03.3

Como estudar o futebol?

Fernando José Lourenço Filho

Mais do que uma simples atividade lúdica, ou esporte (como preferirem), o futebol pode ser considerado um ponto de partida privilegiado para se compreender a sociedade contemporânea como um todo, não apenas em razão de sua quase onipresença mundial, mas também, pois a partir de pequenas pontas, podemos imaginar o tamanho de um iceberg.

A pergunta que fica, tendo isso em mente, é de como é possível realizar isso? Um caminho interessante seria aquele já apontado por hermeneutas, mas não sobre o futebol especificamente, mas válido também para ele, que seria a análise de biografias de pessoas ligadas ao mundo deste esporte. Não apenas grandes ídolos, mas também aqueles jogadores medianos, de carreiras interrompidas precocemente ou preenchidas por poucos feitos dignos de nota, como títulos e/ ou vitórias por exemplo. Mas o atleta é apenas mais um dos personagens que compõe este cenário, há de se lembrar dos torcedores, árbitros, dirigentes, funcionários de clube, vendedores ambulantes etc. Isso sem falar que o futebol, não é apenas o futebol profissional, existe ainda a várzea, o futebol amador, a pelada, as escolinhas. Ou seja, o universo do futebol ultrapassa em muito, as fronteiras demarcadas pelo aparente monopólio do futebol profissional estandardizado.

Outro método para se analisar o futebol, este talvez mais familiar aos historiadores, seria o de perceber o mesmo esporte dentro do conceito de duração elaborado por Fernand Braudel. Mas que conceito é este? Segundo este célebre historiador francês, a história, por ser uma ciência que tem como foco de seu estudo os homens no tempo, tem esse mesmo tempo, grosso modo, dividida em três durações: a longa, a média e a curta que se relacionam entre si. Façamos uso de uma comparação entre a história e o oceano para deixar mais claro o que estou tentando dizer. Imaginemos que a história seja o oceano. O fundo do mar de mudanças geológicas lentas e imperceptíveis dentro do tempo de uma vida humana seria a longa duração. Em um espaço mais intermediário entre as profundezas e a superfície, por onde passam as correntes marítimas, seria a média duração, ou seja, fatos mais rápidos que os anteriores porém só perceptíveis dentro do período de uma vida humana. Enquanto a superfície, com suas ondas e espumas que se transformam constantemente, seriam o fato, o episódio, perceptível no espaço de poucos anos, traduzindo para o conceito braudeliano, isso seria a curta duração.

Como então transpor isso para o universo do futebol? O futebol, assim como todas outras manifestações culturais tem sua própria temporalidade, o que nos permite pensar o conceito de duração dentro do seguintes parâmetros. A longa duração seria, como já dissemos, algo mais lento, talvez fosse possível enquadrar dentro desta perspectiva, a história de um clube, a história de uma seleção nacional ou ainda a história da prática deste esporte em um determinado país ou até no mundo. Restringindo para a média duração, focaríamos nosso olhar para um campeonato ou uma temporada em específico, como por exemplo: a Copa do Mundo de 50, o Campeonato Brasileiro de 71, o Campeonato Paulista de 42, etc. Em outras palavras, seria aquele espaço de tempo um pouco mais curto que o anterior, porém maior que o do evento isolado.

Resta então a curta duração que seria o fato episódico, traduzido para o futebolês, uma partida. Através da análise de uma partida é possível observar tudo aquilo que cerca o futebol e o legitima, enquanto um ponto de observação privilegiado da sociedade e do mundo que circunda esta mesma partida. Melhor do que explicações teóricas, creio que através de um rápido exemplo, possa ficar mais claro o que estou tentando dizer. Selecionemos, por exemplo, o encontro das seleções do Brasil e União Soviética na Copa do Mundo de 1958. Qual era o contexto histórico da época? Guerra Fria, e o Brasil que vivia o auge do nacional-desenvolvimentismo inspirado pelo “50 anos em 5” de JK. Uma política clara de alinhamento ao lado do bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos. Não teria todo esse clima de alguma maneira influenciado na partida? Enquanto historiador sou obrigado a dizer que sim. Quais foram os desdobramentos deste mesmo encontro? Pela primeira vez Pelé e Garrincha (provavelmente os dois maiores ídolos do futebol brasileiro) disputaram juntos uma partida de Copa do Mundo. As diferenças táticas entre as seleções refletindo as sociedades das quais faziam parte (o inovador 4-3-3 brasileiro contra o WM rígido soviético). Percebem a riqueza de possibilidades que um olhar mais atento sobre uma simples partida permite?

Estas foram apenas algumas sugestões de como é possível observar o futebol, mas o leque obviamente não se restringe a isto. O objetivo deste artigo foi o de modestamente iluminar alguns caminhos possíveis para aqueles desbravadores, que dentro do universo das ciências humanas, ousam se aventurar nos estudos sobre o, como dizem os ingleses, beautiful game.