceções) e regulamentações diversas, como o sistema dos drafts. Este sistema, em uma síntese bem simplificada, acontece quando quando os atletas consagrados pelas equipes universitárias são negociados com os clubes da MLS, na ordem inversa da colocação das agremiações na última temporada. Perpassa esse modelo, ainda, impeditivos de quebras de contratos clube/jogador e de “roubos” de atletas entre as equipes, visando o balanço esportivo.

Também na MLS as receitas vindas da TV (e outras vindas de patrocinadores) são coletivizadas. Já no futebol feminino, o sistema e a liga se sustentam em um acordo envolvendo a federação norte-americana de futebol (inclusive com parceria com as federações canadense e mexicana, incorporando atletas estrangeiras), as Universidades e o próprio Governo (PRONI, 2000; MUNDO AFORA, 2015).

David Beckham tornou-se capitão do LA Galaxy assim que foi contratado em 2007. Foto: Wikipedia.

O que mais chama a atenção no modelo norte-americano é que ele vai além do “clube-empresa”. Todo este sistema é envolvido por um compromisso educacional em sua base e por toda sua extensão.

Nos Estados Unidos, o esporte de alto rendimento tem uma interligação forte com o sistema escolar e universitário. O Estado incorpora o impositivo de oferecer, de maneira universal, educação e esporte com qualidade nas escolas. Campeonatos interescolares fazem parte da trajetória formativa e do próprio imaginário estado-unidense da vida escolar. Os atletas que se destacam são motivados a permanecer e seguir com um bom desempenho em suas carreiras universitárias. Isto porque é no ensino superior que estão os melhores campeonatos e “vitrines” para darem o salto ao desporto profissional depois, como atletas de alto rendimento. Além disso, permanecendo na Universidade não perdem subsídios para sua formação acadêmica e garantem uma carreira fora do desporto, se necessário.

À guisa de curiosidade: Michael Jordan é formado em Geografia, Tom Brady em estudos organizacionais. Já Alex Lalas (um zagueiro da seleção norte-americana de 1994) terminou sua graduação em 2014 (Inglês e Música), após tê-la interrompido justamente para servir a seleção.  

A popularidade do futebol norte-americano vem crescendo nos últimos anos, sobretudo pela força da comunidade latina e hispânica no país. Atletas consagrados mundialmente têm também sido já recrutados pelos clubes (como o inglês David Beckham, o sueco Zlatan Ibrahimovic ou o brasileiro Kaká, mais recentemente). A seleção feminina é a atual campeã da Copa do Mundo, potência na categoria, com Megan Rapinoe sendo, este ano, considerada a melhor futebolista do mundo pela FIFA.  

Alemanha: uma das ligas mais ricas e com as finanças mais equilibradas do planeta. Com representação democratizada nos clubes e “feita” para o torcedor

Na Alemanha, os clubes têm um costume constitutivo como associações registradas de voluntários (sem fins lucrativos), demarcados por conselhos eleitos democraticamente por sócios. Este modelo ficaria conhecido como “Eingetragener Verein” (haveria variações parecidas do Verein também na Áustria e Suécia). Em 1998, houve a transformação da normativa que regulava o formato dos clubes nas três divisões principais do futebol alemão (Bundesliga 1, Bundesliga 2 e Liga 3) autorizando-se o formato societário misto 50%+1 para os antigos Verein. Ou seja, os clubes poderiam (a partir desse momento) ter opcionalmente até 49% das suas ações no mercado, vendidas a investidores, mas 51% deveriam permanecer com o clube e seus sócios. Esta restrição, entretanto, pode ser flexibilizada para casos de histórica ligação do clube com empresas locais, como (por exemplo) o Bayer Leverkussen com a Bayer e o VFL Wolfsburg com Volkswagen, que permaneceriam como proprietários dos respectivos clubes.

Desde então houve o surgimento de modelos híbridos com mais ou menos participação em conselhos, terceirizações de departamentos dos clubes associados a empresas parceiras de acordo com casos específicos, seguindo o formato geral 50%+1. O futebol alemão se notabilizaria por sinergias entre clubes, seus sócios e empresas locais, como Bayer de Munique com a Allianz (tal como também com a Audi e a Adidas) e o Borussia Dortmund com a Evonik (LIÉBANA, 2016).

Recorrentemente na Alemanha (mas ainda sem êxito) acontece um “levante”, quando alguns dirigentes passam a defender alterações na direção de uma maior liberalização do modelo 50%+1. Isto sob a justificativa de atrair mais investidores e tornar os clubes alemães tão competitivos como clubes de outras ligas europeias, das chamadas Big 5 – as ligas inglesa, espanhola, italiana, francesa, e a própria alemã (KENNEDY & KENNEDY, 2016).

Uma característica que viria a se estabelecer no modelo alemão seria a promoção de uma forte regulação dos clubes, a partir da concessão de outorgas (e renovação) das suas licenças, submetidas às análises rigorosas dos balanços entre as temporadas, promovida pela  DFL – Deutsche Fußball Liga (MILLER, 2012). A DFL, em 2001, passou também a gerir os contratos de TVs (abertas, públicas e privadas), cujo modelo distributivo dos valores recebidos pelo televisionamento seria um dos mais equânimes entre as Big 5 (embora também um dos menores), e há um fundo comum para emergência financeira dos clubes.

A Bundesliga tem a maior média de público de futebol do mundo, sendo o Borussia Dortmund o clube que mais contribui para isso. Foto: Wikipedia.

Apesar da hegemonia do Bayer de Munique desde a década de 1980, haveria certo equilíbrio e competitividade entre os outros clubes. Estes sofreriam a concorrência e perda de jogadores para outros clubes europeus. Muito por causa disso em 2001 a federação DFB (Deutscher Fußball-Bund), em parceria com a DFL, elaboraram um plano com os principais clubes da Bundesliga 1 e 2. Isto para a construção de academias sofisticadas visando a formação de jogadores, gerenciada localmente pelos clubes, com regulações, normativas e raios de atuação para prospectar e formar atletas, ligadas inclusive com os círculos educacionais (MUNDO AFORA, 2015). Um modelo visando a diminuição do gasto dos clubes com atletas, mas também o próprio fortalecimento do futebol alemão em termos econômicos e desportivos.

O que se destaca no futebol da Alemanha, para além do “clube-empresa” seria a manutenção de uma tradição forte de participação dos torcedores na vida política dos clubes, desde a década de 1970, quando um esquema de manipulação de resultados foi descoberto e afastou inicialmente torcedores dos estádios (SIMÕES, 2016). Foi muito por reação àquele acontecimento que os torcedores-sócios fortaleceriam sua voz ativa dentro dos clubes (os chamados “FußballKultur” e “fankultur), característica que muito orgulharia os torcedores locais, até os dias atuais. Inclusive, seria este protagonismo político fator decisivo pela manutenção dos ingressos e planos de sócios mais baixos dentro do cenário europeu da globalização. Essa configuração, de participação ativa dos torcedores, foi perpetuada pelo referido formato 50%+1. Só para se ter uma ideia o Bayern de Munich contaria com cerca de 290 mil sócios-membros registrados, o Schalke 04 cerca de 155 mil, enquanto o Borussia Dortmund teria aproximadamente 150 mil, atualmente.

A essa tradição participativa se somou o próprio posicionamento tomado pela Bundesliga no início do século XXI, quando seu modelo de negócio deu uma guinada. Um dos fatores chaves para essa mudança seria porque o principal parceiro midiático nos contratos de TV, o grupo Kirch, faliu por essa época. A Bundesliga passou a voltar-se para o público dos estádios, priorizando o seu conforto, horários atraentes e preços acessíveis, aproveitando-se das reformas e construções de praças esportivas desde a Copa do Mundo de 2006. Inclusive, houve a manutenção dos espaços em pé (“Stehplätze) nos estádios, sendo comum a reconfiguração dos estádios para partidas internacionais dos clubes, quando pela normativa da UEFA os assentos são obrigatórios.  

Nesse contexto, a taxa de ocupação dos estádios cresceria muito e atingiria a ordem de 90% no início de XXI (a mais alta da Europa!). A Bundesliga seria também a que desenvolveu a gestão mais responsável dos ativos dos clubes entre as Big 5 (muito pela sua prudência em relação aos gastos com atletas) o que muito se costuma associar como reflexo da forte democratização do poder político nos clubes e da forte regulação da DFL.

Alguns apontamentos conclusivos

Problematizar o debate e os argumentos de mais evidência hoje sobre o “clube-empresa” não significa eliminar as pretensões de que algumas agremiações nacionais possam adentrar aos (cada vez mais restritos) círculos de elite do futebol globalizado. Muito menos de se colocar contra a profissionalização, a melhoria da gestão do desporto no Brasil (demandas necessárias), ou buscar um melhor “encaixe” do modelo brasileiro a uma lógica global.

Nesta perspectiva, vale ainda destacar que, segundo David Kennedy e Peter Kennedy (2016), um dos problemas centrais do endividamento dos clubes, na globalização, está em um movimento cujo formato “clube-empresa” tem limitadas capacidades para neutralizar: a configuração esportiva (desregulada), com a entrada (sobretudo) do dinheiro das TVs e acompanhada pela liberação do mercado de atletas (Lei Bosman, ou fim do “passe” no Brasil) provocou um boom inflacionário nos salários dos atletas (e também dos treinadores). Os clubes (sobretudo os mais ricos), por impositivos também financeiros (afinal, desempenho esportivo é fundamental para obter melhores receitas e fazer girar o chamado “círculo virtuoso”), orientam esse boom, dando o “ritmo financeiro” e colocando todo o sistema em permanente risco de quebra.

Outra questão é que pouco se fala, e se problematiza, sobre outros limites que do formato “empresarial”, em vários aspectos. Por exemplo, casos muito recentes (ou mais distantes, que remetem à própria trajetória histórica da nossa sociedade) revelam que há (e houve) muita corrupção e amadorismo vindas justamente do mundo “empresarial” brasileiro (e é óbvio que isto acontece muito fora do Brasil também). Isto porque o formato empresarial, privativo, não é alheio (ou onipotente frente) à sociedade que o emoldura. Neste caso, para melhorar a gestão do desporto no Brasil caberia entendermos e discutirmos mais sobre “sociologia organizacional” (aliás, área ainda pouco desenvolvida no Brasil) dos clubes, do que eleger o formato empresarial como “salvador da pátria”.

Jogadores do Figueirense encerram greve e prometem jogar em respeito à torcida. Foto: Reprodução/Guto Marchiori.

Mais uma questão: se “profissionalismo”, “especialização de funções” e “ampliação de fontes de receitas” são impositivos (entre outros) de uma lógica global, hoje, para clubes de futebol (e que o “clube-empresa” atenderia), que almejam protagonismo, eles não desligados de um “sentido”. Sem entrar no mérito do “sentido político” (outra discussão extremamente oportuna), o que se coloca é: o “profissionalizar” ou o “ampliar as receitas” aconteceriam em que direção, ou em que ordem de prioridades? Para reforçar os valores históricos da comunidade do clube e para melhorar seu desempenho esportivo, ou para gerar lucro para um determinado dono ou acionistas?       

Ainda: no Brasil (como na Argentina), soma-se também o grave problema de praticamente existir o monopólio de uma rede de TV sobre o direitos de transmissão do futebol no país. Isso sem falar na ausência de uma preocupação mínima (por parte dos clubes principais, seus dirigentes e da própria CBF), de se pensar o futebol brasileiro como um sistema, para além dos “clubismos”.

De forma geral, conforme destacamos, o que o debate do “clube-empresa” no Brasil precisa superar são as narrativas míticas e heroicizadas, reduzindo nossos problemas a uma simples dicotomia. Nessa mesma direção, refletir sobre o significado de enunciados como “futebol brasileiro” e “sociedade brasileira” – uma realidade extremamente complexa e heterogênea – considerando aí todo o potencial do desporto em sua perspectiva democrática, educacional e mesmo de desenvolvimento.

Referências

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