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Companheira Dilma é atleticana: Galo 3 a 0 no Colo (Colo)

Gustavo Cerqueira Guimarães

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Quarta-feira, dia do jogo de volta do Atlético Mineiro contra o Colo Colo no Independência pela quarta rodada da Libertadores, eu sonhei com o Marcos Rocha. Eu acordei em desvario, assustado. Eu sonhei que o nosso lateral-direito, moço novo dali de Sete Lagoas, tinha sido esfaqueado após uma partida em casa por torcedores do próprio clube. E mais: ele foi es-quar-te-ja-do. Eu vi claramente os braços, cabeça e o tronco, com as pernas, apartados. Logo, tentei dar sentido ao impactante pesadelo que me despertou pela manhãzinha, entende, Sebastião?!

Contei isso pra um amigo ao telefone, ele disse que era sinal de que o Rocha, coadunando com o I Ching que eu havia lançado no início da Libertadores para saber a sorte do Galo na competição – e contei por aqui –, iria mesmo se “matar” em campo no combate de logo mais à noite. Não apaziguado, tentei inverter o jogo e pensar que o sonho seria por causa dos avanços do lateral-esquerdo Beausejour, que apoiou com força sem igual no 0 a 0 em Santiago na semana passada. Eu estava presente e pude observar para-fora-das-lentes-da-tevê a pressão exercida para cima do Rocha naquele espaço direito do campo, com o Luan voltando para marcar esse adversário que muito encarna a tradição das forças mapuches colocolina.

SANTIAGO/ CHILE 10.03.2016 Atlético x Colo Colo no estádio Monumental - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Marcos Rocha em ação na partida entre Atlético e Colo Colo no estádio Monumental de Santiago pela- Copa Libertadores 2016. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

 

Mas fui me recobrando dentro daquela quarta-feira, veloz, e colei o sonho à situação surpreendente da crise política no Brasil – sem pés, nem cabeça. Neste dia, o Lula aceitou a indicação da Presidenta para assumir a Casa Civil. A oposição e a parte da mídia consideraram essa atitude equivocada uma vez que o Ex-Presidente foi denunciado na última quinta-feira pelo Ministério Público Estadual de São Paulo no caso de um imóvel no Guarujá, sob acusação de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Mais ainda: tudo-de-ruim-no-mundo que o Lula representa por uma fração do país – “um demônio-ladrão-vai-pra-cadeia!”. Tudo isso foi disseminado em um clima nada amistoso pela tevê e pelas ruas, redes sociais e rádios. Assim, aos gritos de “Lula, vai tomar no cu!”, o clima ferveu no Horto por volta de meia hora antes de iniciar o jogo em que o Galo enfiou sonoros 3 a 0 no Colo Colo.

Então, associei o sonho igualmente à manifestação dos que reivindicam o impedimento de Dilma sem fundamentação legal para tanto. Ou seja, analisando os sinais oníricos de maneira deslocada, eles representariam o esquartejamento do corpo da lei, a violação da Constituição de nosso país. Portanto, 1 a 0 pra Dilma.

Outra cena infeliz, mais particularizada, ocorreu no banheiro do estádio, momento em que ouvi dois amigos conversando lado a lado:

– Esse Lula é um bandido mesmo, né?!, diz. E ainda vocifera: – Tem que gritar mesmo: Fora Dilma! vaca!, vagabunda!

– É… ela deveria renunciar… mas não vai não. Ela é muito orgulhosa. É uma vergonha o que está acontecendo neste país.

– Fora Dilma! vaca!, vagabunda, comunistaaaaaaaaa! Vai pra cadeeeeeeeeia!

– O país desgovernado por uma mulher desse jeito.

– A gente paga imposto. A gente é uma classe que sustenta este país. Tomar no meio do cu! Tá roubando nosso dinheiro.

Bem, talvez seu afastamento do Governo nesta altura do campeonato, como também exige a oposição, não seja bem uma questão da ordem do orgulho, mas acima de tudo de honrar compromisso feito com cinquenta e quatro milhões e meio de eleitores. Por que ela sairia? Afinal, nunca foi configurado qualquer desvio de conduta por parte da Presidenta: 2 a 0.

BELO HORIZONTE / MINAS GERAIS / BRASIL 16.03.2016 Atlético x Colo Colo no estádio Arena Independência - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Jogadores do Galo comemoram o segundo gol da equipe marcado por Patric. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

 

A terceira e última cena “política”, que só conta em favor do próprio adversário, foi novamente presenciada na arquibancada, mas agora mais inserido na trama, um cara empurrou o outro pra baixo da arquibancada, caindo em cima de mim. O agressor estava ainda disposto a partir para atritos mais fortes, porque não suportou ouvir o cântico do cidadão governista entoando seu apoio: “Lula lá, brilha uma estrela. Lula lá, cresce a esperança. Lula lá…”. O moço de uns quarenta anos não conseguiu terminar a canção, porque a resposta do antigovernista foi rápida: “cala essa boca, petista filhadaputa!”, seguida de um safanão, tipo um tapão ao pé do ouvido, que o fez cair da arquibancada. Ao mesmo tempo, as namoradas entraram no meio igualmente exaltadas: “que isso, gente?!, Para! Aqui é futebol, não é política!”. Foi o que elas improvisaram ali, em pé de guerra, para separar aqueles corpos odiosos.

Já não há como negar que o estádio de futebol é um espaço para manifestação política, tanto é que ocorreu. O próprio silêncio é uma manifestação política, não é possível estar fora. Torço para que as reivindicações de certa oposição sejam ouvidas com mais atenção, mas não deixo de escutar as vozes dissonantes manifestadas no Independência e que hoje soarão mais fortes nas ruas. É muita covardia impedir por meio de atos violentos que uma voz minoritária ecoe, cartão vermelho pro agressor, 3 a 0 Dilma – números finais.

Não engrossarei o coro a favor da prisão de Lula (sem ser investigado e condenado) e de impeachment da Presidenta, muito menos vou endossar a violência praticada por muitos pelo fato de não suportarem a alteridade. Não consigo mais ler os argumentos falaciosos de quem está a favor de tais posicionamentos, pois não conseguem antever nada para melhorar a situação. Não há proposição de linhas de fuga, de saídas que não seja a ideia fixa de impedimento da Presidenta. E quem assumiria o Governo?

BELO HORIZONTE / MINAS GERAIS / BRASIL 16.03.2016 Atlético x Colo Colo no estádio Arena Independência - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Festa da torcida do Galo antes do início do jogo contra o Colo Colo pela Libertadores da América. Foto: Bruno Cantini / Clube Atético Mineiro.

 

De volta ao combate da noite, os jogadores entraram em campo, a torcida, como de costume, gritou o nome de cada um: Giovanni; Marcos Rocha, Leonardo Silva, Erazo e Douglas Santos; Rafael Carioca, Júnior Urso e Cazares; Luan, Lucas Pratto e Patric. Isso mesmo, Pa-tri-c, antes odiado e hoje herói. Deu-se o pontapé inicial e logo no primeiro minuto Cazares, o melhor em campo, fez o primeiro gol. Patric, o alegórico, fez o segundo no minuto final, elevando os ânimos dos torcedores antes do intervalo. Hyuri, grata surpresa nesta temporada, fez o terceiro, momento em que o estádio virou uma festa e não teve mais lugar para as manifestações políticas. Osvaldo Reis, sintonizado com a situação do país, narrou da seguinte forma o caminho da vitória: (http://globotv.globo.com/sportv/taca-libertadores/v/redacao-am-narrador-de-minas-gerais-cita-chico-buarque-em-gol-do-atletico-mg/4890223/). O narrador Pequetito lembrou alguns versos da canção “Meu caro amigo”, de Chico Buarque e Francis Hime, composta em período de ditadura. 

Comecinho do jogo (…) é lindo lance de Patricão ajeitou para Luan de fora da área bateu a bola explodiu na grande área Cazares vai fazer bateu é gol gooooooooooooool é do Gaaaalooo do Galo Galão doido Galão doido Cazares o equatoriano no primeiro minuto aqui no Independência levanta de vez a massa em preto e branco aqui na terra tão jogando futebol tem mundo samba muito choro e rock’n’roll uns dias chove noutros dias bate sol mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta muita mutreta pra levar a situação que a gente vai levando de teimoso e de pirraça e a gente vai tomando que também sem a cachaça ninguém segura esse rojão é rojão pro Galo no comecinho do jogo no primeiro minuto.

Não há mais espaço para aquele “galo doido” da Copa do Brasil de 2014 e o vice-campeão do último Brasileirão, cuja zaga jogava avançada demasiadamente, desgovernando-se. A defesa sofreu quarenta e sete gols nesse campeonato, curiosamente levou um gol a menos do que o último colocado, o Joinville, e dois gols a menos que o penúltimo, o Goiás. Hoje, no entanto, o Atlético apresenta uma defesa posicionada bem mais atrás da linha adotada anteriormente, com os laterais e volantes muito mais atentos na marcação. Um time seguro, um jogo magistral, o melhor jogo do ano. Foi perceptível, desde o início, que o time não perderia a peleja. E, neste dia, algo valeu a pena, a raça do Galo – postura também adotada pela Presidenta, insinuando uma melhor maneira de se defender, cercando-se de amigos (não vou nem me lembrar do PMDB).

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Presidenta Dilma Rousseff recebe camisa do Atlético em visita às obras do Mineirão em 2011. Foto: Clube Atlético Mineiro.

 

E o Atlético agora descansa na Libertadores e joga no dia 06 de abril no Equador contra o Independiente del Valle; antes, ainda, haverá o clássico contra o Cruzeiro e outros jogos pelo Mineiro. Mas se instaurada uma guerra civil, já nem sei se haverá jogo, já nem sei se volto a escrever, já nem sei. A situação está polarizada. Espero que a Dilma vença mais esta batalha, como foi nas urnas, pois foi com retidão, até que se prove o contrário. Sendo assim, não haverá golpe, e se houver prefiro o lado dos derrotados.  Tenho visto tudo preto!, ou tudo branco!, tudo cinza… mas com fagulhas, esperança de que dias melhores virão. Muita seriedade, minha gente! Quem disse que seria fácil?