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Como não sabemos lidar com os pecados de um ídolo

Wallace Graciano

Era 23 de outubro deste ano. Em meio às homenagens por seu 80º aniversário, Pelé era alvo de críticas severas por sua conduta mundana, postas à mesa para invalidar os feitos que o fizeram ser eleito o melhor atleta do século XX. Uma semana depois, Maradona, que completava 60 anos, também virava vidraça por motivos semelhantes, não deixando de ser apedrejado nem mesmo em seu leito de morte, 25 dias depois. Em paralelo, as duas figuras mais icônicas e míticas da história do futebol, que vivem o reflexo de uma era em que a lente dos erros mundanos, para alguns, sempre deve ser usada para embaçar por completo a visão do pedestal que foram alçados. É preciso parar de viver com extremos ou viveremos numa eterna luta de narrativas em que uma anula a outra.

Antes de tudo, que fique claro: a genialidade do Pelé ao tratar a bola não foi vista por Edson – como ele mesmo gosta de separar – para lidar com vários assuntos que norteiam sua vida. O Rei do Futebol, sem a melhor amiga aos pés, foi, sim, um perna de pau por suas condutas machistas, por relativizar o racismo e de sua história conturbada com a paternidade, entre outras atitudes relembradas no período. O mesmo se aplica a Maradona, que foi condenável por suas agressões à ex-esposa, por sua homofobia, por agressões a jornalistas, entre outras posturas que merecem ser levantadas. Porém, ao utilizarmos essas falhas para ofuscá-los, perdemos o poder que eles podem nos oferecer pelas figuras as quais foram postos.

Afinal, pelo encanto que nos propiciaram a cada domingo, Maradona e Pelé foram alçados a um patamar em que se tornaram respostas para afastar nossas frustrações e validar nossas ideias. Nossos valores passaram a ser dramatizados por eles, que viraram nossos espelhos por arquétipos que sequer possuíam, como o de um líder popular, por exemplo. Ou seja, com o tempo, passaram a ser analisados somente por sua totalidade.

E ao usar essa narrativa de invalidá-los como figuras dignas de um panteão próprio e desmerecer toda sua obra, deixamos de utilizá-los como exemplos para que suas condutas não sejam repetidas. Afinal, ninguém nasce com compreensão do mundo, de sua figura social ou política. Somos frutos de construtos ao longo da vida e somente tomamos percepção de nossas falhas quando expostas a elas, e nada melhor que um ídolo ou espelho para apontá-las.

O que quero propor é que precisamos discutir, sim, Maradona e Pelé. Que reconheçamos suas obras e saibamos condená-los por seus pecados, não as colocando como extremos opostos, mas que uma dialogue com a outra, não que se anulem. Que as ações dentro de campo nunca sejam desassociadas de fora das quatro linhas, mas que as condutas que lamentamos não invalidem o que construíram, como alguns entendem. Até porque, eles precisam aprender e nos ensinar com esses erros. 

Por ser o maior atleta do século XX, Pelé não está eximido de ser criticado por condutas deploráveis, assim como não pode deixar de ser exaltado por seus feitos e por quem representou. O mesmo se aplica a Maradona, que foi um herói por encarnar a dor um povo que ainda chorava pelos filhos mortos em uma guerra perdida, a qual generais viam do conforto de seu lar, mas que escancarou comportamentos que não queremos ver novamente.

Se eles são deuses do futebol e merecem a apreciação eterna pelo o que fizeram em campo, busquemos nas religiões gregas e africanas a inspiração para debatê-los fora deles. Afinal, nelas, os deuses e mitos também erram e nesses erros temos exemplos valiosos.

Foto: Reprodução Facebook

Assim, que a Pelé seja dada sua eterna coroa de Rei do Futebol. A Diego, o descanso e paz, pois, como bem disse,  “eu me equivoquei e paguei, mas pelota não se mancha”. A nós, a história escrita, para que possamos contá-la e utilizá-la para nos sensibilizar, emocionar e educar.


Como citar

GRACIANO, Wallace. Como não sabemos lidar com os pecados de um ídolo. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 5, 2021.