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Com Abel, o verde volta a ser a cor da esperança

Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Foto: Cesar Greco / Palmeiras / Fotos Públicas

O Palmeiras tem novo treinador! Após a demissão de Vanderlei Luxemburgo no último dia 14, a diretoria anunciou a contratação de Abel Ferreira, jovem técnico português de 41 anos. Apesar da pouca experiência como treinador de equipes principais, tendo comandado apenas o Braga, de Portugal, e o PAOK, da Grécia, Abel mostra ser um nome bastante interessante para tocar o projeto de equipe que a diretoria parece querer.

Sim, parece querer. Os nomes ventilados nesses 15 dias de cargo vago mostraram que o critério principal – talvez único – era ter um treinador estrangeiro. É verdade que dois treinadores estrangeiros dominaram o Brasileirão de 2019, e as três primeiras colocações da competição nacional desse ano também são ocupadas por estrangeiros no momento. Ainda assim, também não nos faltam exemplos de técnicos que vieram de fora do país e tiveram desempenhos muito ruins ainda em 2020, como Jesualdo e Dudamel.

Ter como critério específico a nacionalidade do treinador não é das atitudes mais inteligentes. A opção por Abel Ferreira não se dá por convicção sobre estilo de jogo ou coisa do tipo, mas muito mais um por um “modismo” sobre treinadores que vêm de fora do país. Alguns anos atrás, a moda foram os jovens brasileiros, como Eduardo Baptista e Roger Machado. Depois veio a moda dos medalhões com Felipão campeão, chegando a influenciar até o mesmo o Flamengo na contratação de Abel Braga. Agora o Palmeiras novamente segue a tendência.

Mas mesmo por caminhos meio tortuosos, parece finalmente existir dentro do clube a ideia de que algo tinha que ser diferente. E nossa, como tinha! Como falamos há um mês, o Palmeiras sofria por não ter ideias claras de como chegar aos resultados que desejava, se apegando apenas ao resultado. No momento em que o resultado não veio, o técnico caiu. A diretoria percebeu que esse ciclo de treinadores resultadistas tinha que se encerrar, e mais ainda que não seria encerrado olhando apenas para o Brasil.

Foto: Cesar Greco / Palmeiras / Fotos Públicas

O torcedor palmeirense deve se fazer duas perguntas agora: 1) o que o Palmeiras entrega para Abel Ferreira? E 2) o que Abel Ferreira pode entregar ao Palmeiras? Vamos pensar na primeira pergunta.

Antes de tudo, o Palmeiras entrega uma pressão que Abel nunca sentiu em sua carreira. Ele sai de uma realidade de coadjuvante em times pequenos/médios de Portugal e Grécia para um gigante brasileiro e sulamericano. O Palmeiras tem sempre a expectativa de conquistar títulos, e por mais que seja necessário paciência para que ele possa implementar seu trabalho, seria ingenuidade pura achar que não haverá nenhuma cobrança para que a equipe brigue por troféus ainda nessa temporada.

Ainda no campo da pressão, a gigantesca torcida palmeirense também se destaca como uma das mais exigentes do país. Não é à toa que expressões como “corneteiros” e “turma do amendoim” foram criadas dentro das arquibancadas do antigo Palestra Itália. O clube também entrará em ano de eleição em breve, então não devemos esperar um ambiente calmo e tranquilo.

Dentro de campo, também existirão dificuldades. Luxa deixa um legado praticamente inexistente em termos de ideias e proposta de jogo, e o elenco palmeirense já não tem a mesma força de uma ou duas temporadas atrás. Para tentar manter as contas em dia ou evitar maiores déficits, nomes importantes da equipe foram vendidos e não devemos esperar grandes reposições. O time é o que está aí mesmo.

Mas agora começa a parte boa. O “time que está aí mesmo” não é ruim, muito pelo contrário. O Palmeiras ainda tem um dos melhores elencos do país, atrás talvez apenas do Flamengo. Todos têm a convicção de que a equipe pode render muito mais do que hoje, praticando um futebol moderno e agressivo. Abel nunca comandou uma equipe de potencial tão grande.

A outra boa notícia é a nossa base. Temos hoje uma das melhores categorias de base do país, com múltiplas convocações para todas as seleções brasileiras e vários destaques em competições, como Gabriel Verón, melhor jogador da Copa do Mundo sub17 em 2019. Vários desses garotos já estão bastante integrados à equipe profissional, como o próprio Verón, Patrick de Paula, Gabriel Menino e Wesley. Essa é a marca positiva deixada por Luxemburgo.

E é na questão do aproveitamento de jovens que vemos o que Abel Ferreira pode trazer ao Palmeiras. Ele foi comandante das equipes de base de Sporting e Braga em Portugal. Isso merece grande destaque, visto que Portugal desponta hoje como uma potência europeia no futebol, sendo o atual campeão da Eurocopa e da Liga das Nações, mesmo tendo apenas cerca de 10 milhões de habitantes, menos que todas as outras grandes equipes europeias. Grande parte dos jogadores dessa seleção, inclusive, é formada no próprio Sporting.

Abel também traz um foco maior no coletivo do que no individual. O trabalho de todos os últimos treinadores palmeirenses focava o coletivo na questão defensiva, enquanto a individualidade dos jogadores deveria resolver o ataque. Essa mentalidade, bastante comum entre treinadores brasileiros no geral, criava uma dependência grande demais de atuações destacadas de determinados jogadores. Podemos esperar uma evolução importante nesse sentido.

Por fim, Abel traz ao Palmeiras o chamado “fator novo”, aquele ar de novidade que tira jogadores da comodidade. Serão novas formas de pensar o jogo, novas formas de agir em campo, novos métodos de treinamento. Se víamos muitos atletas que pareciam estagnados em termos de evolução e desempenho, essa mudança pode ser um grande divisor de águas.

Foto: Cesar Greco / Palmeiras / Fotos Públicas

É claro que tudo isso é uma grande aposta. É impossível ter certeza absoluta que agora as coisas darão certo, que o desempenho melhorará, que o time jogará bem e que novos títulos virão. Mas existe uma mudança muito importante: nas últimas escolhas de treinador, tínhamos a certeza de que nada mudaria, de que o futebol seria o mesmo, de que as vitórias seriam passageiras e de que o torcedor continuaria passando mais raiva do que alegria. Um novo treinador, jovem e promissor, nos devolve a esperança de que podemos ver grandes atuações e conquistas de nossa equipe.

Resta saber como tudo isso será na prática. Apenas o tempo dirá se finalmente a diretoria acertou no nome, e para isso Abel também precisará de tempo de trabalho. É difícil esperar uma postura acertada de Galiotte e cia, mas até essa esperança está renovada. Se, como diz o ditado popular, até relógio parado acerta a hora duas vezes por dia, esperamos que essa seja a hora do acerto do Palmeiras!


Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. Com Abel, o verde volta a ser a cor da esperança. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 7, 2020.