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Contra o Futebol Moderno – 2 #Clube Atlético Juventus

Victor de Leonardo Figols

No início do século XX, milhares de imigrantes chegaram ao Brasil com a garantia de trabalho e a possibilidade de enriquecer. A cidade de São Paulo foi o destino de muitos desses imigrantes, principalmente os italianos, que tinham o bairro da Mooca como um reduto. Na bagagem cultural, muitos deles traziam, além das ideias de esquerda, a vontade de reproduzir o jogo que começava a se tornar popular no mundo todo, o futebol. Foi nesse contexto das primeiras décadas do século XX que foi fundado o Clube Atlético Juventus.

Em 1924, o Juventus da Mooca, como passou a ser chamado carinhosamente, foi fundado por imigrantes italianos que trabalhavam em uma fábrica têxtil. A escolha do nome foi uma homenagem ao homônimo italiano, o Juventus Football Club, de Turim. Um ano depois, o jovem clube conseguia um espaço para praticar futebol na Rua Javari, que mais tarde viria a ser o seu estádio e o ponto de encontro dos juventinos.

O estádio Conde Rodolfo Crespi, também conhecido com Estádio da Rua Javari ou simplesmente Rua Javari, foi o palco de alegrias e tristezas dos juventinos. Ao longo dos anos, o pequeno estádio com capacidade para quatro mil pessoas passou a fazer parte do imaginário dos torcedores do Juventus, e da história do bairro da Mooca. É na Rua Javari que os juventinos se encontraram para torcer, e mais do que isso, para afirmar e reafirmar as tradições que compõem a história do clube e do bairro de origem italiana.

Desde sua fundação, o Estádio da Rua Javari permite que a torcida fique bem próxima do gramado e dos jogadores. Essa relação é bem menos excludente em comparação com os grandes clubes e com os grandes estádios. Assim, o torcedor se sente como parte fundamental do clube, isso pode ser percebido nos cantos e nos gritos do juventinos, que vão além de torcer pela equipe.

No setor 2 das arquibancadas é possível escutar a frase: “ódio eterno ao futebol moderno”. Mais do que uma expressão de repulsa às propostas modernizadores do futebol, a torcida clama pelo respeito às tradições e à história do clube, que foram constituídas desde sua origem, e que ao longo do tempo foram afirmadas e reafirmadas.

O grito da torcida contra o Futebol Moderno é uma resposta ao modelo da elite do futebol brasileiro, e à própria diretoria do clube. Existe uma ala da diretoria que tem uma proposta modernizadora do estádio e do clube como um todo. Eles entendem que o Juventus possa ser um grande clube, como uma marca consolidada. Consequentemente os torcedores são visto como consumidores em potencial. Aqui vale lembrar que, o Juventus possui um grande número de adeptos e simpatizantes.

Ilustração: Leonardo Sang – cargocollective.com/leosang.

Em 2006, essa ala da diretoria apresentou uma proposta modernizadora do estádio. A proposta passaria desde reformas de infraestrutura até a instalação da iluminação no estádio. Algumas obras foram realizadas, como por exemplo, a reforma nos alojamentos, no estacionamento, nos vestiários e nos banheiros. Com o argumento de oferecer maior conforto para os torcedores, algumas mudanças também foram realizadas em alguns setores da arquibancada e nos camarotes. Todavia, a instalação da iluminação não foi concretizada.

Ainda existe um projeto maior, que levar o clube de volta à primeira divisão. E mais do que isso, propõe a construção de um grande estádio, uma arena com capacidade para 20 mil torcedores. A proposta também prevê a venda do naming rights do estádio, além de reforçar e consolidar o Juventus enquanto uma marca.

Boa parte dos torcedores é contra essa proposta, uma vez que defendem que o estádio define o modo como eles torcem. Mais do que isso, o estádio faz parte da história do clube, e remete as tradições italianas e operárias do clube. Além disso, a construção de um novo estádio acarretaria na elitização das arquibancadas e, portanto, expulsaria boa parte dos atuais torcedores.

A torcida denominada Setor 2 é o principal grupo a levantar a bandeira contra o Futebol Moderno. Esse grupo é contrário aos altos valores de dinheiro que circulam no futebol. Mais do que isso, eles são contra a infiltração de empresários dentro do clube, muitos deles não querem ver o clube na mão de empresários e muito menos que se transforme em uma empresa.

Ir contra aos interesses de empresários é ir contra a construção de um novo estádio, é ir contra a elitização das formas de torcer. O sentimento de pertencimento do clube passa necessariamente pelo estádio. Torcer pelo Juventus é morar na Mooca, é vestir a camisa grená, é ir aos domingos na Rua Javari, é comer o cannoli do senhor Antônio García no intervalo do jogo, é entender as tradições do clube, é entender a importância do estádio para o Juventus.

Por fim, no Juventus, a relação entre torcedor e clube passa pelo estádio. É ele quem define a identidade dos torcedores. É o estádio que define a forma de torcer. Na Rua Javari os juventinos se reconhecem, e reconhecem a sua história, é nessa relação que afirmam e reafirmam as suas tradições, as suas identidades. Assim, para os juventinos, ir contra o Futebol Moderno é defender tudo aquilo que define o Juventus, isto é, um clube pequeno que fundado por imigrantes italianos de origem operária.


Esse texto foi originalmente publicado no blog O Campo e cedido para publicação nesse espaço.