74.1

A construção cultural do torcer e a homofobia no futebol: notas para uma reflexão emergente

José Aelson da Silva Júnior

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né?/ Olha o sambão, aqui é o país do futebol.”(1) Já não se questiona, há muito tempo, o futebol como tradição e seu enraizamento na cultura e identidade do povo brasileiro. Assim, direta ou indiretamente, em algum momento da vida somos tocados por esse fenômeno.

Não me lembro com certezas do meu processo de encantamento, sedução e arrebatamento ao futebol. Atleticano, sempre que me pergunto – ou me perguntam – sobre o porquê dessa vinculação time/pertencimento à minha subjetividade de torcedor, me vem à lembrança o pôster, em destaque, na parede da sala da minha avó. O pôster em questão retratava a conquista do Campeonato Brasileiro de 1971 e, com grande orgulho, muito antes do meu nascimento (1982) já recebia todo e qualquer visitante que ali chegasse como traço cultural e demarcador de um território alvinegro.

As lembranças juntam-se como peças de um quebra-cabeça e outros elementos saltam em minha história pessoal – como na de milhões de brasileiros – quando, ao me apresentar em público, por exemplo, defino em minha subjetividade traços identitários e de pertencimento, reiterando a predileção por um time de futebol sempre evidenciado (como se houvesse um protocolo ou roteiro pré-estabelecido).

Tomando o futebol como prática de lazer dos brasileiros e buscando problematizá-lo a partir de uma relação com os estudos sobre gênero, lanço mão da seguinte questão: O futebol representa mesmo uma identidade coletiva? Todos os brasileiros se identificam ou mesmo são identificados como pertencentes a esse território?

Sendo o lazer uma prática que “supõe a formação de vínculos e implica determinadas formas de relação com o espaço e equipamentos urbanos”(MAGNANI, 1996, p. 34) e reconhecendo o futebol como traço de uma condição viril, como são enquadrados os que destoam desse paradigma, vista a rejeição de homossexuais ao campo do futebol?

Parece pertinente investigar as formas de expressão do preconceito, visto que o futebol é um dos contextos mais representativos da masculinidade, embora seja um espaço de manifestação e fruição da cultura e possibilidade de diversão, ou seja, “uma atividade em que o indivíduo possa experimentar/vivenciar momentos de lazer”. (GOMES, 2004, p. 124)

As experiências escolares também reforçam a presença do futebol no cenário educativo formal. Enquanto conteúdo esportivo hegemônico para a educação de meninos e, também, de meninas, essa experiência traz elementos que coadunam com a discussão a que nos prestamos.

“Nesses noventa minutos./ De emoção e alegria./Esqueço a casa e o trabalho”. Ainda nos versos de Milton Nascimento e Fernando Brant é possível tecer uma crítica ou problematizar sobre o espaço devotado ao Futebol e à conformação de seus códigos e valores como naturalizados e, portanto, banalizados em nossas relações no dia-a-dia. Questões sociais, econômicas e de ordem política são, por vezes, arrefecidas sob a pujança do esporte nacional.

Isso se desdobra às próprias relações que futebol, gênero e sexualidade vêm assumindo, historicamente. Desconsiderando a especificidade dos conceitos, o espaço do futebol em todas as formas de sua assistência está associado a uma masculinidade dominante, hegemônica e irrefutável.

Outra questão que merece atenção é a homofobia que se sustenta dentro dos espaços territorializados pelo futebol. Mesmo que fora dos estádios ou de outros desses territórios transitórios (bares, rodas de amigos/torcedores), questões sobre respeito à diversidade, entre elas as diferenças de gênero, sejam pauta, parece que nesses territórios viris há uma grande resistência quanto à acessibilidade de um público “desviante”, ou mesmo evita-se assumir discursos de tolerância e diálogo com sujeitos ou temas que desestabilizam o status imaculado do futebol.

Assim, como Milton e Brant nos diz em seu versos, “A vida fica lá fora./ Dinheiro fica lá fora./ A cama fica lá fora./ A mesa fica lá fora./ Salário fica lá fora./ A fome fica lá fora./ A comida fica lá fora./ A vida fica lá fora./ E tudo fica lá fora.”

A discussão que aqui se inicia busca problematizar as relações já tencionadas entre o futebol/torcer, como práticas radicadas do masculino, e a emergência de grupos “desviantes” que conclamam os seus direitos de acesso ao lazer no futebol, ocupando, também, os espaços reservados aos apaixonados pelo esporte bretão.

A divulgação nas redes sociais, desde o inicio de 2013, de grupos de torcedores intitulados “Torcidas livres de preconceito”, sob a adjetivação de termos que denotam referência à teoria Queer e apelidos depreciativos aos clubes – como Galo Queer e Bambi Tricolor – evidenciam os tabus acerca da temática homofobia no futebol.

A figura apresentada a seguir ilustra uma cena típica nos estádios de futebol, onde o modelo que chamamos de hegemônico é construída não apenas na valorização desse modo de subjetivação, mas também pela desqualificação de outras possibilidades de gênero e de sexualidade. Assim, torna-se mais masculino na medida que se questiona a masculinidade do outro.

Bih9jjQCcAAhvkr.jpg-large

Figura 1: Reprodução ITV Football – Twitter.

A provocação entre torcidas rivais busca, na desconstrução da masculinidade alheia, macular a sexualidade do outro, desconsiderando as próprias diferenças conceituais entre identidade de gênero e sexualidade. É necessário demonstrar que “não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou pensa sobre elas que vai construir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico.” (LOURO 2014, p. 25)

Se Foucault (1988) foi capaz de traçar uma história da sexualidade, isso aconteceu pelo fato de compreendê-la como uma “invenção social”, ou seja, por entender que ela se constitui a partir de múltiplos discursos sobre sexo: discursos que regulam, que normalizam, que instauram saberes, que produzem “verdades”.

Segundo reportagem do site UOL (2), o cartaz em questão faz referência aos ‘Gunners’ (apelido do Arsenal), chamando-os de ‘gays’, e ao meia Mesutözil, que é caricaturado na imagem em um desenho bastante sugestivo, uma mensagem direta e absolutamente coerente com o paradigma heteronormativo que alimenta o torcer no futebol. Os autores também desenharam um canhão (símbolo presente no distintivo do Arsenal) apontado para as nádegas de Mesut. Todos esses elementos compõem uma mensagem claramente homofóbica.

gaygooners

Arsenal LGBTQ Fans Group – Gaygowoners (reprodução)

Nessa ilustração (Fig. 1), assumindo a lógica do futebol como espaço heteronormativo, desqualificar a torcida adversária retirando-lhe os atributos do masculino parece estar naturalizado à cultura do torcer, em que comentários homofóbicos, que põem em xeque o predicado macho, assumem a categoria de xingamento, palavrão, condição desviante/anormal, defeituosa.

Notas:

(1) Fragmento da música Aqui é o país do futebol, escrita pela dupla do Clube da Esquina, Milton Nascimento e Fernando Brant, e que ganhou fama na voz de Wilson Simonal. Disponível em www.vagalume.com.br. Acessado em 25 de junho de 2015.

(2) Disponível em: <http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2014/03/13/bayern-pode-ser-punido-com-r200-mil-apos-cartaz-homofobico-de-torcedores.htm>

Referências:

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. ed.7. Rio de Janeiro: Graal,1988.

GOMES, Christianne Luce. Lazer – Concepções. In: ______. (Org). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica. 2004.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 16 edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

MAGNANI, Jose G. Quando o campo é a cidade: fazendo Antropologia na metrópole. In: MAGNANI, Jose G.; TORRES, Lilian de Luca (org.). Na metrópole: textos de antropologia urbana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp, 1996.