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A relação entre conflitos internacionais e a Copa

Luiza Bandeira

Em 2001, a seleção de futebol de Senegal conseguiu se classificar pela primeira vez para uma Copa do Mundo. No ano seguinte, surpreendeu no torneio, chegando às quartas de final e vencendo, em um dos jogos, a então campeã mundial, França, sua ex-metrópole. Duas semanas após a despedida do torneio, Senegal atacou Gâmbia, em seu único conflito internacional de 1993 a 2010. Houve relação entre o desempenho esportivo do país africano e o conflito no qual ele se envolveu depois?

Para responder a essa pergunta, o cientista político Andrew Bertoli, da Dartmouth College, nos EUA, analisou o comportamento de 142 países que participaram de eliminatórias da Copa do Mundo entre 1958 a 2010. A conclusão foi que quem se classificava para a Copa do Mundo se tornava mais agressivo nas relações exteriores, com ameaças ou ações contra outros países, principalmente em nações onde o futebol é um esporte importante.

Medida de agressividade

O pesquisador mede essa agressividade pelo número de disputas interestatais militarizadas (MID, na sigla em inglês) iniciadas por um país. São considerados MIDs conflitos sérios entre países que não chegam a ser uma guerra, mas incluem demonstrações de força, como casos em que um país ameaça, exibe ou usa força militar contra outro país (neste último caso, são consideradas ações que resultam em menos de mil mortes). Na base de dados, uma ameaça conta 1 ponto em termos de intensidade de agressão. Já o início de uma guerra vale 20 pontos.

O banco de dados usado pelo cientista político é atualizado pelo projeto acadêmico “Correlates of War”. Segundo Bertoli, usar essa medida é mais eficaz do que contabilizar apenas conflitos armados e guerras, já que estas ocorrem com pouca frequência. Embora algumas disputas pareçam ter pouca importância quando analisadas isoladamente, elas oferecem, de acordo com o autor, uma boa forma de prever chances de conflitos maiores, porque mostram a predisposição de um país para agir de forma agressiva. Segundo o estudo, mesmo quando consideradas apenas disputas que envolvem conflitos com mais mortos e guerras, os resultados são os mesmos.

Como foi feita a comparação

Para o estudo, o pesquisador comparou países que se classificaram por pouco a países que ficaram de fora da Copa, também por pouco. Ou seja, países que tiveram resultados parecidos nas eliminatórias. A metodologia usada pretende garantir que a escolha dos países se assemelhe a uma escolha aleatória, o que é positivo em estudos do tipo, porque reduz o risco de outros fatores influenciarem os resultados da pesquisa. O raciocínio é semelhante ao que ocorreria se estudantes fizessem uma prova em que a nota para passar fosse 50. É provável que aqueles que tiraram 49 fossem bem semelhantes aos que tiraram 50, com a diferença que os primeiros foram reprovados e os segundos, aprovados.

O pesquisador formou pares de países (um classificado e outro não classificado), com fatores demográficos, políticos e econômicos semelhantes, de forma a tornar os países comparáveis, como, por exemplo, Paraguai e Uruguai. Em seguida, mediu o aumento de agressividade dos países que se classificaram com o aumento dos que não se classificaram. De acordo com Bertoli, os países que se classificaram para a Copa do Mundo se tornam mais agressivos, desde a classificação até dois anos após os torneios.

Nos anos seguintes às Copas, esses países iniciaram 50% mais disputas internacionais do que aqueles que não participaram do Mundial. Bertoli também fez uma comparação com estudos anteriores que analisaram a probabilidade de um Estado se tornar mais agressivo quando há uma revolução ou quando um líder com histórico militar é eleito. O efeito “classificação na Copa” é parecido com a eleição de um governante com experiência militar, ou ⅖ do efeito que uma revolução causaria. Não apenas os países classificados agrediram mais, como também suas ações foram mais intensas em nível de belicosidade. Quando considera-se o nível de agressividade dos países (lembrando que, na medida usada pelo pesquisador, uma ameaça de violência vale 1, enquanto o início de uma guerra vale 20), nos dois anos após a Copa do Mundo, os países que se classificam têm uma mediana (medida que identifica o valor do meio em um conjunto de dados) de 15, enquanto os que não se classificam pontuam 11. Os países que se classificaram deram início a 7 conflitos que resultaram em mortes; os que não disputaram a Copa, 1.

senegal2002

Lance da partida entre França 0 x 1 Senegal na Copa de 2002.

O nacionalismo como chave da pesquisa

Ao analisar o desempenho de seleções e a agressividade dos países, Bertoli buscou mais subsídios para entender um fenômeno mais amplo: como o aumento do nacionalismo no geral pode levar a conflitos internacionais mais sérios. Baseado em outros estudos, ele definiu o nacionalismo como “a prática de se identificar com um Estado-nação e ver outras nações como fundamentalmente diferentes – muitas vezes de forma negativa”.

Existem duas teorias sobre o tema. Para alguns pesquisadores, o nacionalismo pode aumentar a agressividade por parte de um Estado. Isso ocorre por três mecanismos, segundo eles: a violência entre cidadãos de dois países pode se transformar em conflito internacional; o nacionalismo pode convencer os cidadãos de que o outro país é inferior e que irá ceder se abordado; o nacionalismo pode afetar as crenças dos líderes, tornando-os mais linha-dura. A teoria de que o nacionalismo aumenta a probabilidade de conflitos é usada para explicar as conquistas do período imperial do Japão e da Alemanha, a dissolução da União Soviética e as guerras dos Bálcãs.

Outros estudiosos, porém, questionam a influência do nacionalismo como fator que origina conflitos. Segundo eles, a tomada de decisão internacional pode estar mais relacionada a outros fatores, como interdependência em relação a outros países. Além disso, eles argumentam que o sentimento nacionalista não varia de forma marcante o suficiente para afetar o comportamento do Estado. A dificuldade de estabelecer o impacto do nacionalismo em conflitos internacionais acontece porque não há nenhuma grande base de dados que monitore o sentimento nacionalista de países.

Além disso, muitas vezes o nacionalismo ganha força quando já há uma rivalidade e aumento de tensão entre dois países. Por isso, é difícil estabelecer se o nacionalismo causa o conflito ou se é causado por ele.

“Os líderes usam o nacionalismo para mobilizar a opinião pública para preparação militar e sacrifícios. Quando a guerra é iminente, por qualquer razão, a intensidade da propaganda aumenta. […] Por isso, costuma ser difícil mostrar que o nacionalismo é a causa de um conflito, porque ele geralmente é acompanhado e acentuado por outras causas para conflitos.”
Barry Posen Diretor do Programa de Estudos de Segurança do MIT, no estudo ‘The security dilemma and ethnic conflict’

O esporte como termômetro

Bertoli usou eventos esportivos internacionais como uma espécie de termômetro do sentimento nacionalista dos países. A escolha, de acordo com o artigo, faz sentido porque é praticamente consenso que esse tipo de competição reforça o sentimento de identidade nacional – diversos estudos mostram que a ideia de unidade nacional e antipatia em relação a outros países é reforçada nessas disputas.

Além disso, resolve a questão “quem vem primeiro”, a disputa ou o nacionalismo, já que nesse caso o nacionalismo advém necessariamente dos eventos esportivos, e não dos fatores políticos. Ou seja, o sentimento nacionalista, segundo o pesquisador, foi gerado por um fator externo, o evento esportivo, e não pelos próprios conflitos em si. Bertoli conclui, baseado nas análises de agressividade dos países, que eventos esportivos aumentam o sentimento nacionalista e que esse aumento é um fator que leva a mais agressões externas.

Ele afirma que o evento esportivo pode não ser o único causador da animosidade – na maior parte das vezes, diz, ela já existia. Mas, se não houvesse o evento esportivo, essa animosidade poderia não ter evoluído para uma disputa agressiva (um MID). Essa hipótese é levantada, por exemplo, quando ele analisa a “Guerra do Futebol”, entre El Salvador e Honduras, que teve origem em conflitos agrários, mas eclodiu durante as eliminatórias da Copa do Mundo de 1970.

O caso específico de Senegal

Após fazer a comparação entre os 142 países, o estudo se aprofundou apenas no caso do Senegal. O ineditismo da classificação, somado ao bom desempenho da seleção no Mundial, levaram à animação da população com o campeonato. Duas semanas após sua última partida no Mundial, o país iniciou uma disputa militar com Gâmbia, acusando o país de dar apoio a separatistas senegaleses. Nesse caso, ele considera que o nacionalismo causado pela classificação deu origem ao conflito com Gâmbia.

Para o pesquisador, “não há dúvidas de que o nacionalismo do futebol não foi a causa principal do conflito, cujas raízes antecedem a Copa de 2002 em pelo menos 20 anos. Mas os detalhes do caso sugerem que a Copa do Mundo foi um gatilho para a disputa”. De acordo com ele, a Copa causou um aumento do sentimento nacionalista no Senegal e afetou as decisões de política externa do então presidente Abdoulaye Wade. O evento também coincidiu com um aumento perceptível no alistamento militar e reforçou a percepção de que o país deveria resolver o conflito com os separatistas.

Por último, encorajou os senegaleses a ver sua nação como um país poderoso. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, citada no artigo, um torcedor disse, após a vitória contra a França: “De certa maneira já ganhamos, porque derrotamos os campeões mundiais. Mas de que adianta ganhar se isso não se traduz em ação política?”.

Bertoli conclui que, como o sentimento de nacionalismo gerado pelo futebol pode ter graves consequências, ele deveria ser considerado na hora de organizar torneios. Sugeriu, por exemplo, que eventos esportivos de grande porte não ocorram em países em que os líderes usam o sentimento nacionalista como justificativa para políticas agressivas.

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Este texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.