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Competições irrelevantes

Leandro Marçal

No meio da discussão sobre qual clube teve a maior média de renda durante o campeonato, me distraí e comecei a olhar para a rua, me atentar a pequenas coisas distantes da mesa, antes que o garçom trouxesse mais uma garrafa de cerveja para beber naquele happy hour.

Na beira da calçada, uma moça se aproximou de um rapaz. Mentalmente, apostei meu salário comigo mesmo: ela chegaria ao outro lado antes dele. Perdi e ganhei ao mesmo tempo.

A cerveja chegou e o papo continuava. Eu era o único alheio ao papo sobre aspectos pitorescos do mundo da bola. Meus amigos disseram que eu estava viajando, como de costume. Insinuaram alguma erva diferente no chá da tarde. Dei um sorriso amarelo, enchi o copo de todos e segui dando bicadas leves na bebida sagrada.

Foi quando o semáforo fechou na esquina do boteco. Um carro pequeno e vermelho parou ali e uma jovem distraída olhava o celular. A SUV parou ao seu lado com um sertanejo universitário tocando bem alto, para a galáxia toda ouvir. O cidadão bombado, com uma tatuagem no braço esquerdo, tinha cara de viciado em academia.

Mentalmente, apostei comigo que o cidadão bombado aceleraria o quanto pudesse assim que o sinal estivesse verde. Seria uma ofensa que o pequeno carro, ainda por cima vermelho, saísse à frente daquele veículo que era seu orgulho, quase uma extensão do pênis à mostra de todos por onde passava. Ganhei e perdi novamente: ele se sentiu um piloto de Fórmula 1. A moça do carro vermelho olhou para o lado, deu de ombros e seguiu seu trajeto.

Torcedores da Arábia Saudita durante a partida amistosa entre Arábia Saudita e Brasil no Estádio King Saud University Stadium em Riyadh na Arábia Saudita. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Na mesa, o papo agora era sobre quanto os goleiros dos principais times do estado ganhavam. Um deles pesquisou as folhas salariais dos clubes. Foi este o que abriu um sorriso de orelha a orelha, já que seu guarda-metas tinha um polpudo salário inalcançável para nós, pobres mortais, e à frente dos outros, ricos rivais.

Então, observei um simpático casal recebendo a conta na mesa. Eram recém-apaixonados, me parecia. Fiz duas apostas comigo, outra vez. Primeiro, a de que ele faria questão de pagar tudo. Ganhei, como de costume. A segunda competição minha contra eu mesmo foi de que ele puxaria um cartão de débito, não tocaria em notas sujas. Perdi: ele pagou no crédito. Mas também ganhei.

Antes de pedirmos a nossa conta, o papo era sobre amistosos da seleção brasileira contra países distantes, desses que não somos capazes de citar dois ou três clubes profissionais de primeira divisão. Apostei comigo que haveria quem levasse aquilo a sério, outro surgiria como ferrenho crítico ao trabalho e à confederação da camisa amarela, sem acreditar em interesses desconhecidos para as convocações. Poderia aparecer quem torcesse por derrotas apenas para nadar contra a correnteza em dias de Copa do Mundo.

Perdi mais uma, pensei em silêncio, aos goles da saideira.