131.22

“Como se joga o football?”: uma viagem pelos guias e manuais de futebol

Fernanda Ribeiro Haag

O futebol é conhecido pela sua diversidade. Sabemos que a pelota pode rolar nos mais diferentes lugares. Além disso, o dito “esporte bretão” tem uma capacidade de estabelecer relações múltiplas. Se você é daqueles que vê futebol em tudo, sabe do que estamos falando. Neste texto, a ideia é explorar a tabelinha do jogo de bola com as publicações editoriais. Para sermos mais específicos, vamos desbravar o mundo de um tipo específico de publicação textual sobre o futebol: os guias e manuais.

O leitor pode estar se perguntando: o que “raios” seriam manuais de futebol? Para esclarecer, não estamos falando de guias que especificam os torneios disputados em determinado país, ou aqueles que abordam quais times seriam mais vencedores etc. Não! Estamos falando de guias e manuais que, do início até meados do século XX, buscavam explicar as regras e as formas de jogar o futebol, ou seja, vão ensinar como dar um chute, um drible; quais seriam as funções de um defensor ou do atacante; e, claro, quais seriam os termos e as regras desse esporte.

Para entendermos qual é a lógica da existência de tais publicações, vamos ter que voltar no tempo fazendo um exercício de vermos as coisas com o olhar do seu respectivo contexto. Do final do século XIX até a metade do século XX, o mundo viveu um fluxo intenso de mudanças, atingindo todos os níveis da experiência social e gerando, inclusive, novos hábitos e experiências. O futebol, assim como vários outros esportes modernos, é fruto desse processo.

Como era uma novidade, o futebol precisava ser explicado e aprendido ao redor do globo para conseguir se popularizar. É no meio de tudo isso que a constituição do regulamento do jogo se torna tão importante. A codificação das regras tem seu marco em 1863 com a Football Association lá na Inglaterra. Contudo, esse processo não é definitivo e nem se encerra nesse momento. Basta pensarmos que, até então, havia 14 regras. Já o futebol como jogamos hoje tem 17. Obviamente, as mudanças não se restringiram à quantidade de normas, mas a própria forma de jogar estava em construção. Só para exemplificar, a figura do árbitro surge em 1868 e só passou a apitar pênaltis em 1894; a lei do off-side (se você é mulher, alguém já te perguntou se você a entendia) surgiu em 1867; e o estabelecimento de 11 jogadores por time veio em 1876.

De toda forma, o que nos salta aos olhos é o anseio pela regulamentação e disciplinarização tão típico daquele contexto em que era preciso “se modernizar”. Os guias tiveram um papel fundamental na difusão e universalização das regras e formas de jogo(s). Podemos lembrar aqui o caso do baseball nos EUA, onde os manuais — com ampla tiragem para a época — auxiliaram na profissionalização precoce da modalidade e no crescimento do mercado editorial. Ou seja, os esportes não se expandiram somente pela prática, a sua consolidação (alguns mais, outros menos) também foi marcada pela escrita e pelos livros.

No Brasil, o futebol chegou por diferentes caminhos, de Charles Miller e Oscar Cox aos estudantes do colégio São Luís, passando pelos trabalhadores de ferrovias e portos e muitos outros. Mais do que determinar paternidades históricas, é interessante compreendermos esse processo histórico diverso e a relação com os diferentes estratos sociais. Tudo isso para apontarmos que os guias e manuais, sobretudo, os primeiros, estavam muito ligados à classe social dominante. Desde a sua elaboração e publicação, até aos seus leitores. Ainda que, com o tempo, as publicações também tenham se popularizado.

Mas chega de enrolação, vamos pôr essas publicações em jogo! Para esse texto, escolhemos sete guias ou manuais publicados no Brasil, entre 1903 e 1950. É, de fato, um período longo e vamos perceber mudanças nesses materiais e, obviamente, no contexto histórico. Nossa escalação ficou a seguinte: Guia de Football, escrito por Mário Cardim e Luiz Fonseca; um manual com título homônimo ao anterior escrito por O. T. Oliveira; o de Leopoldo Sant’Anna, intitulado Regras officiaes do futebol; o Diccionario de futebol, de autoria de Guy-Gay; a obra de Victor de Mattos com o título bem simples Foot-ball; Bases e Metodologias do treinamento de Futebol, de Inezil Pena e Romeu de Castro Jobim; e Conheça o futebol! O jôgo e suas regras, uma tradução feita por José Brígido do manual Know the Game, publicado na Inglaterra. Você pode ver o ano e local de publicação deles no infográfico abaixo:

 

Mesmo com obras diferentes, de locais e anos distintos, podemos traçar aspectos comuns a todos eles. O primeiro, claro, a intenção de divulgar as regras e difundir o futebol ao redor do país. Faziam isso também provando a já existente popularidade da modalidade, como nos mostram Inezil Pena e Romeu de Castro Jobim:

O futebol representa o desporto favorito do povo brasileiro. Não há cidade, aldeia ou povoado no interior do Brasil que deixe de possuir estas duas coisas: uma igrejinha e um campo de futebol. De tal maneira, se encontra o futebol imiscuído entre os hábitos do brasileiro, de norte a sul, de leste a oeste, que seria absurdo se, por acaso, se pretendesse modificar êsse estado de coisas. Podíamos dividir a população do Brasil em dois grandes grupos: o dos que praticam o futebol e o dos que assistem ao futebol. (PENA; JOBIM, 1945)

O tom e a preocupação nacionalista e ufanista também estão sempre presentes em nossos guias. Havia uma centralidade na relação entre o Brasil e o futebol. Lembramos aqui que a questão nacional era um tema muito caro nessas décadas, compreender o que era ser brasileiro, o que era a brasilidade. Não à toa, a relação entre futebol e Brasil se tornou tão simbiótica nesse período. Apesar disso, a influência estrangeira pode ser percebida em vários dos manuais, sobretudo, a inglesa. Antes de tudo, vamos lembrar que muitos dos termos usados nos guias eram em inglês: football, corner, foward, center half. E o nosso último manual, em 1950, é simplesmente uma tradução da versão inglesa.

Outro aspecto é a perspectiva masculina dos textos. Eles são escritos, elaborados e publicados por homens — grande parte de seu público leitor também é composto por eles. O futebol é um espaço hegemonicamente masculino, mulheres precisam conquistar o seu espaço, não é dado a elas. Isso fica claro nos manuais também. Há ali, inclusive, construções de masculinidades. Como os homens deveriam agir e ser na sociedade. Sobretudo, os primeiros manuais são direcionados aos chamados sportsmen. Se você assistiu ao English Game na Netflix, pode considerar que seriam a versão brasileira dos jogadores do Old Etonians. Ou seja, aqueles homens pertencentes basicamente à classe dominante, brancos, e que gostariam de diferenciar a sua prática futebolística das demais existentes e pertencentes às camadas populares. Nesse sentido, os manuais também são importantes para realizar essa diferenciação e enunciar um “tipo” específico de futebol.

A preocupação com o corpo, a defesa de um corpo sadio e a perspectiva atlética estão presentes em todos os manuais. O que é completamente coerente com a mentalidade do “corpo são, mente sã” bem famosa na época, assim como os ideais higienistas e o incentivo e crescimento da educação física — influenciados aqui no Brasil pelas escolas alemã e francesa e a inglesa com seu viés lúdico, vide o crescimento de jogos. Alguns temas também se tornam recorrentes: a etiqueta a ser seguida no futebol; a defesa do jogo de combinação, ou seja, antes de tudo o futebol é um esporte coletivo e que depende do toque de bola — muitas vezes, vemos ponderações sobre o uso do drible; a relação entre o esporte e a juventude, na ideia de formar adultos saudáveis; a explicação do bê-á-bá do futebol e as aptidões de cada jogador.

Obviamente que percebemos diferenças e peculiaridades nos sete guias. A forma da escrita vai se modificando, termos em inglês vão diminuindo, e o texto começa a ficar mais técnico. Podemos relacionar isso com a profissionalização do esporte e com o fato de que os manuais passam a se direcionar àqueles que trabalham com isso e não ao público geral. Nesse sentido, o público central dos manuais deixa de ser o sportman para se tornar o atleta ou o treinador. Assim, também não eram dirigidos às massas, pois essas se relacionavam com outros tipo de literatura futebolística, principalmente, as da imprensa esportiva.

Cada um deles também tem um aspecto especial. Destacamos aqui no Guia de Football de Mario Cardim e Luiz Fonseca, por exemplo, a descrição dos horários dos bondes que iriam para os jogos, além do estatuto da Liga Paulista e o relato de um Campeonato Brasileiro denominado Taça Brazil. O Guia de Football de O. T. Oliveira traz a história do Sport Club Pelotas. O Regras Officiaes do Futebol Associação e o Dicccionario de Futebol pautam a tradução dos termos ingleses para o português, colocam como uma bandeira fundamental. O livro Foot-ball, pertencente à Coleção Esportiva Globo, dedica-se a fazer um histórico geral do futebol, voltando até à Grécia e Roma Antigas nessa trajetória. O Conheça o Jogo! coloca as imagens em campo. É um guia ilustrado e bem didático, publicado no contexto da Copa de 1950 e focado na explicação do jogo.

Página do manual ilustrado “Conheça o futebol! O jôgo e suas regras”

Para terminar nossa jornada através dos guias e manuais, queremos destacar o que eles falavam sobre as características e aptidões de cada jogador. Para isso, vamos escalar o time, do goleiro ao atacante, com base nesses textos. A partir daí, você pode descobrir em qual posição jogaria no começo do século XX! Mas, antes, vamos saber o que era necessário para ser um jogador de futebol, sem pensar especificamente em uma posição:

O football é um jogo que para conhecel-o com perfeição, é necessario aprendel-lo na meninice. Não será um footballer completo aquelle que começar a jogal-o depois de haver passados os dezoito annos. Até agora tem sido a pratica a única forma de aprender o football entre nós. Estou convencido que 90% dos que se dedicam a esse saudavel e varonil exercício, não tem aberto um livro que contenha os regulamentos e leis de conformidade com as quaes se deve jogar. Entretanto, na minha opinião, ninguem devia começar a jogar antes de ter estudado as leis respectivas e sem ter assistido a matches corretamente jogados. (…) Calma e serenidade são também condições essenciaes. Nunca perder a cabeça e sim fazer tudo obedecendo sempre a um plano mathematico, do qual só se sahirá em circumstancias extraordinárias. (OLIVEIRA, 1912)

E aí? Tem calma e serenidade para o jogo? Já leu os regulamentos? Começou antes dos 18? Enquanto você reflete sobre isso, vamos escalar nosso goleiro:

Não ha duvida que se nasce goal-keeper, como se nasce musico, pintor, esculptor, etc, — mas é necessario cultivar qualidades naturaes, como o fazem aquelles, para que dêm todo o fructo de que são capazes. (OLIVEIRA, 1912)

Deve ser escolhido dentre aquelles mais dotados sob o ponto de vista do sangue frio, agilidade, corpulência e altura. Como se vê, é sufficiente um segundo de hesitação por parte do goal-keeper para que o goal seja vasado; elle não tem tempo de reflectir duas vezes, sua decisão deveser rapida e segura e a ella deve seguir-se uma execução tão prompta como o pensamento. Deve-se exigir do goal-keeper todas as qualidades inherentes ao bom jogador, taes como: decisão prompta e sangue frio, agilidade e força physica, e uma como que obediencia rapida dos musculos á vontade, que faça passar immediatamente da immobilidade á ação. (CARDIM, 1906)

Diferente de Beauvoir alegando que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, para Oliveira, ser goleiro é uma característica natural! Vamos agora para o nosso setor defensivo, ou como se dizia na época aos backs: fullbacks, half-backs e o center-halfback. Grosso modo, os fullbacks e o center-halfback são análogos aos nossos defensores ou zagueiros de hoje em dia. Os half-backs deveriam se postar no meio de campo cuidando tanto do ataque quanto defesa, mais ou menos como nossos meio campistas atuais, que com o passar do tempo foram se aproximando mais do ataque, a não ser os volantes, os quais mantiveram as características defensivas. Sobre os zagueiros:

A missão os backs em um team de football está limitada exclusivamente á defeza. Por consequência, para ser efficaz, deve o back ser de compleição robusta, forte e vigorosa, si fôr possivel ligeiro; deve ainda usar os dois pés para o shooting e utilisar a cabeça em determinados casos. Em suas resoluções deve ser instantaneo, pois como sua intervenção é requerida, quando sua équipe está em perigo, toda demora póde custar-lhe cara. (…) Tem que haver um entendimento perfeito entre os dois backs e devem prestar-se auxilio reciproco nos casos que seja necessario. É isto da maior importância. (OLIVEIRA, 1912)

E sobre os half-backs, que devem apoiar tanto o ataque quanto a defesa:

Um bom halfback, para poder desempenhar as funcções que lhe são confiadas, deve saber deliberar com rapidez para reagir contra a tactica dos forwards do campo adverso afim de não lhes dar tempo de pol-a em pratica. Emfim, elle deve jogar segundo as necessidades do momento, deve poder tornar-se util tanto no ataque quanto na defesa. Será escolhido dentre os mais ageis, pois terá como missão ir arrebatar a bola de um adversario, ou obrigal-o a passal-a. (CARDIM, 1906)

Mas como se futebol se faz com gols, chegou o momento de escalarmos o nosso ataque, ou a famigerada linha de forwards, como era chamada nos manuais. Para não restar dúvida, Oliveira explica qual seria a função dos atacantes: “O primeiro e principal dever dos forwards é levar a bola em direção ao goal contrario”. Como eles deveriam fazer isso? O que era exigido de um atacante?

Domínio da bola na corrida; controle da bola com a cabeça; chute com ambos os pés; chute violento; visão da meta; precisão nos passes; segurança nos driblings. O jôgo de corpo, esquivas, é fator que deverá ser considerado, pois auxilia iludir o adversário, possibilitando maior êxito ao arremate final. (PENA; JOBIM, 1945)

A característica do posto de forward é a extraordinária rapidez que requer seu desempenho e o movimento quase continuo em que se encontram desde o principio até o fim do “match”. O exito de um forward depende principalmente de sua ligeireza. Têm tambem, que ser infatigavel, pois deve estar em condições de manter a rapidez que exige o seu posto durante todo o tempo que dura o match.

Para fechar a escalação, como escolher o capitão do escrete? Lembrando que nos primórdios do futebol em terras tupiniquins: “Comandante do quadro é êle quem escolhe a tática do jôgo, as posições para os seus companheiros” (MATTOS, 1938). Ou seja, o capitão também escalava o time. A escolha precisava ser cautelosa:

O capitão tem o papel tão importante, que o êxito de uma pugna depende, quasi sempre, de um bom capitão. Êle é “cabeça” do “corpo” de jogadores. A êle se deverá dar obediência cega. O capitão deve possuir, além de qualidades morais para dirigir, inteligência e conhecimento completo das regras. (MATTOS, 1938)

As numerosas qualidades que deve possuir um jogador para desempenhar convenientemente as funcções de capitão de um team são as mesmas exigidas de um general; seu team, que precisa ter uma confiança ilimitada no seu chefe, é um pequeno exercito que elle deve saber commandar, instruir e dirigir. O capitão do team deve ter qualidades especiaes, innatas. Ninguem se transforma em um bom general, pois a sciencia do commando não está ao alcance de todos, nasce com o indivíduo. De uma manobra do capitão depende muitas vezes a victoria de um team. (CARDIM, 1906)

A associação do capitão a um general nos revela muito daquela sociedade, o seu viés fortemente disciplinador e a crença em capacidades que não seriam desenvolvidas socialmente, mas naturais a determinadas pessoas. Na verdade, lembramos que todas as qualidades e aptidões enunciadas pelos manuais, assim como todo o seu conteúdo, são janelas importantes para pensarmos como era aquela sociedade, podemos vislumbrar um pouco a forma que aquelas pessoas pensavam, quais valores tinham. É por isso que o futebol é tão fascinante! Quando dizemos que “é só futebol!” é porque o futebol abarca tudo isso!

Como todo o jogo acaba e o árbitro ergue o braço, chegamos ao fim dessa breve jornada pelos guias e manuais. Esperamos que você, leitor, tenha aproveitado e pensado junto conosco na tabelinha entre o futebol e as publicações editoriais. Lembramos que esses textos também cumpriram um papel importante na divulgação e popularização do esporte no Brasil. Ainda que fossem a expressão literária de uma classe social específica — sobretudo nas primeiras publicações — e com interesse em determinar qual seria o futebol legítimo, foram importantes para que a modalidade alcançasse um crescimento significativo e até a sua profissionalização.

Os manuais:

CARDIM, Mario. Guia de Football. Liga Paulista de football. São Paulo: Casa Vanordem, 4ª edição, 1906.

FOOTBALL ASSOCIATION LONDRES. Conheça o Futebol! O jôgo e suas regras. BRÍGIDO, J. (trad). Rio de Janeiro: Editora Paulo de Azevedo Ltda, 1950.

GAY, Guy. Diccionario de Futebol. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 193X.

MATTOS, Victor. Foot-Ball. Porto Alegre: Edição da Livraria Globo, 1938.

OLIVEIRA, O. T. Guia de Football. Pelotas: Officinas da Livraria Universal, 1912.

PENA, Inezil; JOBIM, Romeu Castro. Bases Gerais de Metodologia do Treinamento do Futebol. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945

SANT’ANNA, Leopoldo. Regras Officiaes do Futebol Associação. Associação Paulista de esportes Athleticos. São Paulo, 1930.

 

*Mantendo a tradição da Pelota, você pode acompanhar esse texto ouvindo a música Brasil Pandeiro cantada pelos Novos Baianos:


Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

 

Como citar

HAAG, Fernanda Ribeiro. “Como se joga o football?”: uma viagem pelos guias e manuais de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 22, 2020.