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Confissões de um comedor de papoula

Alexandre Rodrigues

Era meu quinto dia de emprego quando o chefe perguntou se eu queria comer papoula. Respondi que sim. Outros dois colegas fariam o mesmo, para vermos se ia dar heroína no teste. Às 3h30 da manhã do dia seguinte, um sábado, abri um pãozinho (cacetinho no Rio Grande do Sul), passei manteiga e distribuí as sementes para servir de recheio. Pus tantas que o pão ficou coberto de grãozinhos pretos. Um gosto horrível de queimado.

Papoula. Foto: Andrew Gustar/Flickr.

Nos encontramos os três às 9h na frente da clínica. Cada um urinou em um copinho e entregou, nos despedimos e voltei para casa. Depois de tomar café da manhã, telefonei para o jornal em busca do resultado.

Na manhã seguinte, 15 de dezembro de 1997, o jornal Zero Hora estampava o texto de um dos colegas, Alexandre Corrêa: o teste tinha dado positivo para morfina, que em geral indica o consumo de heroína. Não apenas positivo, mas cinco vezes a quantidade de heroína necessária para ser detectada. Era a prova necessária para salvar Anderson, volante do Internacional, julgado na Justiça Desportiva por doping.

Em 15 de dezembro de 1997, Zero Hora deu capa para a final do Brasileiro entre Vasco e Palmeiras. Mas o destaque maior foi para o drama do volante Anderson.

Anderson Luís Schweitzer, hoje com 41 anos, tinha 23. A poucas rodadas do fim do Campeonato Brasileiro, foi suspenso. O laboratório atestava ser grande a quantidade de morfina (um alcaloide sintético produzido a partir da semente de papoula que indica o uso de heroína e de ópio). Estapafúrdio — quem, perguntavam todos que viram o filme Trainspotting, vai usar heroína e depois conseguir jogar futebol? — , o resultado foi levado a sério e um julgamento, marcado.

“Eu não era do tipo técnico. Dependia do meu físico, então treinava muito e não tomava nem aspirina”, diz Anderson.

O escândalo respingava no clube. O Inter fizera no Brasileiro sua melhor campanha em muitos anos e só na última rodada perdeu a chance de ir à final. Na equipe, a primeira de destaque comandada por Celso Roth, as estrelas eram a dupla de ataque Christian e Fabiano, mas no meio o vigor e a firmeza de Anderson, o volante louro nascido em Santa Catarina que corria e marcava como um discípulo de Dunga, davam a garantia defensiva. Não é muito alto — 1,81m — e nem forte demais durante a carreira. Não era habilidoso, mas reunia as características — vigor, força, aplicação — geralmente atribuídas no futebol a uma qualidade: eficiência.

Tanta eficiência, desconfiavam muitos, só podia vir de estímulos desleais. Entrava nisso o preconceito pela imagem de violento do jogador do Rio Grande do Sul que predominou a partir do Grêmio de Felipão e até Ronaldinho Gaúcho sair driblando pelo mundo. Tudo discutido em poucos dias em um dos primeiros casos que se espalhou no Brasil com a velocidade da internet.

Atônitos, dirigentes começaram a discutir o que fazer. A primeira sugestão veio do Inter: Anderson assumir o doping.

“Disseram que se assumisse, podia pegar uma suspensão mais amena, de uns quatro meses. Eu rejeitei, não tinha tomado nada. Depois foi a minha ex-mulher, com quem estava casado então, que se propôs a dizer que tinha sido culpa dela e tinha me dado um remédio errado. Também não quis”.

Perfil de Anderson na Placar de 1998. Via: Interpedia

Isolado na casa da sogra, Anderson evitou a rua nos dias seguintes. Acabou refugiado com a família em Florianópolis, onde também não saiu de casa. Numa das poucas vezes, almoçava em um restaurante quando uma TV passou a notícia do doping e pôde ouvir às suas costas o deboche em outra mesa. “Nem sabiam que eu estava ali. Era o que as pessoas estavam dizendo. Fiquei muito mal”, conta.

Começava a circular, todavia, a lembrança de uma história da guerra do Vietnã. Soldados enviados à frente de batalha, depois de comer bolo de papoula, haviam sido pegos no teste antidrogas. Então repórter da Zero Hora, Alexandre Corrêa ouviu-a de um médico, Eduardo de Rose, um dos maiores especialistas em doping no mundo.

Havia bibliografia médica apontando que atletas que ingeriram pão com sementes de papoula acabaram sendo pegos no antidoping com morfina. Também um antecedente: em 1993, o tetracampeão Zetti, então goleiro do São Paulo, foi acusado de uso de cocaína. Mais tarde, verificou-se que ele havia tomado chá de coca sem saber de suas propriedades e acabou absolvido. Seria um caso parecido?

“Liguei para o hotel [Transamérica] onde o Inter tinha ficado concentrado antes da partida contra o Santos (o exame foi realizado nesta partida) e perguntei se havia pães com sementes de papoula no cardápio para os hóspedes”, diz Corrêa. “A chefe de cozinha do hotel me confirmou que sim. Próximo passo: falei com Anderson e com os atletas que estavam com ele, que lembravam que havia pães com umas sementinhas pretas”.

As pautas da editoria de esportes, notadamente aquela dedicada ao futebol, no âmbito do jornal, especificamente em um jornal do Rio Grande do Sul, costumam girar em dezembro em torno de contratações, especulações e despedidas no Grêmio e no Inter e o modorrento trabalho de preparar a retrospectiva do ano. Havia uma final do Brasil em curso, entre Vasco e Palmeiras, mas exceto pela presença do zagueiro Mauro Galvão em um lado e Felipão em outro, poucos se interessavam.

Nos quatro anos em que trabalhei no jornalismo esportivo foi assim — junto com perguntas sobre o dia de pagamento do décimo-terceiro salário e discussões sobre a escala de trabalho no Natal e Ano Novo. Coube justo ao primeiro ter sido diferente.

Todos só falavam em Anderson, o jogador que usava heroína. Na redação, contudo, predominava a confiança na prova científica. Para todos, a conclusão médica parecia a mais sensata. Um editor achou inútil desmentir o exame com “aquela bobagem de ingestão alimentar”. Um psiquiatra especializado no tratamento a drogados insinuou que a droga tinha sido injetada. Assegurou:

“Pode comer um saco de pãezinhos com papoula que não aparece na urina”.

Tudo fazia mesmo sentido, exceto a conclusão de que um jogador de futebol injetara heroína.

Foi então que surgiu a ideia de comermos pão com papoula.

“Estávamos diante de dois fatos: o antidoping positivo do Anderson e sua defesa de que a culpa tinha sido do pãozinho com papoula servido no avião”, complementa Mário Marcos, então editor do jornal, atual comentarista do Sportv e blogueiro.

“Liguei então para um médico da comissão de dopagem”, continua Corrêa, “ e expliquei que gostaríamos de fazer um teste antidoping”.

O jornalismo, é difícil de acreditar hoje em dia, tem alguns limites. Um sério é não se colocar no lugar da história. Algumas facções como o New Journalism e o Gonzo tentam subverter o princípio, acrescentando as percepções do autor sobre a realidade como parte — mais — importante da realidade. Mesmo assim jornalistas conscientemente se tornando A notícia é algo rejeitado até hoje.

Em 1997, ainda não eram comuns reallity-documentários como O Infiltrado, de Fred Melo Paiva. Sequer Os estranhos fins de semana de Louis Theroux, precursor no formato do repórter-personagem, tinha sido visto por muita gente. Jornalismo, mesmo quando ousado, era formal como no Comando da Madrugada, de Goulart de Andrade. Mesmo se um repórter se disfarçava para trabalhar, como fazia Tim Lopes, havia limites. A relação com o assunto era a mesma: todos estavam ali para ver. Usar a si mesmo como cobaia era, assim, uma espécie de pequena revolução.

O médico concordou com uma condição: anonimato. Ainda que um prosaico teste realizado numa clínica a três quadras do jornal, o médico replicou a avaliação que condenara o jogador.

Fui fotografado na sexta-feira para o texto junto com os dois colegas — o outro era o Leonardo Oliveira, hoje editor do jornal, cada um segurando um pãozinho em cima de um prato (não é culpa minha). Nunca mais revi essa foto, se alguém um dia achar, queime. Mas lembro de ter tentado uma cara de neutralidade. Meu desafio eterno é encontrar a expressão certa de compenetrado.

Com o exame, o Inter repetiu o teste usando estudantes como voluntários. Anderson acabou absolvido. Nos dias seguintes, meu nome e dos outros dois repórteres saiu em outros jornais. Um colega do Rio ligou para me entrevistar. Fui citado em programas esportivos. Finalmente havia chegado à fama no jornalismo, depois de mais de dez anos de profissão, e tudo que havia feito foi comer um pão.
 

Mas é da natureza de reportagens que mesmo as melhores tenham fama efêmera e acabem rapidamente esquecidas. Mesmo para os autores surgem novas histórias e o significado se localiza na memória dos fatos. O que torna específica foi o quanto marcou os envolvidos.

“Eu era um jornalista principiante com pouco mais de dois anos de experiência como repórter de Zero Hora quando surgiu a notícia”, diz Alexandre Corrêa. “Pra mim, um jornalista principiante, marcou demais aquela reportagem. Lembro que um jornalista famoso da Placar ligou pra redação nos parabenizando e dizendo que tinha sido uma das melhores reportagens investigativas do ano”.

“Não era comum na época aqui na ZH o repórter ser personagem da matéria. Ficamos eu e o Kadão (Ricardo Chaves) fazendo a foto e nos divertíamos muito com a situação”, lembra Leonardo Oliveira.

“Foi um golaço que até serviu de referência para outros casos. O episódio apenas confirmou aquilo que eu tinha aprendido lá nos anos 70, no meu início na profissão: o jornalismo não deve se contentar com versões ou fatos anunciados. Precisa desconfiar e tomar iniciativas, se adiantar, checar e, se for o caso, até transformar repórteres em personagens, como fizemos”, afirma Mário Marcos.

Para Anderson, o episódio deixou sequelas. Liderava a escolha de melhor volante do Brasileiro até a denúncia, mas uma combinação de notas baixas na última rodada decretou a derrota. Discutia a ida para o Palmeiras, que seria multicampeão em 98 e 99, negócio afastado pelo caso. Um clube espanhol também estava interessado. Outro que desistiu.

Em 2000, finalmente deixou o Inter passou pelo Santos, Atlético-MG, Juventude e depois ficou oito anos na Itália até voltar ao Brasil, aos 35, para jogar no Criciúma em 2010 — o técnico era Argel, companheiro das divisões de base coloradas. Hoje é dono de uma cafeteria em Florianópolis.

Descobri bem mais tarde que há um episódio da série Seinfeld sobre comer papoula e cair no antidoping — acontece com uma personagem, Elaine —, do qual nunca ninguém tinha ouvido falar por aqui. Anos depois, o programa Mythbusters fez uma simulação do mesmo teste, considerado uma lenda urbana nos EUA.

Com menos detalhes, claro, o caso, descobri há algumas semanas, saiu em livro. Na página 114 de Doping e as faces da injustiça, após um relato, pela leitura dos jornais, os três repórteres e comedores de papoula são chamados de um dos “anjos da guarda da odisseia celestial”.

Alexandre Corrêa, Leonardo Oliveira e Alexandre Rodrigues, do jornal Zero Hora, foram os anjos da guarda da odisseia celestial.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2015, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.