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Coligay – o esplendor recuperado

Arlei Sander Damo

Acaba de vir à público uma tese a muito esperada:  “De ‘são bichas, mas são nossas’ à ‘diversidade da alegria’ – uma história da torcida Coligay”, de autoria de Luiza Aguiar dos Anjos com orientação de Silvana Goellner, junto ao PPG em Ciência do Movimento Humano/UFRGS. E veio não apenas para contar uma história, senão que ela própria haverá de fazê-la, no formato de tese ou de livro. Por quê?

A Coligay é a mais importante Torcida Organizada (TO) da história brasileira até o presente, para dizer o mínimo. Não foi a pioneira, nem a maior, tampouco a mais longeva e até agora não havia sido sequer investigada a fundo. A Coligay foi única, simplesmente, e segue sendo. Em muitos aspectos esta torcida se encaixa na classificação usual de “torcida organizada”, mas sob outros ela é diferente, por isso lhe cabe um lugar de destaque na história das práticas torcedoras. As diferenças não fazem dela uma torcida contrária às outras; eu a situaria numa posição ortogonal, porque destacada das demais, mas não empregaria o rótulo de “ponto fora da curva”, como se diz coloquialmente de algo inusitado, porque desse modo alguém poderia pensá-la como uma dissidência ou discrepância, algo que ela não foi.

Emprestando uma metáfora do célebre sociólogo Marcel Mauss, diria que a Coligay está situada na “face oculta da lua” enquanto as demais TOs estariam na face visível. Até o presente nós só tínhamos uma impressão vaga desta outra face ou, para tornar a metáfora mais precisa, nós agora podemos compreender um pouco melhor a história do torcer, uma prática que por vezes sequer é pensada como passível de ser historicizada. A história da Coligay deveria nos fazer pensar no alargamento da noção de práticas esportivas, tal qual a utilizamos corriqueiramente, referindo-se, quase sempre, exclusivamente ao jogar. Aquilo que chamamos de torcer – uma palavra tão nossa, que ninguém pode explicar exatamente como surgiu – é tão ou mais reveladora do que o jogar, porque este, modulado pelas regras, permite uma margem menos ampla de inserções localizadas, particularizadas, identificadas com a história, a cultura e a sociedade.

Foi em razão de certos eventos atinentes ao torcer que se tornou legítimo, pelo menos no espectro das ciências sociais, investigar o futebol. Refiro-me, basicamente, à questão da violência protagonizada pelas TOs, uma prática mais ou menos generalizada a partir da década de 1970, na Europa e na América Latina, em que pese os contornos locais dessa violência. O hooliganismo foi, até o presente, uma espécie de case ideal para a compreensão da violência entre os torcedores, embora seja um fenômeno característico do cenário inglês. Há ótimos trabalhos, na antropologia e na historiografia, e também em outras disciplinas, que contestaram esta universalização apressada. Não gostaria de fazer citações, para não cometer injustiças, embora o trabalho de Bernardo Buarque de Hollanda seja, a este respeito, paradigmático. A tese de Bernardo mostra um antes das TOs, então conhecidas como Torcidas Uniformizadas (TU), algo que Luiz Henrique de Toledo já havia suscitado ao contrapor-se à ideia de que as TOs que ganharam destaque midiático na década de 1990 fossem apenas uma versão brasileira dos hooligans. E os trabalhos recentes de Bernardo mostram, se não um depois, um desdobramento das TOs em forma de Escolas de Samba, por exemplo, um fenômeno de destaque em São Paulo. E há muitos trabalhos vindo à tona ou em curso mostrando que o modelo de TOs que se tornou hegemônico de 1970 para cá – de 1990 em diante, sobretudo – pode estar entrando em colapso ou, no mínimo, em crise.

A Coligay – cujo nome de batismo faz referência a boate Coliseu, voltada ao público gay porto-alegrense na segunda metade da década de 1970 – está justamente num ponto de inflexão, correspondendo à transição das TUs às TOs, razão pela qual ela é tão importante de ser estudada. Uma torcida composta hegemonicamente por gays, e assumida enquanto tal, seria quase inimaginável nas décadas de 1980 em diante, em que a relação de poder vai pender para o lado das TOs. No caso do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde o processo de transformação das uniformizadas em organizadas estava um pouco mais avançado do que em Porto Alegre – à época do surgimento da Coligay (1977) só havia uma outra torcida independente no Grêmio, a Força Azul – uma torcida nesses moldes teria poucas chances de prosperar, como provam as ameaças dirigidas à Fla-Gay, cuja aversão das outras TOs e dos dirigentes do Flamengo acabou catapultando o incipiente projeto.

A Coligay nasceu independente do Grêmio, desde o ponto de vista econômico e político – além de ter inovado esteticamente. A independência é um dos traços mais marcantes da transição das TUs às TOs e, sobretudo, é um marco no processo de virilização desses agrupamentos que, se não deixaram de lado o investimento estético pelo qual se notabilizaram as TUs, agregaram contornos políticos até então represados pela tutela dos clubes. É da conversão dos capitais estéticos em políticos que se servem as TOs para assumirem, frente aos demais torcedores, os clubes, os atletas e à mídia o status de torcedores ideias, os legítimos representantes do torcer. A “profissionalização” das TOs acirrou as disputas, dentro e fora do espectro clubístico, espelhando, de algum modo, as lutas fratricidas que caracterizam as disputas entre dirigentes de clubes. O fato das TOs não fazerem restrições quanto ao uso da violência é um ingrediente importante do seu modo de abordar a política, mas não é tudo. É preciso que a violência seja pensada como uma estratégia, e não como uma característica atávica das TOs, para compreender a sua natureza. Há uma politização das TOs num registro distinto daquele existente nas TUs, ainda que o torcer, a rigor, será sempre uma expressão pública de sentimentos e, portanto, um ato político, quer seja organizado ou não.

Uma das hipóteses que estava no ponto de partida da tese de Luiza era de que a Coligay pudesse ter um acentuado viés político, embora de natureza distinta das demais TOs. Como uma torcida gay poderia existir durante a Ditadura e antes mesmo do surgimento dos movimentos de luta pelos direitos homoafetivos? Seria ela um espaço de resistência, à Ditadura, e de vanguarda do que nos dias de hoje se denomina movimento LGBT+? Surpreendentemente, a Coligay fez história sem enfrentar a Ditadura e sem pautar abertamente questões de gênero. Aparentemente, a Coligay encontrou seu espaço – não sem ousadia e resiliência – num cenário em que as torcidas não eram tão belicosas, sobretudo as insipientes TOs. Ou ainda, em que o torcer não havia sido capturado por grupos exclusivos – nem pelos machões das TOs, nem pelos homens de negócios que desejam consumidores nos estádios. Torcer era uma festa e o Grêmio andava em baixa, além de sua torcida se ressentir de com a pecha de passiva desde tempos remotos.

Coligay. Foto: LIbretos/Divulgação.

Coligay. Foto: LIbretos/Divulgação.

O argumento de que a Coligay ocupa uma posição ortogonal em relação à história do torcer tem a ver com o fato de que ela não é compreensível se olharmos para as disputas em torno dos significados do torcer a partir de suas perspectivas hegemônicas – a da performatização da virilidade ou da frivolidade consumista, sobretudo. O investimento na história social da Coligay parece-me um marco importante para o campo de estudos esportivos – este campo amplo que congrega ciências sociais como a antropologia, a historiografia, a educação, a educação física e tantas outras disciplinas. É um sinal de maturação o fato de que, finalmente, tenhamos chegado ao “outro lado da lua”, aquele que não é tão óbvio à percepção do sendo comum, em particular das narrativas jornalísticas.

A tese de Luiza é, a este respeito, um caso paradigmático, porque o projeto poderia ter sido ofuscado por um livro de publicação relativamente recente, escrito por um jornalista visando um público amplo e com finalidades não acadêmicas. Sob este ponto de vista, diria que a tese é uma espécie de “a outra face da lua de um outro planeta”, porque até o livro de Léo Gerchmann – Tricolor de todas as cores -, a Coligay era como uma lua esquecida ou quase, lembrada em circunstâncias e de forma deslocada de sua existência concreta – refiro-me aqui à presença da Coligay nas jocosidades entre os torcedores do Internacional, uma forma de existência, sui generis, porque tem pouco a ver com a formação originária. Essa Coligay que aparece nas jocosidades, com a qual tivemos contato ao longo das duas últimas décadas, pouco informa sobre os significados atribuídos à torcida que efetivamente existiu. Em todo o caso, esta existência difusa revela certas faces do significado das práticas de torcer que se tornaram hegemônicas, aquelas que constituem a face visível da lua, impregnados de traços cisheteronormativos, como apropriadamente sugerido na tese, e em certas circunstâncias abertamente homofóbicos.

Não temos aqui exatamente uma descoberta – desta outra face da lua de um outro planeta –, à maneira como os cientistas naturais anunciam o resultado de suas investigações, mas o retrato de um percurso realizado de forma dialógica. Um dos tantos méritos da tese de Luiza é o fato dela esgueirar-se por entre outras narrativas, sem desconsiderá-las, como se houvesse a necessidade de desmentir ou contrariar alguém. Para começo de conversa, a tese liquida com quaisquer possibilidades de se resgatar um fato novo a respeito da fase de esplendor da Coligay, correspondendo ao seu período em que frequentava os estádios porto-alegrenses, do interior do Rio Grande do Sul e fora dele – a Coligay foi patrocinada por Vicente Mateus para comparecer à decisão do campeonato Paulista de 1977, inclusive. O trabalho foi exaustivo, com pesquisa documental em fontes escritas, orais e imagéticas; com ex-integrantes de torcidas, mas também com jornalistas, atletas, dirigentes e membros de outras TOs do período. Se sobrou algo nesse palheiro, por certo será uma agulha, e não vale à pena revirá-lo.

Ao invés de descartar tudo aquilo que excedesse o período que vai de 1977 a 1983 (ou de 77 a 79, quando a Coligay foi efetivamente assídua nos estádios), a tese trabalha com as reminiscências dessa torcida. Além de criteriosa no método, a tese acerta na abordagem teórica sem necessitar recorrer a citações desvairadas. A história da Coligay não acaba com o desaparecimento da torcida dos estádios, mas segue com seus fragmentos, memórias e reinvenções, formas diversas de existências outras. Aí se destacam, por exemplo, as jocosidades com que os colorados recriaram a Coligay – seguindo uma tendência que já estava estampada nas charges dos anos 70 – transformando-a num adjetivo abjeto para enquadrar os “gaymistas”. Neste caso a Coligay pode ser vista do lado visível da lua, porque retratada como um rótulo.

Nos anos de 2000, e de forma gradativa, a Coligay passa a ser resgatada, até tornar-se um enorme painel no Museu do Grêmio, que agora se orgulha de ter tido uma torcida gay e imagina com isso fixar uma imagem de clube da diversidade, um projeto que purgaria a instituição das acusações de racismo que lhe são imputadas em diferentes momentos de sua história. Há um aspecto marqueteiro nessa estratégia, ainda assim está lá no Museu do Clube, local destinado à consagração de sua história, um painel com a rapaziada faceira metida em trajes e exibindo trejeitos pouco convencionais. Aliás, esta é, sem dúvida, a fase mais politizada da Coligay, pois além de ajudar o Clube a professar sua fé na diversidade – melhor não questionar quão devoto ele é – a Coligay tem servido de inspiração para um TO insipiente, a Tribuna 77, que anda levando à Arena a bandeira do movimento LGBT+ – tempos atrás, até uma faixa em alusão à Marielle apareceu por lá.

Além de um trabalho sério, competente e intenso de investigação, temos uma escrita segura e bem articulada, visando recompor estas diferentes faces e as fases da Coligay. Se ela é tão importante de um ponto de vista epistemológico é porque permite pensar que o torcer tem uma história e, acima de tudo, de que esta história parece estar encompassada por processos, como o de espetacularização/profissionalização, politização e, sobretudo, de virilização (acho que o termo é mais apropriado do que masculinização, pois denota, mais especificamente, um certo ponto de vista ou um modo que se tornou hegemônico de performar e performatizar a masculinidade).

A tese está à altura – e por isso mesmo, nas alturas – de uma empreitada que consiste em espreitar as faces menos evidentes da vida social e, no caso do futebol, as formas de expressão, sejam elas estéticas ou políticas, incompatíveis com a hegemonia econômica – o que temos feito relativamente bem – ou com a proeminência viril – o que raramente nos ocorre, em parte porque a narrativa acadêmica sobre o futebol é quase tão masculina como as demais. A Coligay era escandalosa por gosto, mas estava em vias de ser esquecida, exceto pelas narrativas abjetas. Agora ela recupera seu esplendor e, quiçá, a esperança. Se os estádios já foram uma festa, por que não poderiam voltar a ser?